França

Deschamps vai de maldito a milagreiro em questão de dias

Alívio, satisfação, reconciliação. Os Bleus deram a volta por cima após uma saraivada de críticas e de um ambiente pessimista e se classificaram para a Copa do Mundo de 2014 com uma categórica vitória por 3 a 0 diante da Ucrânia. Para Didier Deschamps, a histórica partida no Stade de France foi uma resposta a quem duvidou de seu perfil vencedor e questionou suas escolhas quase teimosas. A França se tornou a melhor equipe do mundo e favorita ao título do Mundial? Não, mas também não era aquele time fantasma que se apresentou no duelo de ida contra os ucranianos.
O treinador sentiu o mundo desabar em sua cabeça por sua insistência no esquema 4-2-3-1, que se mostrou frágil na derrota por 2 a 0. O jogo na Ucrânia também deixou outras cicatrizes na pele do treinador, severamente criticado por escalar Samir Nasri e deixar Mathieu Valbuena no banco. Enquanto o meia do Manchester City vagava em campo e fracassava em sua missão de organizar o jogo ofensivo dos Bleus, o jogador do Olympique de Marselha apenas observava. Em má fase, Valbuena ao menos cresce quando veste a camisa da seleção e consegue fazer esta função de forma razoável.
Outro ponto no qual DD foi castigado foi a escolha por Abidal no miolo da zaga. Em uma partida irreconhecível, o defensor esteve no olho do furacão ao permitir uma grande liberdade aos atacantes rivais, que encontraram os espaços suficientes para definir a vitória no primeiro duelo. Deschamps teve o mérito de reconhecer suas falhas e tratou de corrigi-las – até mesmo com uma mudança na formação da equipe.
Com a necessidade de vencer por uma boa margem de gols, Deschamps alterou o 4-2-3-1 de Kiev por um 4-3-3. No meio-campo, o treinador sacou Nasri e escalou Yohan Cabaye, cujo papel foi o de ficar à frente da zaga e lhe dar maior proteção. Com isso, Pogba e Matuidi tinham um pouco mais de liberdade para subir ao ataque. Valbuena entrou na vaga de Rémy para fazer o corredor pela direita, com Benzema como substituto na ponta do ataque. A defesa também mudou – e ela foi essencial para definir a classificação francesa.
Com Abidal em péssimo momento e Koscielny suspenso, Deschamps trocou o miolo da zaga. Varane e Sakho compuseram o setor e o segundo terminou a noite como herói. O zagueiro, cuja motivação para esta partida decisiva estava transbordando nos treinos em Clairefontaine, engoliu Zozulia, que havia sido o terror dos franceses em Kiev. Sakho exerceu suas funções defensivas com louvor e, como se não fosse suficiente, resolveu quando tirou onda como atacante.
A entrada de Cabaye também foi outro ponto positivo das mudanças promovidas por Deschamps. O volante do Newcastle esteve perfeito nos desarmes e, com bons passes, permitiu a Ribéry puxar contra-ataques perigosos. Cabaye foi decisivo na jogada do segundo gol dos Bleus e, após viver momentos ruins durante a temporada, mostra-se indispensável para a seleção.
Um dos jogadores mais regulares da seleção francesa durante a fase de grupos das eliminatórias da Copa-2014, Valbuena ficou no banco pela primeira vez no jogo em Kiev. A decisão foi um desastre. A injustiça foi corrigida no Stade de France e o meia-atacante justificou as expectativas em torno dele. Mesmo jogando pela direita, que não é sua opção preferida, ele superou sua má forma física e compensou com sua inteligência.
A escolha mais ousada de Deschamps foi trocar a referência do seu ataque. Giroud foi para o banco e Benzema teve sua enésima chance para provar que não é um peso para a equipe. O atacante se sentiu como se estivesse em um jogo do Real Madrid. O técnico dos Bleus lhe transmitiu a confiança necessária para fazê-lo responder em campo, em vez de transformar esta responsabilidade em uma sombra para se esconder.
Todos ganham com a classificação
Aquele clima de desconfiança que pairava sobre a seleção, pelo menos por enquanto, foi dissipado. Ficaram para trás os problemas de Knysna, a greve dos jogadores, o vexame em gramados africanos e a promessa furada de que tudo mudaria na Eurocopa-2012. Os Bleus vivem uma comunhão com a torcida, externada com a Marselhesa cantada a plenos pulmões depois do jogo após o ‘maestro’ Giroud convocar os 60 mil presentes ao Stade de France a entoar o hino francês.
O arrepiante momento foi a pedra colocada sobre estes episódios vergonhosos que tiraram todo o orgulho que os franceses sentiam por sua equipe. Esta Marselhesa especial simboliza a redenção de um time que busca dias melhores e o início de uma nova era. A canção enterra os males que corromperam o ambiente da seleção e faz renascer um espírito positivo que há tempos passava longe dos Bleus.
A classificação para a Copa-2014 não faz da França um supertime, uma máquina de fazer gols ou a torna um adversário temível. Os Bleus continuam com suas limitações, com um ataque dependente das atuações de Ribéry (já que Benzema vive mais baixos do que altos com a camisa azul) e uma defesa que não transmite grande segurança. Só que esta reconciliação com a torcida faz toda a diferença.
O clima de festa foi entremeado com a renovação de contrato de Deschamps e um alívio para Nike e alguns veículos da mídia francesa. O técnico teve seu vínculo prolongado até 2016 e reforça sua aura de vencedor. Não dá para ignorar alguém cujo retrospecto apresenta honras como ser o capitão do Olympique de Marselha na conquista da Liga dos Campeões e da seleção francesa na Copa-98 e na Euro-00. Seu cartel de triunfos contrasta com o período grotesco que o antecedeu – mesmo com Laurent Blanc, que fracassou de forma retumbante.
A classificação francesa também livrou a pele de algumas figuras de peso fora das quatro linhas. A Nike, por exemplo, escapou de um mico daqueles. A fornecedora de material esportivo apresentou o uniforme que os Bleus usarão na Copa-2014, com Ribéry, Varane, Cabaye e Matuidi como seus garotos-propaganda. Um revés diante da Ucrânia estragaria todo o planejamento.
A TF1 respirou aliviada com o apito final. A emissora de TV adquiriu os direitos de transmissão da Copa-2014 por nada menos do que € 130 milhões. Para se ter uma ideia de como uma eliminação francesa seria catastrófica, as ações do canal caíram cerca de 3% na segunda-feira após o duelo de ida contra a Ucrânia. Nesta quarta-feira (20), as ações da emissora cresceram pelo menos 5%. Agora, a TF1 esfrega as mãos esperando os picos de audiência no Mundial, que podem chegar a 15 milhões de espectadores por partida – isso sem contar as receitas com publicidade. Um spot durante a partida desta terça-feira valia € 160 mil, valor que deve crescer bastante para a Copa do Mundo.
O L’Équipe, principal jornal esportivo do país, faz as contas e prevê bons resultados para 2014. A publicação estima receitas publicitárias entre € 3 milhões e € 5 milhões no ano do Mundial, com um orçamento anual estimado em € 100 milhões. Apenas para níveis de comparação, em 98, quando a geração de Zidane chegou à final da Copa, o L’Équipe ganhou cerca de € 10 milhões suplementares com publicidade.
Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo