Com os nervos à flor da pele

A França pode fazer do duelo com a Ucrânia um mero amistoso de luxo. Para isso, basta a Itália derrotar a Escócia para os Bleus comemorarem a classificação para a Eurocopa-08 sem nem mesmo a necessidade de entrar em campo no fim de semana. Uma perspectiva interessante, mas que não pode ser considerada como certa. Os escoceses deram boas lições aos franceses nas duas vezes nas quais mediram forças e podem muito bem ganhar da Squadra Azzura em casa.
Difícil será manter a concentração durante o amistoso de sexta-feira contra Marrocos. Obviamente a cabeça dos jogadores estará voltada para o confronto decisivo de Kiev e, claro, em secar os escoceses um pouco antes disso. Embora a situação pareça bastante favorável aos Bleus, o clima na concentração em Clairefontaine não anda assim tão sereno. Um problema para Raymond Domenech tentar administrar – isso se ele não entornar o caldo de uma vez com suas polêmicas desnecessárias.
Para começar, o treinador mais uma vez se viu obrigado a responder por que deixou Trezeguet de fora da relação de convocados. Trata-se de uma incoerência deixar o atacante da Juventus de fora da equipe, cuja explicação não convenceu. Domenech mantém esse clima tenso com um assunto que já deveria ter sido resolvido com a adoção pura e simples da lógica. O jogador passa por uma fase muito boa, por isso deveria ter presença constante em suas listas. A teimosia criou um ambiente negativo e deixa uma sombra para aqueles que foram chamados no lugar do atleta da Vecchia Signora.
Outro problema ganhou força nos últimos tempos. Não é de hoje que Domenech mantém uma relação conturbada com o Barcelona. No confronto contra a Escócia, o treinador exigiu a permanência de Henry com o grupo mesmo com o atacante suspenso para aquela partida. O Barcelona, que havia solicitado a presença do atacante de volta à Catalunha, engoliu a desfeita em seco. Contudo, os blaugrana esperaram a hora certa de revidar e deu o troco em Domenech num momento crucial.
O time espanhol não liberou Henry, Abidal e Thuram para que eles se apresentassem à seleção na terça-feira, como estabelecido pela seleção. Os três apenas se juntariam aos seus demais colegas depois da partida contra o poderoso Alcoyano, da terceira divisão nacional, pela Copa do Rei. Só para constar, Ronaldinho, Messi e Milito foram dispensados desse confronto para que pudessem viajar para se apresentar às suas respectivas equipes nacionais. Ficou nítida a provocação do Barça, que não fez muita questão de esconder um sorriso sarcástico.
O Arsenal também preparou uma surpresa nada agradável para os Bleus, mas não pôde fazer muita coisa. Os Gunners entraram em campo na segunda-feira para enfrentar o Reading pela Premier League. Pior para Flamini, Gallas, Sagna e Diarra, que mal puderam se recuperar do desgaste físico provocado pelo duelo para encarar uma viagem e logo se submeter a uma rotina de treinos. O molho de toda essa confusão ainda pode ser melhor apurado.
Anelka não participou das partidas do Bolton contra o Bayern de Munique, pela Copa Uefa, e Middlesbrough, pela Premier League devido a problemas físicos. Domenech prefere correr o risco de mantê-lo no elenco mesmo sem estar em suas melhores condições e talvez sem chances de entrar em campo contra a Ucrânia. A teimosia dele em nome de um orgulho pessoal ultrapassa os limites da razão e da lógica, e pode levar os franceses à ruína. Malouda também está machucado e já não enfrenta Marrocos. O jogador do Chelsea pode ser uma baixa para o duelo com os ucranianos. Toulalan, com dores no joelho, também é dúvida.
A França está a um passo de conquistar a vaga para disputar a Euro-08. Apesar desse panorama positivo, Domenech parece gostar de deixar tudo mais difícil, como que para dar uma resposta a seus críticos quando obtiver um êxito. Enquanto suas vaidades pessoais estiverem acima dos interesses gerais dos Bleus, a seleção nunca terá um clima de absoluta tranqüilidade, algo tão indispensável em momentos decisivos como o de agora.
Duelo olímpico
Quando o Olympique de Marselha mais precisava demonstrar seu espírito de Liga dos Campeões, o time não decepcionou. Logo contra o Lyon, em pleno estádio Gerland, os marselheses deixaram de lado aquela postura comedida incorporada em seus confrontos na Ligue 1. Sem se deixar abater pelo gol sofrido no começo da partida, o OM conseguiu recuperar o equilíbrio e conquistou uma importante virada, suficiente para lhe dar o combustível necessário para fugir da zona de rebaixamento.
No encontro entre os dois representantes franceses na LC, estavam frente a frente dois times em momentos opostos no campeonato nacional. O Lyon, líder, vencedor de nove de seus últimos dez duelos, desafiava um trepidante Olympique, penúltimo colocado, sem a concentração necessária para se impor diante de seus inimigos domésticos. O que se viu em campo foi exatamente isso: um jogo marcado pelos contrastes, mas com feições completamente diversas.
Embora tenha saído na frente, com um gol de Juninho logo aos sete minutos, o Lyon voltou a apresentar algumas falhas preocupantes, principalmente em seu setor defensivo. Esse mesmo problema atrapalhou o OL em seus dois primeiros jogos na LC, quando foi dominado com folga por Barcelona e Rangers. Sem contar com Grosso, o técnico Alain Pérrin foi obrigado a utilizar Belhadj pela esquerda. O jovem, no entanto, mostrou mais uma vez que ainda precisa desenvolver um pouco mais seu futebol para render bem entre os titulares.
Entretanto, a grande decepção ficou por conta de Fred, que parece ter seu espaço cada vez mais diminuído na equipe. Como se não bastasse toda a polêmica causada por sua lesão sofrida quando estava na Seleção, o brasileiro sentiu demais a entrada no time. Substituto de Benzema, o atacante foi um peso morto. Lento, sem sincronia com seus companheiros e com finalizações erradas, ele destoou completamente. Como Ben Arfa e Benzema já estão com um entrosamento quase perfeito, a entrada de um elemento estranho minou a força ofensiva dos lioneses.
Fred não se tornou um atacante ruim da noite para o dia. Ele só precisa de um pouco mais de tempo e uma melhor preparação física para retomar sua antiga forma e brigar com mais forças por uma vaga entre os onze. Mesmo assim, o atacante se tornou uma segunda opção, pois Benzema passa por excelente fase. Se Freed aceitará por muito tempo a reserva, essa será outra questão a ser muito bem controlada por Pérrin. Com o histórico de gestos de indisciplina, não surpreenderia ver o ex-cruzeirense procurar outro clube em janeiro.
Já o Olympique teve a solidez que o Lyon apresentou em seus últimos jogos. Eric Gerets escalou a mesma equipe que começou a partida contra o Porto na LC, exceto em uma posição. Do lado esquerdo da defesa, Faty ganhou a vaga de Taiwo. O treinador, apesar do discurso de defesa ao nigeriano após a derrota para os Dragões, não poderia mesmo ignorar os seguidos erros do jogador. Contra o time português, foi notório o desequilíbrio do time naquele setor, por onde o OM tomou os dois gols.
A alteração deu à defesa do Olympique a estabilidade que faltou em seus jogos anteriores. Com o goleiro Mandanda inspirado, o clube teve ainda outro mérito: sangue frio. Atrás no placar, o OM não se abateu, manteve a solidez em seu meio-campo e aos poucos deixou o Lyon nas cordas. Para completar, Niang teve grande liberdade para se movimentar. O senegalês marcou dois gols, mas poderia ter feito mais, assim como Valbuena. Se mantiver essa mesma postura a partir de agora na Ligue 1, os marselheses logo verão a zona de rebaixamento bem longe.


