França

Golpe lionês

Disposto a recuperar sua coroa, o Lyon deu o grande golpe da janela de transferências na França. Se alguém estranhava que o clube estava parado no mercado, com gastos reduzidos e contrariando sua política anterior, eis que o OL surpreende mais uma vez. Por € 22 milhões, mais bônus de € 4,5 milhões, o presidente Jean-Michel Aulas tirou Yoann Gourcuff do Bordeaux. Um claro sinal de novos tempos em Gerland.

A bem da verdade, o Lyon há tempos procurava por um sucessor para Juninho pernambucano, seu ídolo maior e condutor na formação da hegemonia lionesa na Ligue 1. Éderson foi contratado do Nice por uma pequena fortuna exatamente para preencher o espaço deixado pelo compatriota, mas encontrou problemas para se adaptar, não repetiu as mesmas atuações da época do OGC e fracassou.

Na temporada passada, despontou o talento de Miralem Pjanic. O jovem bósnio, de 20 anos, porém, ainda não tinha a experiência necessária para carregar tamanha carga em seus ombros. Embora tenha jogado muito bem, especialmente na Liga dos Campeões, o meia está mais para o papel de aprendiz do que de mestre. Agora, Pjanic terá a companhia da principal esperança francesa nos últimos tempos.

Há quem considere Gourcuff um flop por conta de seu brilho ter se apagado completamente durante a Copa do Mundo, quando mais se esperava dele. Não dá para se crucificá-lo como o único responsável pelo fiasco dos Bleus na África do Sul, embora tenha sim uma parcela de culpa. Deve-se lembrar que ele foi para o Mundial fora de sua melhor forma física, como ficou comprovado nas rodadas finais da Ligue 1 – seria uma coincidência a queda de rendimento do Bordeaux quando o meia estava mal?

Nestes primeiros jogos da Ligue 1, um problema saltou aos olhos no OL. A falta de criatividade no meio-campo, aliada à incapacidade de manter a bola sob seu domínio fez o Lyon enfrentar muitas limitações contra adversários pouco ameaçadores. Na temporada passada, salientou-se a ausência de alguém capaz de organizar o jogo, coordenar o ritmo da equipe e ser uma referência em campo. Lisandro López, isolado no ataque, por inúmeras vezes se viu obrigado a atuar recuado se quisesse participar dos jogos. Agora, o argentino pode ficar mais sossegado e se preocupar apenas com sua função.

O técnico Claude Puel também vê aumentar suas possibilidades táticas na equipe. Ele pode usar um 4-4-2 com um meio-campo em diamante – Gourcuff em um dos vértices, logo atrás dos atacantes, com Källström e Pjanic no miolo e Gonalons na proteção à zaga. Há também as variantes de um 4-3-3 ou até um 4-2-3-1 à Domenech. Basta escolher qual a melhor formação de acordo com os adversários.

Enquanto no Lyon tudo é festa, no Bordeaux prevalece a tensão. A saída de seu principal jogador deve ser o estopim para uma debandada que a duras penas foi evitada nas épocas anteriores. Nas últimas semanas, Wendel não fez questão de esconder seu descontentamento com o impasse na renovação de seu contrato. Leia-se: o melhor cobrador de faltas da Ligue 1 também pode sair a qualquer momento.

Da mesma forma, Fernando Cavenaghi também pode se despedir dos Marine et Blanc – até o Corinthians estará interessado no atacante argentino. Tantas despedidas em um intervalo de tempo tão curto enfraquecerão um setor ofensivo quase nulo neste início de Ligue 1. Nos três primeiros jogos dos girondinos no torneio, o time marcou apenas três gols – e todos eles por jogadores que não atuam no ataque (Plasil, Ciani e Alou Diarra).

Com dinheiro no bolso, mas o tempo contra, o Bordeaux tenta se preparar para substituir Gourcuff e outras possíveis perdas. Fala-se em Yohan Cabaye (Lille) e Julien Féret (Nancy), mas os dois clubes não estão dispostos a negociar dois de seus principais destaques. Para quem sonhava em voltar à Liga dos Campeões, o mercado se mostra cruel com o Bordeaux.

Blanc et noir

As primeiras semanas de Laurent Blanc à frente da seleção francesa se mostraram bastante complicadas. Se o treinador espera alguma facilidade, viu que seus sonhos eram apenas um castelo de cartas que não resistiu ao primeiro ventinho. Como se não bastasse a grande tarefa de limpar toda a sujeira deixada pelos Bleus na Copa do Mundo, o técnico mal começou a arrumar a casa e apareceu alguém para jogar um último saco de sujeira por ali. Para completar, em terreno tão escorregadio, era natural sofrer a primeira queda.

A Federação Francesa (FFF) anunciou suas punições a alguns dos envolvidos no vexame de Knysna. Nicolas Anelka pegou um gancho de 18 partidas pela seleção. Seria muito mais simples dizer ao atacante “tchau, obrigado por tudo” do que impor uma sanção deste tamanho. O atacante, no centro de toda a polêmica, dificilmente vestiria a camisa azul novamente, tanto do ponto de vista técnico como pela péssima imagem deixada. Se a intenção era aposentarem-no, conseguiram de forma covarde.

