França

Fora, Raymond Domenech

A campanha da França na Eurocopa terminou de forma melancólica. A derrota por 2 a 0 para a Itália significou a eliminação prematura dos Bleus, lanternas do grupo C com apenas um ponto conquistado, somente um gol marcado e seis sofridos – números melhores apenas do que os da Grécia. Nem dá para se diminuir o tamanho do vexame com o fato de a França ter caído na ‘chave da morte’, pois mesmo em outros grupos o fiasco teria a mesma proporção. Além das estatísticas negativas, as atuações pouco convincentes da equipe deixaram uma péssima impressão, fruto da incrível capacidade de Raymond Domenech causar distúrbios. Embora o ambiente dentro dos Bleus não fosse exatamente um paraíso, o treinador contribuiu com uma grande fatia do fracasso azul com suas esquisitices e escolhas baseadas em critérios questionáveis. Sua permanência no cargo precisa ser urgentemente revista.

Recortando-se apenas o contexto da partida contra a Itália, as falhas de Domenech começaram na definição do onze titular. Por mais que a defesa tenha sofrido com a goleada imposta pela Holanda na rodada anterior, não dá para querer sacar Thuram da equipe. Pior: o técnico preferiu desloca Abidal para formar a dupla de zaga com Gallas, em vez de optar por Squillaci. Tudo para colocar Evra na esquerda e mandar a campo um instável Clerc. O jogador do Lyon nunca demonstrou qualidades suficientes para ser titular em momentos de tranqüilidade, e apostar nele logo em uma situação tão tensa seria um risco em demasia – para não falar em um erro gritante.

No setor ofensivo, enfim alguns acertos, mas que pelas circunstâncias do jogo nem foram explorados direito. A começar por deixar Malouda no banco, com a entrada de Govou. Teria sido melhor escalar Nasri, mas o lionês em teoria ajudaria a abrir o jogo pelo lado direito. Ribéry esteve na esquerda, como quando atua pelo Bayern de Munique. Quando teria a chance de desequilibrar jogando em sua posição original, veio a lesão e a substituição prematura. Quando Nasri pegava o ritmo de jogo, Abidal apareceu para colocar a cereja no bolo e coroar sua noite desastrosa.

Seria culpa dele única e exclusivamente? Abidal nunca foi fã de atuar no miolo de zaga, e sentiu as dificuldades de se adaptar a uma função na qual precisaria de treino para se habituar. Em todos os lances de ataque dos italianos dos quais foi necessária sua intervenção, ele levou a pior em grande parte. Fosse nas jogadas em velocidade de Cassano, nos passes curtos ou nos lançamentos para Toni, o lateral estava perdido em campo. E foi em uma dessas jogadas que o atacante do Bayern de Munique recebeu livre, na cara de Coupet. Pênalti, uma expulsão justa e a implosão de toda e qualquer esperança dos Bleus de se classificarem para as quartas-de-final.

Obviamente, Abidal aparece como ‘vilão’ por ter sido ele quem recebeu o cartão vermelho e protagonizou o lance da abertura do placar por parte da Squadra Azzurra. No entanto, a falha maior foi de quem o escalou fora de sua posição original, quando tinha outros atletas à disposição para desempenhar este papel. Domenech, por sua vez, foi obrigado a tirar Nasri e colocar Boumsong para recompor sua defesa. O técnico tapou um buraco, mas acabou por abrir outro de tamanho proporcional. Sem alguém com um mínimo de qualidade para armar o jogo, pois Govou não tem esse cacoete, Henry e Benzema se viram forçados a voltar para buscar jogo. Um desastre tático sem tamanho.

Por falar em Benzema, o atacante sem dúvidas viveu sua pior partida com a camisa azul. Apesar de um início até interessante, o isolamento provocado pela perda dos principais articuladores da equipe o fez se deslocar para o lado esquerdo do campo, posição na qual já demonstrou seu horror no Lyon. Na seleção, não foi diferente. Benzema bateu cabeça com Evra, reclamou com os companheiros sem olhar para seus passes risíveis e fortaleceu uma imagem de arrogância, exibida ao ficar no banco de reservas no confronto contra a Holanda e ver Gomis entrar em campo sem receber uma chance. Um péssimo cartão de visitas para quem despertou tanto interesse de grandes clubes por sua boa temporada no Lyon e na Ligue 1.

A Itália ainda se deu ao luxo de deixar de explorar com mais afinco um outro defeito dos Bleus. Clerc nunca foi um lateral exímio em suas funções defensivas. Como de costume, atuou um pouco mais adiantado, deixando muito espaço às costas. Essa liberdade cairia bem para Grosso descer com mais constância por ali. Gallas, para cobrir este buraco, precisou abrir demais para o lado direito. Pior para Boumsong, que precisou se virar da maneira como pôde para parar os avanços de Toni. O zagueiro levou um amarelo e a duras penas atrapalhou a vida do italiano.

Erros e mais erros

Com todos estes problemas apresentados, fica notória a grande parcela de culpa de Domenech no fracasso francês. Sua responsabilidade não deve ser analisada apenas pelo desempenho da equipe no duelo contra a Itália. A atuação dos Bleus foi apenas um reflexo da falha maior cometida pelo técnico. Por conta de suas teimosias, birras e gosto pelos holofotes com polêmicas absolutamente dispensáveis, ele perdeu a mão na hora de elaborar a lista de convocados. É inadmissível deixar Trezeguet de fora, com o alto nível apresentado pelo atacante nesta temporada na Série A. Preferir levar um criticado e fora de forma Boumsong a convocar Méxès soa incompreensível. E a manutenção de Vieira, que mal se recuperou de um problema muscular na coxa, sem dar oportunidade a Flamini criou um mal-estar com o jogador, que promete colocar a boca no trombone sobre um provável erro de diagnóstico feito pela equipe médica da seleção.

Para completar o verdadeiro circo de horrores protagonizado por Domenech, eis que o treinador resolve pedir sua namorada em casamento ao vivo, durante uma entrevista pela televisão, pouco depois da derrota para a Itália. Embora tenha assumido seu ‘erro de comunicação’, o treinador cometeu um gesto digno de Joselito, o ‘sem noção’. No mínimo, um desrespeito com os torcedores, que mal haviam digerido a dor da eliminação e foram obrigados a suportar um disparate deste nível, como se o que tivesse acabado de ocorrer em campo fosse apenas uma pelada pós-churrasco.

A federação francesa afirmou que só tomará alguma decisão a respeito da permanência ou demissão de Domenech em 3 de julho. Se houver um pouco de sensatez por parte da FFF, o caminho da rua será mostrado ao treinador, que esgotou a paciência da torcida, de jogadores (como desentendimentos com Henry e problemas de desrespeito dos mais jovens aos atletas mais experientes foram levantados pela imprensa) e dirigentes. Didier Deschamps, ex-treinador da Juventus, já manifestou o desejo de se candidatar ao cargo. Pelo menos o ex-capitão dos Bleus campeões mundiais em 1998 se mostra uma pessoa séria, com métodos de trabalho baseados na lógica e no desempenho em campo.

Com todo o desgaste provocado por tantas escolhas equivocadas, o gosto pela ironia no trato com a imprensa e o fraco desempenho dos Bleus na Euro, fica difícil apoiar a permanência de Domenech no cargo. Jean-Pierre Escalettes, presidente da federação francesa (FFF) deu um voto de confiança ao treinador, mas o conjunto da obra fala por si só. O único mérito de Domenech foi conduzir com habilidade o processo de renovação da equipe, com a entrada gradual de jovens jogadores. Pode-se usar o argumento de que a França passa por um período de transição e de que a mesma base foi vice-campeã mundial. Só que aquele elenco tinha Zidane, e isso explica muita coisa.
 

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Equipe Trivela

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