França

Chama olímpica

Lá está o Olympique de Marselha no topo da tabela da Ligue 1. Um líder convincente, ainda mais após a goleada por 4 a 1 sobre o Nice no Vélodrome, em sua terceira vitória consecutiva como mandante. Ninguém mandou o Bordeaux vacilar de novo, agora de ressaca pela eliminação da Liga dos Campeões. Ou mesmo o Lyon, nas nuvens por estar nas semifinais da LC, esquecer-se que há vida depois do torneio continental ao ficar no 1 a 1 com o Lille.

Em uma semana, os marselheses cumpriram sua missão de vencer as três partidas que tinha diante de sua torcida, para sepultar a tal “síndrome do Vélodrome”. É bem verdade que os tropeços em casa em momentos decisivos não desaparecerão em um passe de mágica, mas pelo menos os deslizes foram esquecidos em algum canto em uma hora preciosa. Entrar em campo sabendo da vitória do Auxerre fora de casa (1 a 0 no Nancy) também contribuiu, mas o OM faz valer sua folga europeia para se concentrar com força total na Ligue 1.

Se não deu na Liga dos Campeões, muito menos na Liga Europa, o OM parece ter cicatrizado suas feridas continentais no melhor momento possível. Sem passar pelo desgaste de fim de temporada vivido por Lyon e Bordeaux, o time está na frente dos rivais nesta reta final do campeonato. Além de ter jogos a menos para cumprir, o astral dos marselheses apresenta um abismo com relação ao Bordeaux, em frangalhos na parte física e psicológica e sem dar sinais de recuperação.

Quando deveria se aprumar para o sprint final da temporada, o Bordeaux parece ter escorregado e caído de boca no chão. Contra o Paris Saint-Germain, os Marine et Blanc foram um arremedo daquele time que já teve belas exibições na Ligue 1. Há de se convir que o fato de o time ter atuado com um jogador a menos por mais de uma hora ajuda a entender a derrota por 3 a 1 no Parc des Princes, mas não justifica a péssima fase vivida pela equipe.

Sem contar com Cédric Carrasso, o treinador Laurent Blanc escalou Ulrich Ramé como goleiro titular. E Ramé ficou apenas 32 minutos em campo, quando corrigiu uma bobeada de Ciani e foi obrigado a tocar na bola com a mão fora da área para evitar um gol de Erding. Sobrou para o jovem Abdoulaye Keita, terceiro arqueiro do time, que entrou no lugar de Gouffran.

Percebam: a defesa do Bordeaux novamente entregou o ouro, de novo em uma falha de Ciani. Por conta disso, o Bordeaux perdeu força ofensiva com a saída de Gouffran e se tornou quase nulo no ataque. O outro vértice do polígono de problemas dos girondinos está em Gourcuff. O meia praticamente se tornou um fantasma em campo, dada sua notória dificuldade de repetir as boas atuações por precisar de um descanso urgente.

Curiosamente, a queda acentuada de rendimento de Ciani ocorreu após sua primeira convocação para a seleção francesa. Depois disso, os erros se sucederam. Antes da besteira contra o PSG, ele já havia falhado na primeira partida das quartas de final da LC contra o Lyon. Sem oferecer a mesma segurança de sempre, o zagueiro contamina os demais companheiros e transforma a defesa em um lugar sombrio. Como o meio-campo anda inoperante, traduzido na figura abúlica de Gourcuff, explica-se a série de resultados ruins dos Marine et Blanc.

O Lyon, então, faz apenas o mínimo na Ligue 1. Contra o Lille, o OL somou apenas seu 5º ponto, dos 21 possíveis, contra equipes situadas no alto da tabela. A equipe prova não ter condições de se dividir em duas frentes e manter o equilíbrio. Obviamente, com a prioridade para a LC, como se deve fazer, a equipe de Claude Puel só se deu bem pelos rumos que o duelo contra o Lille tomou.

A lesão de Bodmer no segundo tempo forçou Puel a uma mudança ofensiva, pois Gomis entrou no lugar dele. Toulalan foi recuado para o miolo da zaga, e o fim do jogo foi meio maluco. Cabe lembrar que o LOSC teve uma defesa quase experimental, com a expulsão de Costa e a lesão de Rami. O empate foi péssimo para os dois times, que correm o risco de terminar a temporada abraçados e longe da ponta.

Adivinhem quem caiu

Era apenas uma questão de tempo. Desde a definição dos promovidos para a Ligue 1 ao final da última temporada, quem quisesse ganhar uma grana fácil deveria apostar no rápido retorno do Grenoble para a segunda divisão. O tal apostador poderia recolher seus rendimentos agora, já que o GF 38 está oficialmente rebaixado. A humilhante goleada por 4 a 0 para o Toulouse, por outro lado, trouxe um certo alívio para um doente terminal que já estava cansado de prolongar seu sofrimento.

