França

De mão beijada

O Olympique de Marseille pintava como o grande candidato a faturar o título desta temporada na Ligue 1. Afinal, o time estava como moral em alta, com seguidos bons resultados calcados na eficiência da equipe e aquela dose de sorte de campeão. Por outro lado, o líder Lille capengava, dava sinais de que não repetiria mais as grandes atuações do início do torneio e estava pedindo para jogar o troféu pela janela. Pois bem, aconteceu tudo ao contrário: o LOSC caminha a passos largos para erguer a taça, enquanto o OM chora a queda de rendimento na hora da decisão.

Os marselheses já adotaram o discurso de que nada no futebol é impossível, ainda mais após o frustrante empate por 2 a 2 com o Lorient. Embora exista aquela esperança de que uma reviravolta pode mudar tudo, o OM sabe, no fundo, que o vice-campeonato já lhe estende os braços. Jean-Claude Dassier, presidente do Olympique de Marselha, mostrou-se resignado e aceita a classificação para a Liga dos Campeões como um prêmio de consolação.

Curiosamente, a chance de o Olympique de Marseille comemorar o bicampeonato francês fugiu exatamente no período no qual a equipe se mostrou mais brilhante em campo. Durante toda a temporada, o OM sofreu críticas por seu estilo de jogo pouco atraente, sem ambições. Quando exibiu um futebol mais solidário, ofensivo e melhor coordenado, o time refugou.

O primeiro tempo do duelo contra o Lorient traduz muito bem este espírito. Mesmo jogando fora de casa, o OM foi largamente superior ao rival, abriu uma vantagem de 1 a 0 e saiu para os vestiários se lamentando por não ter feito mais gols. A entrada de Jouffre mudou radicalmente a feição dos Merlus, que penavam com a falta de sintonia entre Amalfitano e Gameiro – fruto da excelente marcação dos visitantes.

Quando precisava definir o jogo, o OM sucumbiu. Permitiu a reação do Lorient, que virou e por pouco não derrotou os marselheses, salvos por um gol de Gignac no finalzinho. O Lille agradeceu e, motivado pela conquista do título da Copa da França, chega com tudo para definir um título que esteve a ponto de escapar de suas mãos. No entanto, o LOSC ficará com o troféu por méritos próprios, e não pela incompetência de seus concorrentes.

Já o Lyon está doido para dar sua vaga na LC para o Paris Saint-Germain. Após três resultados ruins consecutivos como visitante (como as derrotas por 2 a 0 para o Toulouse e um humilhante 4 a 0 para o Auxerre), o OL conseguiu se recuperar e ficou no 1 a 1 com o Brest. Esta seria a visão de um torcedor otimista, mas como ele existe apenas em alguma imaginação fértil, os lioneses concentram suas rezas contra o time da capital.

O Lyon tem uma tabela das mais perigosas pela frente. O OL enfrenta duas equipes ameaçadas pelo rebaixamento: Caen (em casa) e Monaco (fora). Já o Paris Saint-Germain encara o Bordeaux (fora), em partida que pode colocá-lo na terceira posição. Em seguida, o PSG tem pela frente o Lille no Parc des Princes, em jogo que pode marcar a conquista do título do LOSC. Por fim, um confronto fora de casa contra o Saint-Etienne, mero figurante nestas rodadas finais.

Contra o Brest, Claude Puel fez várias mudanças na equipe após a goleada para o Auxerre – seja por obrigação (Gourcuff e Lisandro López machucados e Lovren suspensos) ou decisão sua (Diakhaté na defesa, Ederson e Delgado no ataque). Bastou fazer 1 a 0 para o OL achar que a partida estava resolvida e abdicar das chances de matar o adversário. Foi seu erro fatal, que pode lhe custar a presença na LC.

O Lyon teve a chance de resolver sua vida no primeiro tempo, mas vacilou e permitiu ao Brest, que até então pouco havia incomodado, igualar. As formações mudam, mas o OL continua com o mesmo espírito: o time acha que pode definir suas partidas na hora em que bem entender. Os últimos resultados fora de casa mostram que as coisas não são bem assim, para sorte do Paris Saint-Germain.

