Duas caras
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Como explicar tamanha incongruência? Ao se olhar a tabela da Ligue 1, com o Lyon no topo e com o Olympique de Marselha na luta para fugir das últimas posições, era de se esperar um bom desempenho do OL na Liga dos Campeões, enquanto o OM penaria para evitar um grande vexame em sua chave na competição européia. Passadas duas rodadas da LC, verifica-se exatamente o contrário. Enquanto os lioneses colecionam derrotas e se vêem mais próximos de disputar uma vaga na Copa Uefa, os marselheses fazem bonito e lideram seu grupo.
É necessário dar um pequeno desconto para o Lyon, pois o time caiu em um grupo complicado ao lado de Barcelona, Rangers e Stuttgart. No entanto, também não dá para deixar de lado a surpreendente passividade dos hexacampeões nas partidas diante do clube catalão e, pior ainda, dos Gers. A derrota em pleno Gerland por 3 a 0 mostrou as limitações de um elenco desorganizado.
Se nas temporadas passadas o Lyon apostava na força de seu conjunto para consolidar sua hegemonia na França e almejar vôos altos na LC, em 2007/8 o time não consegue deslanchar. Contra o Rangers, o OL viu seu reflexo: uma equipe sem craques indiscutíveis, mas dona de um conjunto sólido, organizado, no qual todos os seus elementos funcionam de maneira harmônica. Os visitantes demonstraram ter consciência de suas qualidades e limitações, estabelecidas dentro de um padrão tático coerente.
Já o OL repetiu a mesma apatia de quando visitou o Barcelona no Camp Nou. Mesmo diante de sua torcida, a equipe nem parecia se sentir à vontade. A marcação tímida e a nulidade de jogadas pelos lados do campo facilitaram a tarefa do Rangers de tomar conta dos espaços. O time escocês fez valer seu estilo de toques curtos e rápidos, o suficiente para desmontar uma defesa frágil. Aliás, a zaga, cujo eixo central foi formado por Squillaci e Anderson, foi a principal responsável pelo fiasco.
No primeiro gol, houve um erro primário de marcação. No lance do segundo gol, Cousin, bem conhecido na França, teve liberdade para finalizar. Alegar desconhecimento do estilo do adversário seria de uma ingenuidade ímpar. No terceiro gol, o posicionamento da defesa beirou o ridículo. A falta de comando se deve muito às ausências de Coupet e Cris, cada vez mais sentidas.
No meio-campo, a má-fase de Juninho Pernambucano também afeta o rendimento ofensivo. Contra o Rangers, o jogo se concentrou demais pelo meio; havia a necessidade de se utilizar os flancos, mas ninguém se habilitou a essa tarefa. Apesar de uma formação bastante ofensiva (com Govou, Baros, Benzema e Juninho), o Lyon fez novamente água. Enquanto a burocracia toma conta do time, Barcelona e Rangers dispararam. O consolo será lutar com o Stuttgart pelo terceiro lugar e garantir pelo menos um prêmio de consolação na Copa Uefa.
A diretoria do clube nega a existência de uma crise, mas os seguidos problemas na LC devem fazer Alain Pérrin sentir seu cargo a perigo. O Lyon pode apertar o botão do piloto automático na Ligue 1, pois dificilmente ficará de fora da briga pelas primeiras posições. No entanto, a LC exige um nível mínimo de organização e padrão de jogo, algo que o time se mostrou incapaz até agora contra seus dois primeiros adversários.
O outro lado da moeda
Se o Lyon purga seus pecados no grupo E, o Olympique de Marselha dá as caras no grupo A. Na Ligue 1, o time se vê na parte de baixo da tabela, com um desempenho abaixo da crítica. Os seguidos tropeços no Vélodrome não perdoaram Albert Emon, que se despediu do clube e deixou para trás um elenco à beira de um colapso psicológico. Toda a confiança adquirida por meio de um lento processo se esvaiu em questão de dias; uma herança nada agradável para Eric Gerets, novo treinador da equipe, cuidar.
Logo de cara, o belga tinha pela frente o Liverpool, em Anfield. Uma missão bem agradável, diga-se de passagem. Para deixar a situação um pouco mais interessante, o OM não contaria com Samir Nasri, em recuperação de uma infecção. Apesar do pouco tempo de trabalho, Gerets ao menos conseguiu algo que os lioneses ainda não obtiveram na LC: estabeleceu um plano simples, mas lógico e perfeitamente executável.
Na casa do inimigo, o Olympique não deixou o Liverpool jogar. Com uma eficiente marcação sob pressão no campo do rival, o OM anulou as jogadas dos Reds e, mesmo após abrir o placar, o time não recuou, como seria até compreensível. Essa postura de manter a atenção durante todo o tempo tem o dedo do treinador. Gerets insistiu para que seus jogadores mantivessem o mesmo nível de jogo, com a mesma qualidade do trabalho em conjunto. Exatamente por isso, a equipe inglesa só levou algum perigo nos minutos finais do confronto, quando partiu para o tudo ou nada.
O belga chamou a atenção para dois fatores essenciais para minar as resistências do Liverpool. Na primeira, orientou o OM a fazer suas linhas de frente jogarem mais próximas, para dificultar a saída de bola dos Reds. Deu certo, pois os adversários viram o meio congestionado e foram obrigados muitas vezes a recuar para a defesa, devido à forte marcação. Ou então forçar as jogadas pelas laterais, mas nisso os volantes marselheses também levaram a melhor.
Ao colocar o Liverpool em dificuldades para trabalhar, o Olympique deu início à segunda parte de seu esquema. Os marselheses apenas se movimentaram bem e fizeram a bola circular com facilidade. De posse da bola e com um time compacto, tornou-se complicado para o clube da casa desarmar. O próprio Rafa Benitez reconheceu no fim do confronto ter sido um dos piores jogos dos Reds sob seu comando. Mérito para o OM, que soma seis pontos e vê se aproximar a vaga para as oitavas-de-final.
A melhora súbita do Olympique pode ser apenas um ‘golpe psicológico’, provocado pela chegada de um técnico novo, com métodos diferentes do antecessor. Gerets não tinha mesmo nada a perder e tinha uma certa ‘carta branca’ para se arriscar em Anfield. Com responsabilidade, soube organizar a equipe e voltou com um importante triunfo. Ele sabia que um bom resultado seria necessário para reerguer o moral do elenco e, com isso, poderia ter um pouco mais de tranqüilidade pelos próximos dias.
Com o objetivo conquistado, o treinador agora terá tempo para estudar melhor seus jogadores, reconhecer as deficiências e virtudes e trabalhar para corrigir os erros. O essencial, a recuperação do ânimo, voltou com a equipe da Inglaterra. Esse espírito ainda falta aos lioneses.