França

La main de Dieu

Os franceses já haviam visto um filme parecido há alguns anos. A partida contra a Irlanda no Stade de France trouxe na memória dos Bleus o duelo contra a Bulgária, que deixou Paris com a vaga para o Mundial e deixou os donos da casa atônitos. Os irlandeses se sentiram em casa, dominaram o jogo, desperdiçaram várias oportunidades para definir a classificação, mas foram prejudicados por um erro grosseiro de arbitragem. Raymond Domenech vibrou com a jogada irregular, mas o lance não foi mais bizarro do que suas escolhas para o decisivo confronto.

Exatamente como no jogo de ida no Croke Park, a França adotou uma postura de extrema cautela, esperando o inimigo em seu campo de defesa. Era um convite perigoso para que os irlandeses explorassem os longos lançamentos e se sobressaíssem na segunda bola – fruto da falta de opções para a saída para o ataque dos Bleus. Para piorar, Escudé foi vítima do “cotovelo amigo” de Evra e, com o nariz fraturado, foi obrigado a deixar o campo.

Incapaz de se impor frente aos visitantes, a França se limitou a sofrer a pressão do adversário. A lógica foi colocada em prática aos 32 minutos, com o gol de Robbie Keane. Enquanto isso, em campo, os Bleus continuavam seu ritmo monocórdico, sem esboçar uma reação qualquer. Com o meio-campo perdido, exatamente como no jogo de Dublin, os franceses estavam completamente à deriva.

No segundo tempo, Domenech resolveu mudar o panorama das coisas. Para tentar fortalecer o lado direito do ataque, o treinador tirou o quase nulo Gignac e colocou Govou. A última substituição veio já no fim do tempo normal. O apagado Gourcuff deixou o gramado para a entrada de Malouda, o que mudou a formação tática da equipe. Os Bleus deixaram de lado o 4-3-1-2 para adotar o 4-4-2 ao qual ainda tentam se adaptar.

No banco de reservas, Benzema observa tudo isso sem esboçar muitas reações. Domenech poderia muito bem ter escalado o atacante do Real Madrid desde o começo do jogo, com Henry e Anelka pelas pontas. No entanto, o treinador mostra não ter um pingo de confiança no atleta, que ainda não convenceu com a camisa azul. Bom, se as oportunidades não chegam, fica um pouco difícil para Benzema abandonar o estigma de “jogador de clube”.

Com a nova formação, a França teve maior força ofensiva, é verdade, mas muito por conta da necessidade. Se você está perdendo em casa, na prorrogação, em uma partida que vale vaga na Copa do Mundo, é de se esperar um mínimo de esforço para evitar um fiasco retumbante. Fracasso que estaria consumado se Lloris não salvasse o time com defesas providenciais.

E, de novo, a Irlanda abusou de seu jogo pelo alto. Como na primeira partida, a defesa francesa sofreu para conter este tipo de jogada manjadíssima. O alívio só veio no lance irregular de Henry, graças à má colocação do árbitro e da visão pouco acurada do bandeirinha. O gol de Gallas coroou a incapacidade de Domenech que, além de tudo, subestima a inteligência de todos ao declarar que não houve nada de anormal na jogada.

A França estará na África do Sul e pode até mesmo repetir o surpreendente desempenho da Copa passada. No entanto, poderia oferecer um espetáculo bem melhor do que esta “ode à malandragem” exibida logo depois do apito final. E, pelo menos até o ano que vem, teremos que aturar um pouco mais as extravagâncias (para não dizer loucuras) de Domenech.

Inferno verde

Os irlandeses haviam prometido fazer a França se arrepender de pisar no gramado do Croke Park. Só que os Bleus não encontraram o diabo, muito menos se abalaram com o panorama que os donos da casa queriam colocar. O primeiro jogo da repescagem entre as duas seleções foi o que se imaginava: um duelo de raras chances, com os anfitriões sem imaginação ofensiva, uma defesa sólida e os visitantes com sérios problemas para vencer a barreira adversária.

Os primeiros 45 minutos foram de um marasmo quase sonífero. Os franceses simplesmente entraram no jogo da Irlanda, acomodaram-se em sua defesa e esperaram para ver do que os anfitriões realmente eram capazes. Lawrence perdeu um gol feito, mas isso também não dizia que os donos da casa colocaram os Bleus nas cordas. A partida seguia seu ritmo lento, pautada pelas disputas no meio-campo, lançamentos sem efeito e uma grande falta de imaginação das duas partes.

Na segunda etapa, a França sofreu com algo já anunciado há tempos. A defesa azul quase sempre levou a pior na especialidade dos irlandeses: as jogadas de bola parada. Fosse em cobranças de falta ou de escanteio, os franceses se atrapalhavam na marcação. Para sorte dos Bleus, Dunne e O’Shea, deixados livres pelos defensores, não tiveram êxito em suas tentativas.

A França só começou a sair desse rame-rame quando se lembrou de que Gourcuff estava em campo. Durante todo o primeiro tempo, o meio-campista do Bordeaux mal teve chances de armar o time para o ataque. A França atuou recuada e, quando tinha a posse da bola, encontrava dificuldades para tocá-la com qualidade devido à marcação adiantada dos donos da casa. As ligações diretas da defesa para o ataque o privaram de organizar a saída de bola francesa do seu gosto.

O efeito deste encolhimento foi a presença de Henry e Anelka no meio-campo – para se ter uma noção de como os Bleus estavam mais preocupados em se defender do que em buscar alguma jogada ofensiva. Na etapa final, o cansaço da Irlanda permitiu aos visitantes subir ao ataque com maior frequência e qualidade. Era chegada a hora de a França finalmente se impor em campo.

Para furar o bloqueio irlandês, a fórmula era explorar as jogadas em velocidade. Em uma delas, com a participação de Gourcuff, os Bleus chegaram à vitória graças ao gol de Anelka. Nos cerca de 20 minutos seguintes até o apito final, Lloris mostrou os motivos pelos quais ocupa a vaga de titular da seleção.

O goleiro do Lyon recebeu diversas críticas pelas falhas cometidas no incrível empate por 5 a 5 contra o Olympique de Marselha pela Ligue 1. No entanto, Lloris demonstrou segurança e frieza suficientes para deter duas conclusões de Whelan no finzinho da partida, que mudariam completamente o rumo da história. Se haviam prometido o inferno em Dublin, os Bleus tiraram de letra.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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