Empate salvador
Na primeira decisão das eliminatórias da Copa do Mundo-2014, a França pode se considerar como vencedora. O empate por 1 a 1 arrancado a fórceps contra a Espanha fora de casa deve ser comemorado como uma daquelas façanhas heroicas, praticamente como se fosse um título – ainda mais por conta da apresentação esquálida dos Bleus na derrota por 1 a 0 para o Japão em amistoso disputado poucos dias antes.
Mais do que o revés para os japoneses, a França aprendeu bem a lição com a derrota por 2 a 0 para a Espanha na Eurocopa-2012. Ao contrário destes momentos de lamentação, a equipe soube reagir, muito embora o gol de empate tenha saído nos acréscimos e com a sorte de ver Fàbregas perder um pênalti. Ao menos, a França deixou uma impressão positiva, de que pode exibir um futebol com espírito de luta.
O cenário no Vicente Calderón era o esperado e já decantado há séculos: uma Espanha ultradominadora, com a França atuando em seu campo defensivo, preocupada em fechar sua guarda para não apanhar muito. Diante da melhor seleção do mundo, seria loucura tentar atuar de forma aberta e encará-la de igual para igual. Seria um convite para o suicídio. Obviamente, não dava para ser completamente passivo, mas Deschamps percebeu algo que mudou este panorama pouco animador para os Bleus.
Durante o primeiro tempo, o ataque contra defesa teve a Espanha como vencedora. A Fúria aproveitou um momento de indecisão da defesa francesa para dar seu bote e abrir o placar com Sergio Ramos. A marcação dos Bleus ficou olhando o defensor do Real Madrid aproveitar com calma o rebote da trave, como se hipnotizada pelo toque-toque dos donos da casa. A situação ainda seria pior se Lloris não tivesse defendido o pênalti batido por Fàbregas.
A França atacou muito pouco nestes primeiros 45 minutos. Foram apenas duas chances reais criadas pelo ataque azul (com Benzema e o gol anulado de Ménez). Os franceses mudaram completamente de visual durante o segundo tempo. A apatia deu lugar a uma equipe mais viva apenas com uma atitude de Deschamps: promover a entrada de Mathieu Valbuena no lugar de Gonalons aos 12 min.
A substituição alterou a forma de jogar dos Bleus. Agora postados em um 4-2-3-1, o meio-campo azul ficou mais equilibrado e com mais consistência para a criação de jogadas. Benzema foi o maior beneficiado, pois passou a aparecer mais na partida e não precisava recuar tanto para buscar jogo. As chances francesas se multiplicaram, mas sem a equipe correr tantos riscos defensivos.
Mais uma vez, Ribéry fez a diferença pelo lado esquerdo. Além de ser uma válvula de escape mesmo quando a França enfrentava seu período mais complicado na partida, o jogador do Bayern de Munique cresceu de produção e foi o responsável pela assistência para o gol salvador de Olivier Giroud. Blaise Matuidi também teve importância fundamental na reação tricolor, já que melhorou o combate no meio-campo e roubou bolas preciosas.
Por outro lado, o miolo da defesa voltou a causar calafrios. Mamadou Sakho e Laurent Koscielny fizeram um primeiro tempo terrível, com uma falta de concentração inadmissível para uma partida deste porte. O pênalti cometido por Koscielny beira o ridículo, já que o zagueiro perdeu completamente o tempo da bola. Cabaye, discreto, também teve pouco influência no jogo.
Estraga prazeres
Se o jogo contra a Espanha era considerado crucial para as pretensões da França nas eliminatórias da Copa-14, o resultado do amistoso contra o Japão foi desastroso. A derrota por 1 a 0 no Stade de France com um gol no finzinho da partida calou qualquer demonstração de otimismo. Afinal, os Bleus dominaram totalmente o adversários, mas enfrentaram sérias dificuldades na hora de definir suas jogadas ofensivas.
Didier Deschamps preferiu montar o miolo da zaga com Koscielny e Sakho, já de olho no duelo contra a Fúria. A dupla não teve um grande teste, sobretudo no primeiro tempo. Os japoneses mal conseguiam subir ao ataque nos primeiros 45 minutos. No meio-campo, o trio formado por Capoue, Sissoko e Matuidi também dava conta do recado. O problema, mais uma vez, estava na frente.
A dupla de ataque formada por Benzema e Giroud não falava a mesma língua. Seus melhores momentos foram logo no comecinho, mas o restante da partida revelou como eles sentem dificuldades para encontrar seu espaço em campo quando atuam juntos. Benzema teve participação maior no jogo, por sua característica de voltar e tentar alguma jogada individual. Giroud ficou perdido.
Deschamps percebeu que esta formação não dava liga e deixou o atacante do Arsenal no banco contra a Espanha, voltando ao esquema tradicional com Ribéry e Ménez aberto pelas pontas e Benzema centralizado. O retorno de Patrice Evra à lateral esquerda também trouxe um aporte ofensivo que Gaël Clichy, que atuou contra o Japão, foi incapaz de oferecer no Stade de France.
Quando Blanc estava no comando da seleção, havia uma pressão da imprensa para que Benzema e Giroud fossem escalados juntos para aumentar a força ofensiva da equipe. O ex-treinador permaneceu firme em suas convicções e não atendeu aos pedidos. Deschamps assumiu o cargo e resolveu experimentar. No entanto, ele viu que, na prática, a teoria não se confirmou.
Benzema e Giroud foram escalados como titulares pela terceira vez nos últimos quatro jogos dos Bleus (antes do duelo contra a Espanha). Em cada um deles, a dupla atuou sob um posicionamento diferente. Contra o Uruguai, a França usou um 4-4-2; diante da Bielorrússia, foi a vez do 4-3-3, com Benzema aberto pela ponta direita. O atacante do Real Madrid caiu pela esquerda contra o Japão, com Giroud centralizado e Ménez pela direita.
Em resumo, o próprio Benzema respondeu às dúvidas de Deschamps: ele atua melhor como centroavante e se perde no posicionamento quando se vê forçado a atuar deslocado. Deschamps entendeu o recado.
Voltando ao amistoso contra o Japão, as entradas de Ribéry e Gomis deram algumas esperanças aos Bleus, mas nada muito animador. O contra-ataque mortal concluído por Konno serviu como um alerta para os donos da casa, que esbarraram na excelente atuação do goleiro Eji Kawashima e tropeçaram em suas experiências mal-sucedidas.