Claro que Anelka teve sua parcela de culpa em todos os episódios ocorridos na África do Sul, mas ele nada mais fez do que expressar o desejo de um grupo cansado de um Raymond Domenech cada vez mais sem comando e mais para um Napoleão em fim de carreira. Enquanto o atacante ria das palhaçadas da FFF, Evra, Ribéry e Toulalan também foram suspensos (cinco, três e uma partida, respectivamente). Aí residem os problemas de Blanc.

Se por um lado o treinador pode substituir Anelka sem grandes problemas (Benzema está aí), a ausência destes jogadores importantes o deixa preocupado para o início das eliminatórias da Eurocopa-2012. Como o próprio Blanc destacou, não é a situação ideal para o começo de um trabalho e a largada para um torneio de suma importância para os Bleus. A classificação para a Euro se tornou uma obrigação para um grupo que deseja limpar sua barra – e isso sem contar o escândalo Zahia no qual Benzema e Ribéry estão enrolados.

Enquanto insistirem em preencher com notas de rodapé, asteriscos e citações sem fim, a página francesa referente ao Mundial se tornará uma das mais longas da história. Blanc quer dar um fim a tudo isto, mas nem a punição simples que resolveu aplicar (quando não chamou qualquer um dos 23 da Copa para o amistoso contra a Noruega) pareceu aplacar a fúria dos caçadores de bruxas. Se um deseja iniciar um capítulo novo, há 300 querendo dizer “vejam só como estou preocupado em moralizar o futebol francês”, mas sem olhar para o próprio umbigo.

Obviamente há a necessidade de se esclarecer o que houve em Knysna, mas o exagero, a falta de foco e, principalmente, a falta de agilidade para resolver e enterrar o assunto só prejudicam quem mais precisa se recuperar. Contra a Noruega, a seleção francesa fez seu primeiro jogo após o fiasco em campos sul-africanos. Apesar da derrota de virada por 2 a 1, houve algumas coisas para se ter algum alento.

O resultado em Oslo era o menos importante para os Bleus. O que realmente estava em campo era a reação de um grupo novo com a responsabilidade de provar seu valor e merecer futuras convocações. Os dois destaques apareceram no meio-campo. O jovem Yann M’Vila, de apenas 20 anos, demonstrou maturidade suficiente em seu papel como marcador. Já Samir Nasri provou como sua qualidade na armação fez muita falta na África do Sul.

Blanc, porém, mal teve tempo para comemorar o desempenho de Nasri, já que o meia se lesionou e ficará fora do início da caminhada azul nas eliminatórias da Euro-2012. M’Vila, por sua vez, cumpriu à risca as ordens do técnico: jogar simples, sem enfeitar para impressionar, e facilitar a saída de bola para o ataque. Conseguiu com méritos, o que certamente lhe abre uma porta para um futuro promissor.

Nasri se mostra como uma alternativa bastante viável a Gourcuff, mas pelo jeito depende da escolha do sistema tático de Blanc. O meia se destaca mais em um 4-4-2, mas fica um pouco mais perdido em um 4-2-3-1 como o utilizado na segunda etapa. Seus colegas da geração 87 ganharam pontos, embora com menor destaque. Hatem Ben Arfa fez o gol e se movimentou bem, tentando abrir espaços. Jérémy Menez e Karim Benzema, mesmo sem condições físicas ideais, ao menos exibiram grande vontade e participação no jogo.

Na defesa, Philippe Méxès transmitiu segurança para um setor repleto de jovens. Resta saber se ele teria a mesma tranquilidade ao lado de outros jogadores com experiência semelhante à dele. Charles N’Zogbia, Adil Rami e Aly Cissokho, por sua vez, tiveram atuação tímida. Lassana Diarra, que perdeu sete bolas durante o jogo – uma delas resultou no segundo gol dos noruegueses – não pode ser condenado friamente.

Além das mudanças em campo, outras foram vistas já em Clairefontaine. O ambiente fechado, de quase mistério total dos anos Domenech, ficou para trás. Com treinos abertos, a seleção restabeleceu o contato com seus torcedores. O ambiente com a imprensa também melhorou, com um treinador mais bem disposto a responder às perguntas dos jornalistas e sem usar recursos irônicos ou de má educação.

Dois detalhes chamaram a atenção. O primeiro foi ver, enfim, os jogadores caminharem sem os malditos fones de ouvido. Foi uma imposição, mas que sem dúvida passa uma imagem menos arrogante de quem não queria nem saber o que se passava debaixo do seu nariz, em um sinal de extremo egoísmo e desprezo. Outro foi ver a Marselhesa cantada a plenos pulmões.

Podem parecer coisas muito pequenas à primeira vista. Bom, se o respeito ao torcedor e a um símbolo nacional tão forte para os franceses como o hino nacional forem resgatados, Blanc começou seu trabalho de forma excepcional.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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