França

Domenech sobre astrologia, jogadores mimados e eliminar o Brasil-06: “Foi a partida perfeita”

Raymond Domenech foi técnico da França durante seis anos. Se conseguiu chegar à decisão da Copa do Mundo de 2006, com uma partida brilhante contra o Brasil e uma final equilibrada com a Itália, também foi protagonista de um desastre no Mundial da África do Sul e foi eliminado na lanterna do seu grupo na Euro-2008. Foi tido pelo senso comum como excêntrico, um apaixonado por astrologia e uma pessoa intratável.

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Na Copa do Mundo de 2010, teve que lidar com uma greve de jogadores, foi xingado por Nicolas Anelka e não resistiu à inevitável demissão, depois de ser enxotado do torneio em um grupo que deveria ser bem acessível. Entrou em um exílio auto-infligido para esfriar a cabeça e escreveu um livro contando os bastidores da sua passagem pelo time campeão mundial de 1998. Queria mostrar o seu lado da história, e em certa medida, segundo disse em ótima entrevista ao Guardian, conseguiu que algumas pessoas parassem de odiá-lo – ou, no mínimo, passassem a odiá-lo menos.

Domenech não está aposentado. Ainda quer ser treinador de futebol. Disse que ficou próximo de assumir a Irlanda e recebeu propostas de seleções africanas, mas busca o trabalho certo para sair da reclusão. No bate-papo com o Guardian, falou também da polêmica sobre os astros – não os do futebol, mas a acusação de que teria cortado Pirès da Copa-06 por causa da astrologia -, aquela partida contra o Brasil em 2006 e a geração mimada de jogadores franceses.

Astrologia

Sempre fui muito interessado em qualquer coisa que me ajudasse a entender como os seres humanos funcionam. Estudei técnicas de comunicação, análise transacional e outras coisas assim. Também estudei astrologia e grafologia (análise da personalidade a partir da escrita). Se eu dissesse que estava usando grafologia, ninguém teria tido nenhum problema, porque tem um lado científico. Mas astrologia tem um lado científico, e assim que eu a mencionei, as pessoas começaram a pensar que eu usava um chapéu de feiticeiro na cabeça e encarava bolas de cristal. A astrologia tem o valor de desvendar a personalidade das pessoas, não prever o futuro ou algo assim. Mas trabalhar no perfil da pessoa. É verdade que não pode administrar pessoas diferentes da mesma maneira, então você tem que descobrir a melhor maneira de proceder. Foi para isso que eu usei a astrologia. Nunca para selecionar os jogadores da França. Nunca.

Geração mimada

O problema continua lá. Quando Laurent Blanc escolheu seu time para a Euro 2012, eu disse: “Vamos ver o que acontece; se ele for bem sucedido, darei os parabéns, eu devo ser um ignorando que não entende nada”. Mas nós sabemos o que aconteceu (o time caiu nas quartas de final, e Nasri xingou jornalistas depois da derrota para a Espanha). E, de certa maneira, isso me deixou mais confiante porque mostrou que não era o único culpado. A maneira como as coisas funcionam na atual geração torna tudo muito complicado, especialmente na França. Essa é a questão. E o problema é que não temos uma resposta. Porque os mesmos jogadores atuam em grandes clubes estrangeiros, na Inglaterra e outros países, e não passam por esses problemas. Eu acho que é o peso dos clubes ou o poder de algumas federações, que insistem em alguns padrões, então eles evitam certos comportamentos e não fazem o mesmo com a seleção francesa.

A partida perfeita

(A quarta de final contra o Brasil em 2006) Foi a partida perfeita. Eu ainda me lembro da palestra antes do jogo. A comissão técnica e eu preparamos tudo e tudo aconteceu como queríamos. Até disse aos jogadores antes da partida: “Preste atenção. Por volta do fim, vão colocar todos os atacantes em campo e é neste momento que vocês vão perceber que venceram, porque eles não têm mais ideais”. Foi exatamente o que aconteceu (Adriano entrou no lugar do Juninho, aos 18’/2T, e Robinho no de Kaká, aos 31’/2T). Fico feliz de ter sido o técnico daquele jogo. Tudo foi antecipado. Era como se eu fosse o co-piloto em uma corrida dizendo para o piloto com antecedência: “Você está chegando a uma curva a 190 kms/h”. Foi exatamente assim. E me deixou orgulhoso.

O futuro

Eu não me aposentei. Tive contatos e discussões, e em alguns momentos tudo que eu precisava fazer era dizer “sim” para me tornar um treinador novamente. Mas eu realmenten ão queria. Eu precisava me afastar de tudo por um tempo, fazer outa coisa. Mas ainda estou no futebol. Eu ainda não tive uma proposta realmente especial. Para mudar o estilo de vida que tenho agora, teria que ser algo que realmente me deixasse completamente animado. Um clube em Londres seria apropriado. Não quero fazer algo só para ganhar um pouco de dinheiro. Se fosse isso, teria aceitado outras propostas, mas quero algo diferente, cheio de emoções, algo que me deixe animado.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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