Ginola, 50 anos: O mágico idolatrado por várias torcidas, mas execrado por um erro na seleção

Nenhum outro ser humano viu o futebol como Johan Cruyff. Não digo exatamente que ele viu melhor. Mas a visão do gênio holandês era única, e ajudou a expandir fronteiras no esporte. Assim, o veterano polemizasse em demasia algumas vezes, valia sempre tentar entender para qual direção do horizonte que ele estava olhando – nem que fosse para discordar. E quando Cruyff declarou, no final dos anos 1990, que David Ginola era o melhor jogador em atividade no mundo, você tenta perceber qual o diferencial do meia, em tempos de Zidane, Ronaldo, Rivaldo e outras lendas. A fama do mágico francês esteve aquém de seu talento. Mas, mesmo que Cruyff tenha superestimado a sua avaliação, o ex-candidato à presidência da Fifa foi mesmo um jogador virtuoso. Não à toa, ídolo na França e na Inglaterra, que completou 50 anos na última quarta.
Badalado nas seleções de base, Ginola foi revelado pelo Toulon, dando saltos maiores aos 21 anos. Contratado pelo Matra Racing, atuou em um elenco caro, mas que não conseguiu emplacar na Ligue 1, a despeito do investimento. O prodígio passou duas temporadas no clube da capital e até mostrou serviço, o que não foi o suficiente para evitar o rebaixamento em 1990. No mesmo ano, se transferiu para o Brest e ganhou a primeira convocação à seleção principal da França, com Michel Platini. Todavia, se o seu talento evidente encantava os torcedores, por outro lado não conseguia evitar o destino infeliz de suas equipes. Caiu outra vez e disputou metade da segundona com os alvirrubros.
A virada na carreira de Ginola aconteceu em meio ao caos. O Brest passava por uma grave crise financeira e, para chamar atenção dos dirigentes, os jogadores chegaram a realizar um boicote em pleno clássico contra o Guingamp, organizado com participação ativa do jovem meia, capitão aos 24 anos. Os alvirrubros se reuniram com o presidente da liga para formalizar a ajuda, mas isso não evitou a falência dias depois, em dezembro de 1991. O clube acabou dissolvido, foi automaticamente rebaixado e os atletas liberados a assinar com outras equipes. Assim, o novato surgiu como nome para o futuro do Paris Saint-Germain, que passara a ser bancado pelo Canal+ e prometia montar um esquadrão.
Ginola foi um dos primeiros reforços do célebre time construído pelo PSG na metade inicial da década de 1990. Ao seu lado, também vieram jogadores como George Weah, Ricardo Gomes, Valdo, Raí, Paul Le Guen. Com um time tão competitivo, os parisienses encerraram o jejum de taças que durou sete anos. Faturaram duas vezes a Copa da França e, de maneira emblemática, a Ligue 1 em 1993/94. O meia foi o único a participar de todas as partidas daquela campanha, terminando como artilheiro da equipe, com 13 gols. Sua habilidade e o estilo incisivo valeram demais ao esquema de jogo. Tanto que acabou eleito o melhor jogador do campeonato naquela temporada, mesmo com outros craques ao seu lado. O camisa 11 também foi peça-chave na jornada até as semifinais da Liga dos Campeões 1994/95, na qual os franceses eliminaram o Barcelona de seu “admirador” Johan Cruyff – na Recopa Europeia da temporada anterior, inclusive, já tinha ganhando reputação na Espanha por acabar com o Real Madrid.
Naqueles tempos, Ginola vivia o seu período de maior destaque na seleção francesa. A ida ao PSG cavou seu espaço nos Bleus. O que, no fim das contas, também seria a sua desgraça. Titular durante boa parte das Eliminatórias à Copa de 1994, ele estava em campo na fatídica derrota para a Bulgária no Parc des Princes. Pior, foi dele o erro que permitiu a classificação da Bulgária e, consequentemente, a eliminação da França. Aos 44 do segundo tempo, em uma falta na lateral, ao invés de segurar a bola, o meia resolveu cruzar para Éric Cantona. O passe a esmo armou o contra-ataque concluído por Emil Kostadinov, que decretou a vitória por 2 a 1. Ginola virou bode expiatório. O próprio técnico Gérard Houllier o desancou publicamente, dizendo que era o “assassino do time” – o que rendeu um processo na justiça, tempos depois.
