Como assim?

Deixar David Trezeguet de fora da seleção francesa hoje parece uma situação inconcebível. Autor de sete gols em sete partidas pela Juve nesta edição da Série A, o atacante nem de longe convenceu Raymond Domenech a incluir seu nome entre os convocados para os duelos contra Ilhas Faroe e Lituânia, pelas eliminatórias da Eurocopa-08. O fato provocou a justa indignação do atleta e ampliou a relação de polêmicas desnecessárias criadas pelo técnico, que não se importa muito em provocar um desgaste ainda maior à imagem e, principalmente, aos ânimos dos Bleus em momentos decisivos.
Que Domenech não morre de amores por Trezeguet, isso ficou bem claro durante a última Copa. Apesar da seca vivida pelo ataque azul na Alemanha, o técnico insistiu em deixá-lo no banco de reservas durante a maior parte do Mundial. Além da teimosia do técnico, havia também um provável problema de relacionamento entre o atacante e Zidane. Como os dois não poderiam sobreviver juntos no mesmo time, a corda arrebentou do lado mais fraco. O pênalti perdido na final contra a Itália queimou ainda mais o filme de Trezeguet, que mergulhou em um injusto ostracismo.
Não havia desculpa mais ilógica do que desmerecer a qualidade do jogador pelo fato de a Juventus disputar a Série B, um torneio de nível técnico bem menor do que os de primeiro escalão. Se essa fosse a lei reinante, a Squadra Azzurra até hoje lamentaria a ausência de Buffon e de seus outros companheiros da Vecchia Signora, fundamentais na conquista do título mundial. Se era esse o problema, ele foi logo resolvido. Mesmo assim, as coisas não mudaram muito.
A Juve está de volta à Série A, Trezeguet manteve um desempenho muito bom nas primeiras rodadas do campeonato italiano e esperava finalmente convencer Domenech de seu valor. Afinal, o técnico havia afirmado que levaria em consideração o desempenho de cada atleta em seu clube para elaborar as futuras listas da seleção. O atacante, esperançoso, tinha sua presença aguardada entre os convocados para os próximos compromissos dos franceses; porém, sua frustração se transformou em indignação com as explicações dadas para justificar sua ausência.
Domenech alegou que a concorrência estava muito grande por uma vaga no ataque e, por isso, deixou Trezeguet de fora. No mínimo, trata-se de uma afirmação incoerente. Por méritos, o atacante merecia estar na lista com sobras. Pode-se alegar que Henry joga melhor quando tem Anelka ao seu lado do que com Trezeguet (uma verdade comprovada na prática), mas também não dá para se ignorar a boa forma do bianconero. Desse jeito, só se ele marcasse quatro gols por partida e desse mais umas três assistências mereceria alguma atenção por parte do treinador.
Henry, após um início titubeante no Barcelona, ganhou espaço com a lesão de Eto’o e, aos poucos, encaixou-se bem na linha de frente do time catalão. Como já citado, seu melhor parceiro é Anelka, com quem se entende muito bem em campo, sem haver sobreposições ou desequilíbrios de posicionamento. Benzema cumpre uma temporada muito boa no Lyon, mas por enquanto precisa de maior experiência para se firmar como um jogador de seleção. Trata-se de uma opção interessante no banco. Resta Saha, cuja temporada no Manchester United não causa muitos suspiros. Por que Trezeguet não mereceria ficar com a vaga do Red Devil?
Após desabafar a respeito de sua ausência nos Bleus e até admitir a hipótese de se aposentar com a camisa da seleção, Trezeguet viu uma porta se abrir novamente com a lesão de Saha. Domenech preferiu chamar Ben Arfa, do Lyon. Não dá para querer peitar a teimosia do técnico, embora as estatísticas comprovem a eficiência do jogador da Juve nesta temporada. Os números que parecem despertar algum interesse para ele são os de suas consultas astrológicas. Por conta dessa cegueira à obviedade, a França corre o risco de acompanhar a próxima Eurocopa apenas pela televisão.