Dobradinha à vista

Há 56 anos, o torcedor do Lille via seu time comemorar a conquista do título da Copa da França. Nesta temporada, ele terá a chance de vivenciar algo histórico: a dobradinha com o troféu da Ligue 1, cada vez mais perto do LOSC. Talvez pela certeza da proximidade de uma nova taça, ou mesmo para se poupar para uma nova celebração em pouco tempo, os Dogues preferiram uma comemoração mais comedida, sem exageros, após o triunfo sobre o Paris Saint-Germain.

Havia motivos de sobra para preocupações com exageros. Afinal, quatro dias depois, o Lille voltaria a campo em uma partida crucial diante do Sochaux em casa. Um triunfo deixaria a equipe com as duas mãos na taça – o time abriria uma vantagem de seis pontos sobre o Olympique de Marselha a duas rodadas do final, e com um saldo de gols superior ao segundo colocado. Ou seja: apenas um milagre tiraria a taça do LOSC.

A vitória por 1 a 0 sobre o PSG serviu mais como fonte de inspiração para o Lille seguir em frente rumo a mais um título. O entusiasmo e a satisfação substituem o temor de alguns dias atrás. O elenco estava receoso sobre o impacto que uma derrota para o time da capital traria. De candidatos a ganhar tudo, os Dogues passariam à condição de fracassados em um curto espaço de tempo, algo que faria o grupo sentir as pernas mais pesadas quando tivesse o Sochaux pela frente.

Há quem levante o cansaço como possível inimigo do Lille nesta reta final. O entusiasmo criado com a conquista da Copa da França ameniza os efeitos do grande esforço físico dos jogadores, submetidos a uma pequena maratona enquanto o Olympique de Marselha aproveitava para renovar suas energias. Só que enquanto o moral do grupo do LOSC está nas alturas, o do OM está perto do chão após o empate com o Lorient. Falta pouco para o Lille conquistar o título francês pela terceira vez em sua história.

Rebaixado sem dó

O Arles-Avignon já sabe qual será um dos seus acompanhantes na queda para a Ligue 2. O Lens selou seu retorno melancólico para a segunda divisão ao ficar no 1 a 1 com o Monaco, que também luta para escapar da degola. A guilhotina, porém, atingiu os Sang et Or, que acumulam uma série de equívocos na formação de seu elenco e em sua direção há muito tempo.

A igualdade no principado apenas confirmou algo esperado. Nem mesmo a recuperação da equipe nas últimas rodadas serviu para iludir a torcida do Lens, cansada de tantos problemas dentro e fora do campo. Para os fãs, ficou a triste constatação de que o recente rebaixamento dos Sang et Or de nada adiantou para que a diretoria tirasse alguma lição e não repetisse os mesmos erros.

A nova passagem pelo purgatório evoca os velhos erros nos quais o Lens insistiu em cometer. Para começar, a contratação de reforços para a disputa da Ligue 1 e a formação de um elenco digno de primeira divisão falharam grotescamente. Em seguida, os fatos negativos se acumularam. Apostar em um duo entre Wallemme e Santini para comandar a equipe também se mostrou uma das grandes bobagens nas quais a diretoria dos Sang et Or se apoiou para tentar a salvação.

O racha no elenco também ficou evidente quando Kovacevic e Demont trocaram sopapos dentro de campo. Vedran Runje completou o pastelão ao criar encrenca com torcedores e querer resolver as coisas no braço. Ninguém consegue render alguma coisa em um ambiente tão ruim. Nem mesmo a chegada de Lazlo Bölöni em janeiro serviu para melhorar a situação.

Gervais Martel, que anunciou sua permanência à frente do clube, prometeu uma “revolução” no Lens para a próxima temporada. O discurso, o mesmo de quando os Sang et Or estiveram na segunda divisão, soa como uma promessa vazia para os torcedores. No segundo rebaixamento do clube em cinco temporadas, a torcida quer bem mais do que palavras vomitadas de ordem.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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