Por mais que voasse no PSG, Ginola teve que lidar com as críticas constantes. Até voltou aos Bleus, depois que Aimé Jacquet assumiu. Só que preferiu deixar a França em 1995. Acabou contratado pelo Newcastle, então uma das potências da recém-criada Premier League. Depois de sua mudança para a Inglaterra, só recebeu mais duas convocações à seleção. Em compensação, foi idolatrado por algumas das torcidas britânicas mais apaixonadas.
Ginola viveu uma ótima temporada inicial em St. James’ Park. No primeiro mês, foi eleito o melhor jogador da liga e também esteve no time ideal ao final do campeonato. Treinado por Kevin Keegan, o Newcastle sobrava na Premier League. Chegou a liderar o campeonato com 10 pontos de vantagem. Só que perdeu fôlego no meio do caminho e deixou o título, que parecia ganho, escapar para o Manchester United. Apesar da derrapada, o francês não manchou sua reputação, um dos mais adorados pela torcida. E ganhou ainda mais moral em outubro de 1996, justamente contra o Red Devils, gastando a bola na histórica goleada por 5 a 0 sobre os rivais. No meio de sua segunda temporada, porém, perdeu espaço no time, após a chegada do técnico Kenny Dalglish. Acabou saindo em 1997/98, negociado com o Tottenham.
Já em White Hart Lane, Ginola desfrutou de seu maior sucesso na Inglaterra. Foram três temporadas defendendo os Spurs, em tempos modestos para o clube na Premier League, ocupando posições intermediárias na tabela. Mas não por culpa do francês. O meia justificava ainda mais o seu apelido de “mágico”, com grandes gols e belos dribles, incontestável individualmente. Em 1998/99, os londrinos terminaram no 11° lugar e, mesmo assim, Ginola foi eleito o melhor jogador da liga pelas associações de jogadores e de jornalistas – e em meio a uma campanha marcante do Manchester United, dono da tríplice coroa. Naquela temporada, inclusive, o francês ajudou o time a chegar à semifinal da Copa da Inglaterra e ao título da Copa da Liga Inglesa, derrotando o Leicester na final. A admiração por seu futebol era tanta que ele foi citado na votação à Bola e Ouro em 1999 e também apareceu na lista de melhores do século elaborada pela revista World Soccer.
O gênio difícil, porém, minava os espaços de Ginola. Embora houvesse quem defendesse seu retorno à seleção francesa, o veterano nunca mais foi chamado. Em 2000, o Tottenham optou por se desfazer do meia, aceitando uma proposta do Aston Villa, o que o magoou. No Villa Park, viveria mais uma boa temporada, antes de ver sua carreira entrar no ocaso. A gota d’água veio em janeiro, suspenso por pisar em um adversário e ainda brigar com o quarto árbitro por isso. Vendido ao Everton na janela de inverno, pouco rendeu e, em maio, pendurou as chuteiras aos 35 anos, declarando a vontade de se tornar ator.
Tempos depois, Ginola ainda voltou ao futebol como comentarista e como fugaz candidato à presidência da Fifa, desistindo após não conseguir as recomendações necessárias para oficializar sua intenção. De qualquer forma, mais forte ficou sua imagem como jogador de personalidade arredia, mas um estilo fulminante com a bola nos pés, especialmente para driblar adversários e para arrancar em diagonal. A admiração que ainda recebe em PSG, Newcastle e Tottenham não deixa dúvidas. Pena que, em tempos nos quais nem todos os campeonatos europeus tinham espaço na televisão, sua fama não se expandiu tanto. E o tratamento como pária depois de 1993, se ausentando de um dos períodos mais vitoriosos da seleção francesa, também minou seu reconhecimento pela falta de jogos com os Bleus.