Há quem diga no clube que a equipe foi vítima de decisões arbitrais estranhas por ser um time pequeno. Outros preferiram culpar o número excessivo de jogadores lesionados, ou então apelam para a falta de sorte. A péssima campanha do Grenoble na Ligue 1 só tem uma explicação plausível: o time nunca esteve preparado para disputar a primeira divisão. Ponto.

Para começar, a equipe começou a temporada repleta de problemas financeiros. Não dá para montar um time que não passe vergonha sem colocar a mão no bolso. O resultado se viu em campo. A fragilidade defensiva do Grenoble chega a assustar por conta dos erros quase pueris dos seus defensores. O primeiro gol do Toulouse deixou bem clara esta falta de qualidade, quando Batlles deu a “assistência” para Gignac.

A limitação do GF 38 se traduz pelos números. Em 32 partidas, a equipe venceu apenas três vezes, com seis empates e 23 (sim, eu disse 23) derrotas – sendo onze delas consecutivas. O ataque marcou pífios 21 gols (algo como duas bolas na rede a cada três jogos). A defesa foi vazada 54 vezes e, pelo menos neste critério, a equipe não está tão sozinha: o Boulogne conseguiu marca igual.

A meta agora é se despedir com um mínimo de dignidade. O objetivo está em terminar em penúltimo lugar, mas nem isso pode se chamar de tarefa fácil – depois da rodada do fim de semana, o Grenoble está sete pontos atrás do Le Mans, 19º e com um jogo a menos. Ao GF 38, caberá tão somente não repetir a melancólica campanha do Lens em 1988/89, quando o time somou apenas 15 pontos.

Para completar, o Grenoble ainda precisa prestar contas para a DNCG. Ou seja: tudo pode ficar ainda pior se o órgão reprovar as finanças do clube, que já não estão lá essas coisas. Teria sido o melhor o GF 38 permanecer mais alguns anos na Ligue 2 e, principalmente, estabilizar seu caixa para não fazer a aventura furada desta temporada.

Semifinalista

Hugo Lloris foi determinante para a classificação do Lyon para as semifinais da Liga dos Campeões. Sua atuação na segunda partida contra o Bordeaux rendeu rasgados elogios de todas as partes, mesmo dos jogadores girondinos. Com um desempenho realmente impressionante, o arqueiro lionês já ganha comparações com Fabien Barthez. Não, não a época de frangueiro, mas sim no começo da carreira.

Com a mesma juventude de Lloris, Barthez foi campeão continental com o Olympique de Marselha em 1993, naquela final com o Milan. O paralelo com o carequinha vai além: Lloris tem demonstrado a mesma calma, capacidade de sair do gol na hora certa e reflexos em dia. Para o zagueiro Cris, não há dúvidas: hoje, o melhor goleiro do mundo atua pelo Lyon.

No entanto, o mérito de Lloris também se estende à defesa lionesa. Em dez partidas pela LC, o OL levou apenas seis gols, o melhor desempenho dos quatro sobreviventes na competição. Apesar dos problemas apresentados no jogo de ida contra os Marine et Blanc, o setor apresentou uma melhora com o retorno de Boumsong ao lado de Cris. Além disso, o meio-campo contou com três jogadores de características defensivas: Gonalons, Toulalan e Källström (embora este último também se destaque no apoio ao ataque).

Nem mesmo o gol marcado por Chamakh serviu para diminuir a importância de Cris na partida no Chaban-Delmas. Sem cometer uma falta sequer durante o jogo, o brasileiro teve sem dúvida uma de suas melhores atuações na temporada. O Bordeaux, como nos seus últimos jogos, exibiu um futebol de pouca inspiração, ainda mais pelo ferrolho armado por Claude Puel.

O treinador do Lyon mandou sua equipe a campo no tradicional 4-3-3, mas com um meio-campo mais defensivo, como já explicado. Pjanic ficou no banco de reservas e entrou no segundo tempo, mas nem isso deixou o OL mais ofensivo. No total, foram 13 finalizações, mas nenhuma delas certa; além disso, os lioneses tiveram apenas 39% da posse de bola. O trabalho havia sido feito na partida de ida, e o time de Puel soube anular o adversário sem correr grandes riscos.

O desafio das semifinais permite ao Lyon sonhar um pouco mais alto na LC. Embora o Bayern de Munique seja um rival de respeito, seria muito pior ter pela frente o Manchester United do endiabrado Rooney. Se bem que hoje Robben vive excelente fase e sua estrela brilha com intensidade, como visto no golaço em Old Trafford. É possível chegar na final, mas a defesa do OL terá sua verdadeira prova de fogo agora.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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