Lei da selva
O Paris Saint-Germain encaminhou sua vaga às oitavas de final da Liga dos Campeões com uma goleada por 4 a 0 sobre o Dínamo Zagreb no Parc des Princes. Apesar de o placar sugerir um massacre do time da capital no Parc des Princes, o PSG mais uma vez exibiu um futebol pragmático, mas eficiente o suficiente para colocar os adversários em seu devido lugar. A tranquilidade da equipe se opõe ao inferno vivido pelo Montpellier, derrotado de novo pelo Olympiacos e dependente de um milagre para avançar até mesmo para a Liga Europa.
O jogo na Croácia já havia mostrado quem mandava no pedaço. Aliás, se o Dínamo Zagreb não consegue se impor em casa, longe dela se torna presa ainda mais fácil de ser devorada. Só faltou uma plaquinha no pescoço com os dizeres ‘estou dando mole’. Mesmo com tanta facilidade pela frente, o PSG demorou para engrenar e só conseguiu deslanchar na meia hora final da partida.
Carlo Ancelotti mudou a escalação da equipe pela enésima vez e decidiu mandar a campo Rabiot, Sissoko e Lavezzi como titulares. As opções do treinador se revelaram pouco produtivas. O atacante argentino errou passes demais e foi infeliz em suas tentativas de finalizar. Sissoko sentiu sua falta de ritmo de jogo e, em nível físico abaixo do exibido por seus companheiros, destoou e foi substituído no intervalo. Sua sorte é que o rival era dos mais frágeis.
Morno, o PSG viu o time croata se animar em incursões ao seu meio-campo – tal como um antílope metido a besta dando sopa no meio de um recanto de leões. Os donos da casa mostravam até um certo desinteresse pelo que acontecia ali. O gol de Alex, após escanteio de Ibrahimovic, pouco animou os parisienses, apáticos pela certeza de que a vitória seria bem fácil.
Todo o clima bocejante prevaleceu na segunda etapa até Ibrahimovic resolver mostrar suas qualidades de garçom. Mais dois passes decisivos do sueco deram origem aos gols de Matuidi e Ménez em um intervalo de apenas quatro minutos. O Dínamo Zagreb sangrava pela jugular e deixou os corredores abertos para Ibra dar seu golpe fatal. Nova assistência, gol de Hoarau diante da meta vazia e mais uma presa abatida. Não exatamente da forma como se vê no National Geographic, mas com a destreza necessária para saciar a fome de sua prole.
Já o Montpellier… Bem, o atual campeão francês está mais para aquela presa destroçada com requintes de crueldade por seu predador. Assim como na última temporada, o campeão francês está fora das oitavas de final da LC. O MHSC apanhou de 3 a 1 do Olympiacos na Grécia e nem deve se classificar para a Liga Europa, que serviria como um prêmio de consolação. A equipe vê da pior forma possível seu tamanho real dentro da Europa.
Quando um time tem uma diferença nítida com referência ao Olympiacos, pouco pode se esperar. O Montpellier viu no rival grego aquilo que lhe faltou: uma equipe talhada pelas participações na LC, mesmo que não tenha feito campanhas brilhantes ou obtido feitos memoráveis. A experiência adquirida pelas seguidas participações no torneio fez o Olympiacos adquirir um status de equipe chata, que ao menos almeja beliscar um lugar nos mata-matas.
Desde a saída de Olivier Giroud, o Montpellier convive com um deserto de ideias em seu ataque. A defesa não tem peso suficiente para suportar pressões adversárias, até porque Yanga-Mbiwa sente dificuldades e, mesmo com um parceiro de mesma qualidade, teria problemas por conta da fragilidade na proteção dada pelo meio-campo. Em suma: este MHSC não tem o nível necessário para disputar um torneio continental com um mínimo de desenvoltura.
Resta agora se concentrar na disputa da Ligue 1, na qual a situação do time também está longe de ser das mais confortáveis. Em 13º, a vida do Montpellier se mostra bem complicada, já que na rodada do fim de semana pega nada menos que o Paris Saint-Germain. Vida de pequeno na LC costuma ser cruel. Bobeou, vira almoço.
Bruce Ibra
Como se sabe, Zlatan Ibrahimovic é faixa preta no ta kwon do. O atacante do PSG costuma usar seus conhecimentos nesta arte marcial em campo – para o bem e para o mal. Desta vez, não foi para golpear a bola, mas sim o goleiro do Saint-Étienne. Resultado: cartão vermelho, derrota em pleno Parc des Princes, perda da invencibilidade na Ligue 1 e a possibilidade de deixar a liderança para Olympique de Marselha ou Lyon.
Qual foi o segredo do Saint-Étienne para derrubar o líder invicto? No primeiro tempo, os Verdes se defenderam muito bem, neutralizando as parcas ações ofensivas do PSG – concentradas, claro, em Ibrahimovic. Os donos da casa repetem à exaustão suas atuações pouco inspiradas, mas desta vez não apresentaram aquela eficiência que fez a diferença nas partidas anteriores.
Com a primeira parte do plano bem executada, o Saint-Étienne partiu para a segunda etapa: atacar sem temor. Inicialmente, este objetivo não foi alcançado por conta com Brandão, Hamouma e Gradel. O panorama só mudou com a entrada de Aubameyang no segundo tempo. O camisa sete do ASSE incendiou o jogo e teve participação direta nos dois gols dos Verdes: atrapalhou Sakho, autor de gol contra, e também deixou o seu nas redes de Sirigu.
O PSG não demonstrava reação e Ibrahimovic colocou tudo a perder por sua entrada de kung fu em Ruffier. Claro que o PSG não perdeu apenas pela expulsão do sueco. Verratti, de início promissor entre os titulares, vem caindo de produção a cada rodada e deixou de ser aquele meio-campista combativo e de boa presença na frente. Pastore, nem precisa dizer, continua vagando por aí.
Além do Olympique de Marselha, vencedor de seu duelo na Córsega contra o Ajaccio, o Lyon aparece com força para roubar a liderança do PSG. No melhor jogo da rodada, o OL fez 5 a 2 no Bastia em Gerland com emoções a rodo. O que parecia ser uma vitória tranquila dos lioneses ganhou contornos dramáticos com a reação dos corsos. O alívio só veio na segunda etapa, com gols no fim – e tudo isso regado com expulsões, pênaltis e lances perigosos de lado a lado.
O Lyon entrou em campo em um 4-2-3-1, com Gourcuff em boa jornada. O oportunismo de Gonalons e a sorte de Lacazette deram aos donos da casa a vantagem de dois gols em menos de meia hora de jogo. Pura ilusão. Khazri e Rothen empataram para o Bastia, com prejuízo ainda maior para os lioneses com a expulsão de Lovren. A partida ficou aberta, mas foi decidida apenas no segundo tempo. Melhor para os lioneses, mas não sem momentos de angústia.
A tranquilidade só veio quando Harek foi expulso ao cometer pênalti e Lacazette converteu a cobrança. Mesmo contra um Bastia forte fisicamente, o OL soube gerenciar a partida e acabou premiado com dois gols nos acréscimos. A surpresa foi o excelente desempenho de Gourcuff na organização do meio-campo lionês. Talvez por isso tenha caído um dilúvio em Gerland.