De menor

O ambiente na seleção francesa para a Copa do Mundo-2010 estava excelente. A classificação para a África do Sul foi garantida apenas na repescagem e com o auxílio de um lance irregular para eliminar a poderosa Irlanda. Raymond Domenech vai embora, aleluia!, mas os Bleus ainda terão que aturá-lo por mais algum tempo. E, agora, para ajudar mais um pouquinho, nada melhor do que um escândalo para dar um molho a toda a coisa: um suposto envolvimento de jogadores em um caso de prostituição infantil.
Este colunista não pretende fazer julgamento moral dos envolvidos, até porque não dá para pedir o RG de cada pessoa que você conhece antes de, digamos, algo mais. O que cada um faz com quem quer que seja na noite depende da consciência deles. No entanto, não dá para desprezar a imensa repercussão negativa do caso, principalmente para Franck Ribéry, e o que isso pode causar na seleção francesa pouco antes do início da Copa.
Apenas para rápido esclarecimento: todo o caso gira em torno de uma investigação da Justiça francesa sobre exploração de menores para a prostituição. Durante o caso, chegou-se a uma prostituta de origem marroquina, que disse ter mantido relacionamentos com alguns jogadores da seleção. A garota disse que algumas destas relações ocorreram quando ela ainda era menor de idade.
Ribéry teria admitido seus encontros com a jovem quando ela ainda não havia atingido a maioridade. Caso seja realmente comprovado isso, o meia-atacante do Bayern de Munique pode pegar até três anos de prisão, além de pagar uma multa de € 45 mil. Sidney Govou, do Lyon, também estaria envolvido no caso. Os dois jogadores foram ouvidos na condição de testemunhas, mas apenas as suspeitas sobre eles alimentam uma série de boatos e jogam a imagem dos Bleus no lixo.
A temporada de Ribéry segue péssima. Uma série de lesões (tendinite no joelho, inflamação no tornozelo, problemas em um dedo do pé) o impediu de manter uma boa sequência de jogos no Bayern. Para piorar, a polêmica sobre seu futuro deixa os dirigentes e a torcida bávara com o pé atrás. E com as excelentes atuações de Rajen Robben, o francês perdeu a condição de “queridinho” do clube.
Em 2010, ele até começou a recuperar seu melhor nível. Os gols voltaram a acontecer (como contra Hamburg, Manchester United e Schalke 04), mas uma nova ducha de água gelada o atingiu. O escândalo fechou as portas de uma possível transferência para o Real Madrid. Com tantos fatos negativos ao seu redor, Ribéry vai para a seleção com prestígio quase nulo.
Contudo, não apenas Ribéry está em maus lençóis. Além de Govou, Hatem Ben Arfa e Karim Benzema foram convidados a dar maiores esclarecimentos. A Federação Francesa (FFF) disse que acredita no “princípio da inocência” dos jogadores, conforme afirmou em comunicado oficial que não disse muita coisa. Seja como for, mesmo que todos os envolvidos sejam declarados inocentes, a seleção francesa está com sua reputação ainda mais condenada.
OM forte no fim
Há torcedores que não esperam o apito final para levantar e deixar o estádio. Nunca achei legal esta atitude, por pior que o jogo fosse ou pela mais impiedosa goleada sofrida por seu time. Nunca se sabe quais emoções estão reservadas naqueles segundos de expectativa em torno do levantar dos braços do árbitro. Para quem torce para o Olympique de Marselha, ir embora para casa antes do fim da partida se tornou motivo de arrependimento.
Na partida contra o Sochaux, o Olympique de Marselha saiu vencedor por 1 a 0 graças ao gol marcado por M’Bia aos 43 minutos do segundo tempo. No fim de semana, quando todos já se olhavam incrédulos pelo tropeço diante do Boulogne, eis que Taiwo converte um pênalti nos acréscimos e assegura um triunfo por 2 a 1 fora de casa. Ou seja: quatro pontos arrancados nos suspiros derradeiros e que deixaram o OM em grande vantagem na reta final da Ligue 1.
A cinco rodadas do fim do campeonato, o Olympique tem cinco pontos de vantagem sobre o Auxerre, segundo colocado. Não dá também para classificar de pura sorte o fato de os marselheses terem tomado a ponta. Cabe lembrar que o time tirou a grande vantagem estabelecida pelo Bordeaux nas últimas 15 rodadas. Algum mérito para isso o time deve ter. Melhor dizendo, sobraram competência e sangue frio para resolver as partidas em momentos cruciais.
Grande parte do sucesso do Olympique na Ligue 1 nesta temporada se explica pela postura adotada por Didier Deschamps. O treinador soube montar um bloco sólido, muito por conta da aplicação tática imposta por ele. A falta de peso do ataque do OM foi resolvida com uma intensa movimentação do bloco ofensivo formado por Valbuena, Cheyrou, Lucho González, Niang e Brandão.
Mesmo quando eles não resolvem, contam com a ajuda de elementos surpresa como M’Bia e Taiwo. Claro, nenhum time consegue títulos sem a tal da “sorte de campeão”, mas o Olympique de Marselha demonstra ter mais do que isso. As eliminações da Liga dos Campeões e da Liga Europa (esta de forma trágica diante do Benfica em pleno Vélodrome) foram rapidamente superadas, em um claro sinal de amadurecimento do grupo.
Enquanto caminha firme rumo ao título, o OM observou de camarote o novo duelo entre Bordeaux e Lyon. Mesmo sem entrar em campo no Chaban-Delmas, os marselheses foram os grandes vencedores, graças ao empate por 2 a 2 entre os rivais, que morrem abraçados e se veem longe da disputa pela taça. O OL ainda tem pela frente a Liga dos Campeões, mas os girondinos vivem o desespero de perder tudo quando estavam com a glória nas mãos.
Em um jogo tenso, a arbitragem roubou a cena, mas como vilã. O juiz Saïd Ennjimi conseguiu irritar lioneses e girondinos com suas diversas decisões erradas e a falta de pulso para coibir a violência que tomou conta do jogo. Sem moral para se impor, ele contribuiu de forma decisiva para o clima hostil dentro de campo. Os duelos emocionantes da LC ficaram para trás, dando lugar a uma partida de forte pegada.
Para a torcida do Bordeaux, pelo menos houve algum motivo para sorrir. Após tantas falhas acumuladas, a defesa enfim passou alguma segurança, mesmo com um miolo de zaga experimental (Sané e Henrique). Os dois se saíram bem diante de um Lyon ofensivo, principalmente na segunda etapa. Pena que o despertar tenha sido tão tardio.