Quem manda aqui sou eu
Enquanto na Liga dos Campeões o Lyon coleciona um vexame atrás do outro, pelo menos na Ligue 1 o time dá as caras. Trata-se de um prêmio de consolação de valor questionável; ser o melhor em um território de concorrência pouco estimulante certamente gera muitas dúvidas quanto à real qualidade da equipe. Fora das fronteiras do Hexágono, o OL ainda não provou nesta temporada ser realmente merecedor de tanta confiança e dos confetes recebidos.
Contra o Bordeaux, o Lyon exibiu uma feição completamente diferente da exibida na derrota para o Rangers na LC. De uma equipe morta, sem imaginação, criatividade e burocrática contra o clube escocês, os lioneses retiraram das mangas a tranqüilidade e a força de seus melhores tempos. Coincidência ou não, o triunfo por 3 a 1 sobre os girondinos se explica em grande parte pela boa atuação de Juninho Pernambucano.
Mais instável do que em outros anos, o meia viu sua responsabilidade crescer dentro do elenco. Em 2007/08, o Lyon demonstra estar bem mais dependente de seu capitão, mais sobrecarregado na tarefa de carregar o time nas costas. Juninho, com duas assistências em cobranças de falta precisas, esteve iluminado contra os Marine et Blanc. A defesa, que não conseguiu se encontrar muito bem até agora, funcionou com correção. Na frente, Benzema e Ben Arfa se entenderam bem e deixaram em parafuso a zaga rival.
O pior dessa história é saber que esse bom desempenho contra seus adversários caseiros passa uma idéia ilusória. Contra o Bordeaux, tudo funcionou direitinho; os girondinos sucumbiram diante de uma marcação em seu campo de defesa, sentiram dificuldades de trabalhar a bola e foram engolidos pela maior objetividade e criatividade lionesa. Na LC, porém, toda essa bela teoria foi jogada para baixo do tapete. Talvez a equipe tenha sentido demais a pressão causada por aquela derrota para a Roma em casa e entre em campo com uma cautela muito mais do que a necessária. Só não dá para ignorar que o atual elenco está em um nível inferior aos de épocas mais recentes, muito embora sua qualidade seja superior a dos demais concorrentes ao título da Ligue 1.
Ao lado do Lyon, o Nancy aparece na ponta da tabela. Surpresa do campeonato até aqui, o ASNL visitou o Monaco incomodado pelas estatísticas. Em toda a história, a equipe só havia deixado o principado com a vitória apenas uma vez. O 3 a 1 sobre o ASM, além de quebrar essa escrita negativa, mostrou como o time de Kim sabe aproveitar sua força coletiva para se impor diante de seus inimigos.
Com uma defesa sólida, liderada por Berenguer, o Nancy também contou com uma grande atuação de Puygrenier. O goleiro mais uma vez teve grande importância no triunfo de sua equipe ao fazer uma série de defesas providenciais. Para completar, o ataque foi bastante eficiente. Com inteligência, o ASNL fez dos toques rápidos sua principal virtude. Foi assim que nasceram suas jogadas mais perigosas, em uma perfeita conjunção entre o trabalho de marcação, a ligação precisa do meio-campo e a velocidade/habilidade do ataque. Sem um grande nome, o time segue na liderança e promete dar trabalho – pelo menos enquanto o fôlego agüentar.
Já o Paris Saint-Germain continua como um excelente anfitrião para seus adversários. No Parc des Princes, o time da capital caiu por 3 a 1 diante do Rennes, em outro dia pífio de sua defesa. Os bretões haviam vencido apenas uma vez no estádio em 21 confrontos, mas a atual forma do PSG faz cair qualquer tabu deste tipo. O 4-4-2 montado por Paul Le Guen enfraqueceu demais o miolo da zaga, com uma atuação desastrosa de Bourillon. Câmara esteve melhor que seu companheiro, mas isso não significa grande coisa.
Contra uma dupla de zaga lenta, o Rennes nada mais fez do que abusar dos contra-ataques, com Briand sempre disposto a desafiar a marcação – e quase sempre levar a melhor. O meio-campo parisiense pouco pôde fazer diante da movimentação constante de Thomert e Leroy. Para completar, Pauleta e N’Gog ficaram isolados na frente, pois Rothen sentiu dificuldades em superar a marcação. O drama de 2006/07 parece se repetir, e Le Guen precisa dar mais consistência ao seu time para evitar um sufoco no final.


