FrançaLigue 1

Córsega envergonhada

A Córsega se tornou conhecida como a Ilha da Beleza, mas esta qualidade se ofusca cada vez mais pelos seguidos espetáculos vergonhosos protagonizados por suas equipes. No mais recente clássico corso, o pau quebrou entre Ajaccio e Bastia no estádio Furiani, com ânimos exaltados tanto dentro como fora de campo. As cenas de selvageria apenas reforçam a péssima imagem futebolística da região.

A tragédia ocorrida em 1992 parece esquecida na memória dos torcedores corsos. Naquele ano, em 5 de maio, o Bastia recebeu o Olympique de Marseille em uma das semifinais da Copa da França. De olho em uma melhor arrecadação, a diretoria do clube aumentou a capacidade do seu estádio em 50%, com as autoridades locais fazendo vistas grossas para o que estava acontecendo.

Com a segurança completamente ignorada, o resultado foi trágico. A arquibancada nova, erguida às pressas, desabou e provocou a morte de 18 pessoas, além de deixar 2,3 mil pessoas feridas. Apesar da comoção e das reformas feitas no local, a tragédia não parece sensibilizar mais os torcedores de Bastia e Ajaccio, que se engalfinharam nas arquibancadas de Furiani e também fora do estádio.

Quando o exemplo deveria vir de dentro do campo, as esperanças de tempos mais pacíficos se esvaem quando se analisa o comportamento dos jogadores das duas equipes durante o último clássico. A entrada de Oliech, que apresentou os cravos de sua chuteira ao goleiro Landreau, desencadeou uma briga campal entre os jogadores. Ao final do conturbado jogo, um triste placar de 3 a 2 para o Ajaccio em cartões vermelhos. A vitória do Bastia por 1 a 0 ficou em segundo plano. Fora do estádio, as brigas entre torcedores deixaram sete feridos – cinco do Ajaccio e dois do Bastia.

Desde setembro, o Furiani se tornou palco de pelo menos uma confusão por mês. O estádio foi reaberto há apenas duas semanas, após um exílio de 80 dias vivido pelo Bastia. O clube vinha de uma punição com a perda de três mandos de campo (por isso jogou em Gueugnon e Auxerre) e ainda teve que jogar uma vez com portões fechados.

O Ajaccio também não é santo nesta história. No primeiro turno, em outubro, as torcidas dos dois clubes travaram uma batalha com arremessos de cadeiras e fogos de artifício. Em campo, Cavalli e Angoula se desentenderam e o clima esquentou. Cabe lembrar que o ACA perdeu pontos nesta Ligue 1 por conta dos incidentes ocorridos na última temporada durante a partida contra o Lyon.

Para completar o cenário dantesco do futebol corso, os atos de violência também marcam o GFCO Ajaccio. Na zona do rebaixamento da Ligue 2, o time protagonizou cenas lamentáveis diante do Monaco. Em comunicado oficial, o clube chamou o árbitro Tony Chapron de ‘anticorso’ e o detonou, acusando-o de ‘apodrecer o fim do jogo’. A Liga de Futebol Profissional (LFP) saiu em defesa de Chapron.

Em fevereiro, o GFCO Ajaccio ganhou as manchetes após Olivier Miniconi, seu presidente delegado, chutar um jogador do Lens durante outra briga generalizada. Em maio de 2012, Christophe Etorri, diretor esportivo do time, brigou com o técnico do Paris FC e foi suspenso por dois anos.

Com um histórico manchado de sangue e impunidade, o futebol da Córsega insiste em deixar de lado qualquer lição tirada da tragédia de Furiani. Vinte anos depois, nada parece comover os envolvidos nas seguidas cenas de violência que se tornaram episódios comuns por lá. Episódios corriqueiros que devem ser combatidos com rigor pela LFP, com punições exemplares aos clubes que toleram tais comportamentos.

No vermelho

O futebol francês está passando o pires em busca de alguns trocados para sobreviver. Esta é a conclusão à qual se chega quando analisamos o balanço dos clubes da Ligue 1 na temporada 2011-12, divulgado pela Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG, na sigla em francês). No total, os 20 clubes que participaram do campeonato desta época acumularam perdas de € 60 milhões. A situação precária só piora se incluirmos os times da Ligue 2 no balaio: o valor salta para incríveis € 108 milhões.

Obviamente, não dá para esperar um desempenho financeiro dos mais animadores em um período de grave crise financeira na Europa. Em um universo dominado pela insegurança e medidas de austeridade, a ordem era economizar e enxugar despesas. O mais contraditório disto tudo é ver que a metade dos clubes da Ligue 1 seguiu a cartilha e apresentou contas no azul. O Rennes nem ganhou nem perdeu. Nove times registraram balanços negativos – mas seus prejuízos foram gigantescos.

Apenas para nível de comparação, o clube francês que mais lucrou na temporada 2011-12 foi o Lille, com um superávit de € 3,8 milhões. Este valor absoluto chega a ser irrisório quando comparado ao registrado pelo Lyon, clube dono do maior rombo em seus cofres durante este período. O OL teve perdas de € 28 milhões, o que ajuda muito a entender a política do presidente Jean-Michel Aulas para cortar gastos de forma radical, deixar de investir em contratações caras, enxugar a folha salarial e apostar na base.

O Olympique de Marseille também está na mesma draga do Lyon, com perdas de quase € 8,2 milhões. Os dois clubes seguem há duas temporadas medidas para conter a sangria em seus cofres, mas pelo jeito os resultados têm sido muito pequenos diante do quadro atual. Sem títulos, ambos ainda têm que se desfazer de jogadores para tentar fechar as contas. O retorno à Liga dos Campeões se apresenta, mais do que nunca, como uma necessidade imprescindível para a recuperação financeira de marselheses e lioneses.

Já o Paris Saint-Germain integra o grupo de clubes com contas negativas, mas sua situação está longe de ser alarmante. As perdas de € 5,5 milhões estão dentro do planejado. Com a participação na LC (e as presenças em fases agudas do torneio) e o impulso de marketing com a chegada de David Beckham, o PSG esfrega as mãos para registrar um desempenho satisfatório para 2012-13.

A condição da Ligue 2 preocupa muito mais. Em 2010-11, os 20 clubes acumularam perdas de € 20 milhões. Na última temporada, este número cresceu 2,5 vezes; 14 clubes fecharam no vermelho. O Lens registrou perdas da ordem de € 17,2 milhões, seguido pelo Nantes (€ 12,1 milhões). Em comum, dois ex-campeões franceses e que penam para voltar à elite. Em tempos de fair play financeiro, tal panorama geral provoca calafrios – embora a  situação seja menos preocupante do que para espanhóis e ingleses.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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