França

Férias frustradas na América do Sul da seleção francesa

A passagem da seleção francesa pela América do Sul foi bem reveladora. As derrotas para Uruguai (1 a 0) e Brasil (3 a 0) apenas evidenciaram que os Bleus estão em franco declínio no cenário mundial. Nem adianta dizer que a ausência de Franck Ribéry deixou a equipe frágil demais. Mesmo com três Ribérys em campo, os franceses teriam levado uma sova de adversários que também estão longe de seus melhores momentos na última década.

Os brasileiros se vangloriam pelo fim de jejum de vitórias sobre uma seleção importante. A questão é: a França atual pode mesmo ser considerada como uma das grandes seleções mundiais? Desde o fim da geração de Zidane e companhia, os Bleus veem seu status de equipe importante sofrer uma corrosão inexorável desde 2006, quando fez sua última campanha digna ao se sagrar vice-campeã mundial.

Apesar do mal que fez para os Bleus, Raymond Domenech viu seus sucessores cumprirem piores papéis, pelo menos nas estatísticas. Em seus 13 últimos jogos, a França ostenta a marca de sete derrotas. Excluindo este período e olhando para o passado, a equipe só sofreu sete reveses em um conjunto de 43 partidas. Assim como Laurent Blanc, Didier Deschamps não consegue mudar a cara derrotada da seleção.

Ao fim de sua primeira temporada à frente da seleção, DD tem um cartel de cinco derrotas em onze partidas, a pior marca desde 1964. O desempenho melancólico apenas reforça que aquele empate por 1 a 1 com a Espanha em Madri, pelas eliminatórias da Copa do Mundo 2014, foi um desvio na rota da Fúria, e não um mérito dos azuis. O desastre da turnê sul-americana amplia as preocupações quanto à presença dos Bleus no Mundial-2014. Mesmo que voltem ao Brasil no ano que vem, os franceses deixam dúvidas quanto ao seu real peso dentro da competição. Hoje, seria um mero coadjuvante.

As derrotas para Uruguai e Brasil recolocaram a França em seu devido lugar no cenário mundial. Os dois amistosos serviram, ao menos, para retirar qualquer ilusão da torcida. Não dá para achar que os retornos de Ribéry, Raphaël Varane, Gaël Clichy e Jérémy Ménez, ausentes da viagem para a América do Sul, façam a equipe mudar completamente de figura e a transformem nos Harlem Globetrotters da bola. Com ou sem eles, os problemas da equipe permanecem os mesmos e não há grandes perspectivas de melhora.

De positivo destes amistosos, Deschamps pode retirar tão somente as atuações de Josuha Guilavogui. O volante do Saint-Étienne mostrou seu valor com exibições seguras em seus dois primeiros jogos como titular. Ele deve ganhar novas oportunidades e exercer papel fundamental no duelo decisivo contra a Geórgia em setembro, pelas eliminatórias, quando três pilares do meio-campo (Pogba, Matuidi e Cabaye) estarão ausentes por suspensão.

Até aqui, 2013 tem sido um ano desastroso para os Bleus, com quatro derrotas em cinco jogos. A fragilidade apresentada pela equipe em todos os seus setores assusta tanto quanto a saída de gol rocambolesca de Lloris logo no começo do jogo contra o Brasil. Do jeito como as coisas estão, será mais útil rezar para que o adversário da repescagem europeia seja uma daquelas babas. Do contrário, para passar vergonha em uma Copa mais uma vez, é melhor ficar em casa.

Problemas sem fim

O disco está arranhado de tanto tocar a mesma faixa. A esterilidade ofensiva da França incomoda demais. Karim Benzema personifica esta fase horrenda com números assustadores. O atacante do Real Madrid não marca um golzinho sequer pelos azuis há um ano. São 1082 longos minutos de jejum e, pior do que isso, de atuações para lá de discretas. Contra o Brasil, por exemplo, ele só foi notado em campo quando foi substituído.

Seu último gol pela seleção foi em 5 de junho de 2012 em um amistoso contra a poderosa Estônia. De lá para cá, foram apenas duas assistências (Finlândia e Bielorrússia, em dezembro de 2012). Nem mesmo um problema no joelho (um cisto) serve como desculpa para sua má atuação em Porto Alegre, quando foi engolido por Thiago Silva e David Luiz. Nos 70 minutos nos quais permaneceu em campo, ele tocou na bola apenas uma vez dentro da área adversária. Não é preciso dizer como isto traduz sua nulidade no jogo.

Há um atenuante, porém. Benzema atuou completamente isolado no ataque. Ele não teve qualquer apoio do meio-campo, que não conseguia se articular com um mínimo de organização para municiá-lo. O jogador do Real Madrid bem que tentou buscar a bola fora da área e recuar para tentar participar mais do jogo, mas mesmo assim fracassou de forma retumbante. A chuva de críticas virou um tornado.

Quando sua presença na área era mais requisitada, Benzema estava em algum canto perdido do gramado. Um exemplo foi a jogada de Valbuena no início do segundo tempo, que incomodaria muito mais o goleiro Júlio César se o centroavante exercesse seu papel primordial. Aliás, Benzema tem sistematicamente cometido erros de avaliação sobre os momentos nos quais deve buscar o jogo e aqueles nos quais precisa marcar presença na área para finalizar.

A situação lembra muito a de Anelka na Copa de 2010. Assim como ele, Benzema não tem feito a diferença quando sai da área e tenta alguma coisa na intermediária. Seus dribles são facilmente cortados pelos defensores. Suas arrancadas têm peso nulo para desmantelar sistemas defensivos bem armados. Pior: quando perde a bola, Benzema não demonstra qualquer esforço em recuperá-la. Esse pensamento egoísta de “ninguém me ajuda, então também não vou ajudar ninguém” apenas acelera seu desgaste na seleção e torna sua presença como titular cada vez mais questionável.

Essa falta de vontade afeta diretamente o rendimento dos Bleus, mesmo quando Ribéry, Ménez, Nasri ou quaisquer outros jogadores aparecem para aliviar este deserto de ideias entre o meio-campo e o ataque. Não dá mais para Deschamps ignorar a necessidade urgente de mudanças, mesmo que Bafétimbi Gomis ou Olivier Giroud não passem por momentos tão brilhantes de suas carreiras. Ao menos eles terão um pouco mais de paciência e, sobretudo, espírito coletivo do que o atual titular.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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