França

De dar sono

Dois resultados magros e uma certeza: os Bleus ainda sentem dificuldades em apresentar um futebol convincente. Tanto na derrota para a Nigéria como na vitória diante da Turquia, a seleção francesa mais uma vez deixou a desejar. Embora o duelo contra os turcos tenha sido um pouco melhor, a seleção francesa ainda semeia dúvidas quanto ao seu futuro nas Eliminatórias da Copa do Mundo-2010. E a dificuldade da equipe em furar as defesas adversárias se transformou no principal motivo das dores de cabeça do técnico Raymond Domenech.

Desde o fracasso azul na última Eurocopa, os franceses marcaram apenas 14 gols em 11 partidas. Se for levado em consideração o desempenho dos seis confrontos mais recentes, a situação piora mais um pouco: foram apenas três bolas na rede. Depois do jogo contra a Turquia, André-Pierre Gignac tentou explicar o motivo da seca ao ressaltar que “a seleção teve pela frente um grande goleiro”. Fica difícil acreditar em uma justificativa tão simplista, ainda mais se levarmos em conta que o setor ofensivo dos Bleus tem jogadores como Henry, Benzema e Ribéry.

No jogo contra os turcos, a França entrou em campo com seu esquema tático costumeiro – um 4-2-3-1 (transformado em 4-3-3 quando o time avança), o mesmo usado na derrota para a Nigéria por 1 a 0, três dias antes. No entanto, Domenech promoveu nove mudanças de uma partida para a outra – apenas Benzema e Anelka foram titulares nas duas. O resultado final teve poucas diferenças. Contra a Turquia, nem mesmo o fato de os franceses atuarem com um jogador a mais durante mais da metade do duelo fez a equipe deslanchar. Houve um pouco mais de coesão, mas diante dos espaços oferecidos na segunda etapa, era perfeitamente possível um resultado melhor.

Domenech parece convencido de seguir o caminho correto, apesar das seguidas atuações fracas. O treinador admitiu estar tranquilo, pois “a seleção cria chances”. Tudo bem, mas de nada adianta finalizar tanto em uma partida e marcar somente um gol, quando muito – sinal de que algo não está muito bem. Os Bleus abusaram dos lançamentos em vão diante de uma Turquia bem fechada e que envolveu o ataque dos donos da casa com sua linha de impedimento. Seria simples demais desmontar esta armadilha, com a chegada-surpresa de algum meia entre os defensores.

O dilúvio que caiu em Lyon serviria como desculpa, mas chamou a atenção a falta de atitude para mudar uma jogada que não dava certo e tentar algo novo. Por sorte, Üzelmez derrubou Anelka na área, recebeu cartão vermelho e originou o pênalti convertido por Benzema. Embora a partida tenha sido positiva para alguns (Abidal, por exemplo, foi bem na lateral-esquerda, posição na qual Evra teima em jogar abaixo de sua capacidade na seleção), no geral ela representou quase o mesmo do que o amistoso anterior.

Em Saint-Etienne, a apatia foi ainda mais intensa diante da Nigéria. A postura pouco agressiva logo irritou a torcida, que não poupou os Bleus das vaias e até gritou “olé” quando as Super Águias tocavam a bola. Os jogadores franceses reclamaram do comportamento dos torcedores, mas se esqueceram de olhar para seu próprio umbigo. Ribéry parecia estar mais preocupado com o fim de jogo para entrar logo em férias; Vieira, por sua vez, pouco ajudou no meio-campo, o que contribuiu para o isolamento de Benzema, bastante vaiado.

Se mantiver essa postura de que pode resolver um jogo a seu favor quando bem entender, a França corre grande perigo nas Eliminatórias-2010. A Sérvia abriu uma vantagem considerável na liderança de um grupo complicado, no qual os Bleus já tropeçaram e nem assim acordaram completamente. Essa mesma postura, apresentada durante a Eurocopa-08, trouxe resultados catastróficos, que podem se repetir caso a sonolência persista por um longo tempo.

Cara nova

Pela primeira vez em sua história, o Boulogne-sur-Mer disputará a Ligue 1. Ao lado do Lens, que ficou no purgatório por uma temporada, e Montpellier, de volta à elite depois de cinco anos, a equipe surpreendeu por seu poder de recuperação. Em 2007/08, o USBCO escapou por muito pouco de cair para a terceira divisão. Apenas uma magra vitória por 1 a 0 na última rodada sobre o Niort, conquistada com um gol nos acréscimos, salvou a pele da equipe. Era o começo da reviravolta, pelo menos dentro de campo.

Há dois anos, o Boulogne-sur-Mer passa por profundos problemas financeiros. Para se ter uma ideia, o clube aparece nas últimas colocações no ranking dos orçamentos das equipes da Ligue 2: um modesto 17º lugar. Desde já, a alegria pela promoção pode se transformar em problemas para a próxima temporada. Quando a poeira baixar, a direção se dará conta da quantidade de pepinos para resolver – e evitar um possível desempenho humilhante na Ligue 1.

Para começar, diversos jogadores estão com o contrato para acabar. Grégory Thil, artilheiro da segunda divisão com 18 gols, também deve se preparar para receber diversas propostas de transferência. Houve também a questão do estádio do USBCO, que aguardava pela homologação por parte da Liga de Futebol Profissional (LFP). Com tão pouco dinheiro disponível e tantas necessidades para cobrir, o Boulogne-sur-Mer espera reviver os momentos de superação.

Apesar de todas as limitações financeiras, a equipe conseguiu um feito e tanto, confirmado com a goleada por 4 a 0 em cima do Amiens. Em cinco anos, o time saiu da CFA (equivalente à quarta divisão) para fazer parte da Ligue 1. Isso sem contar suas últimas participações na Copa da França, quando causou alguns problemas aos clubes da elite – e com a esperança de que isto se repita em 2009/10.

Se servir como inspiração, o Boulogne-sur-Mer deve dar uma olhada para o Grenoble. O GF 38 por pouco não perdeu o direito de disputar a Ligue 1 por conta de problemas financeiros, mas conseguiu dar as garantias financeiras necessárias para tanto e fez um bom papel. Cotado para figurar entre os últimos colocados, o clube surpreendeu ao figurar nas primeiras posições no início do campeonato e, em seguida, manteve-se no miolo. Com um estádio novo e as contas mais tranquilas, a permanência na primeira divisão foi um prêmio por seu esforço.

Por enquanto, a região norte da França comemora a presença de quatro representantes locais na primeira divisão (Boulogne-sur-Mer, Lens, Lille e Valenciennes), algo que não ocorria desde 1939. A Ligue 1 será o desafio mais árduo da história para o USBCO, acostumado a superar seus próprios limites nos últimos anos. Que a presença inédita da equipe na elite seja um marco positivo, e não o ponto de partida de uma queda livre.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo