Calculadora na mão

A seis rodadas de seu final, a Ligue 1 apresenta um desfecho repleto de suspense nesta temporada. Se em outros anos o título estava fadado a cair nas mãos do Lyon, desta vez a certeza passa longe de Gerland, ainda mais com a fase ruim vivida pelos heptacampeões. Apesar dos tropeços, nem tudo está perdido para a turma de Claude Puel. Os primeiros colocados estão bem embolados e, para aumentar as doses de adrenalina, haverá muitos confrontos diretos entre os pretendentes à glória de quebrar a hegemonia lionesa. Confira agora como chegam os principais concorrentes ao topo do pódio neste momento do campeonato:
Olympique de Marselha
1º, 64PG, 18V, 10E, 4D, 54GP, 28GC
Próximos adversários: Lille (f), Toulouse (c), Nice (f), Lyon (c), Nancy (f), Rennes (c)
Após amargar anos batendo na trave, o OM tem a grande chance de levar a taça para o Vélodrome. O time cumpre um 2009 quase perfeito: neste ano, conquistou 32 dos 39 pontos disputados (contra 27 do Bordeaux e 22 do Lyon). Os marselheses perderam apenas uma vez no segundo turno e está invicto na Ligue 1 desde 1º de fevereiro. Uma boa explicação do sucesso do Olympique está em seu desempenho fora de casa. Como visitante, a equipe foi derrotada apenas uma vez, o que compensou alguns deslizes em seu estádio. Aliás, este pode ser o trunfo dos atuais líderes em seus duelos restantes pelo torneio.
Nas próximas rodadas, o OM encara dois rivais complicados em territórios hostis: Lille e Nice. No Vélodrome, o Olympique terá a vantagem de enfrentar dois de seus concorrentes diretos e outro rival que está na briga por um lugar na Copa Uefa: Toulouse, Lyon e Rennes. O treinador Eric Gerets torce para que não seja prejudicado com mais lesões, como as sofridas por Taiwo e Niang. Por outro lado, o belga festeja a excelente fase de Brandão. O brasileiro, contratado na metade da temporada, marcou quatro gols nas últimas quatro partidas, tornou-se a principal referência ofensiva dos marselheses e corrigiu os problemas do setor.
Bordeaux
2º, 62PG, 18V, 8E, 6D, 51GP, 29GC
Próximos adversários: Rennes (f), Sochaux (c), Valenciennes (f), Le Mans (c), Monaco (c), Caen (f)
Os Marine et Blanc confirmaram seu renascimento com a vitória em grande estilo sobre o até então inalcançável Lyon. O triunfo por 1 a 0 obtido no Chaban-Delmas encheu o elenco de ânimo para o restante do torneio, deixando um pouco de lado aquela ideia de os girondinos correrem por fora. Além de ultrapassar o OL na tabela e tomar a segunda posição, o Bordeaux se encontra em posição bastante favorável quanto aos seus próximos rivais. Dos seis jogos a cumprir, apenas um envolverá alguém da parte de cima da tabela: o Rennes, fora de casa. No mais, apenas times sem muito a acrescentar ou desesperados em se distanciar da zona de rebaixamento. Por isso, desde já os comandados de Laurent Blanc aparecem como a maior ameaça ao OM.
O Bordeaux parecia amuado depois de tomar de 3 a 0 do Toulouse há cerca de um mês. No entanto, o time demonstrou grande poder de reação. Os Marine et Blanc vêm de uma sequência de cinco vitórias, algumas delas contra rivais complicados, e exibem uma eficiência impressionante. Nestes cinco duelos mais recentes, a equipe sofreu apenas um gol. Embora seu estilo de jogo seja menos vistoso do que no início da temporada, o time soube se superar mesmo quando privado de alguns de seus principais elementos, todos machucados: Henrique, Ramé, Jussiê e Cavenaghi.
Lyon
3º, 60PG, 17V, 9E, 6D, 43GP, 25GC
Próximos adversários: Paris Saint-Germain (c), Valenciennes (f), Nantes (c), Olympique de Marselha (f), Caen (c), Toulouse (f)
Há tempos o Lyon deixou de ser um bicho-papão. Mesmo na temporada passada, quando sagrou-se heptacampeão, o OL deu sinais de que sua hegemonia estava por um fio. A comprovação está aí: o time não convence, encontra problemas para repetir duas boas atuações e está com moral bastante abalada – tanto pela queda vertiginosa na Ligue 1 como pela enésima eliminação na Liga dos Campeões. As vitórias contra Sochaux e Le Mans, após uma série de quatro derrotas, trouxeram ilusão aos torcedores. O empate por 2 a 2 com o Monaco em pleno Gerland e a derrota para o Bordeaux foram um choque de realidade aos lioneses. O terceiro lugar, sinônimo da necessidade de disputa da fase preliminar da LC, parece mais do que adequada para um time sem o mesmo brio de outrora.
Nem mesmo a sorte que costuma abençoar os campeões está mais ao lado do OL. Nas seis rodadas finais do campeonato, o clube tem “apenas” três adversários diretos pelo título: Paris Saint-Germain, o líder Olympique de Marselha e Toulouse, sendo os dois últimos fora de casa – isso sem contar a batalha perdida contra o Bordeaux. Nem mesmo os refrescos contra três equipes preocupadas em evitar o rebaixamento diminui a dureza do desafio a ser encarado pelo Lyon. Quando Juninho Pernambucano, ícone da aura vencedora dos lioneses, assume estar prestes a jogar a toalha, deve-se esperar pela derrocada final do grande império. Não seria um exagero pensar até que os lioneses podem terminar na sarjeta – leia-se contentar somente com a classificação para a Copa Uefa.
Paris Saint-Germain
4º, 59PG, 18V, 5E, 9D, 46GP, 33GC
Próximos adversários: Lyon (f), Rennes (c), Le Mans (f), Auxerre (c), Valenciennes (f), Monaco (c)
A eliminação na Copa Uefa, com direito a uma tarde de infelizes lambanças de Landreau, está soterrada. O PSG não deixou a despedida do torneio continental se tornar um drama e atrapalhar seu rendimento na reta final da Ligue 1. Seu destino no campeonato será decidido no duelo contra o Lyon em Gerland. Uma vitória fará a equipe ultrapassar o próprio OL e, no mínimo, manter a distância de cinco pontos para o líder Olympique. A distância para o grande rival parece imensa a esta altura, mas não se deve esquecer que os marselheses contam com uma tabela bem mais ingrata. Caso perca, o time da capital ficará a quatro pontos dos lioneses e, no pior dos cenários, a oito do OM – e as chances de ser campeão ficam para 2009/10.
Depois de perder para Olympique de Marselha e Toulouse e da queda na Copa Uefa, o PSG mostrou frieza para levantar a cabeça. O clube está invicto há três partidas e em duas delas soube aproveitar o fator campo (ganhou de Nice e Le Havre no Parc des Princes). Embora Sessegnon passe por um momento de baixa, não se deve desprezar o poder de fogo de Hoarau. Além disso, depois da pedreira lionesa, o PSG tem apenas mais um rival da parte de cima da tabela: o Rennes. No mais, pega times na luta para escapar do perigo da queda para a segunda divisão. Resta saber se, para estes confrontos contra os desesperados, os sonhos já não terão se desfeito.
Com a corda no pescoço
Se a disputa pelo título está acirrada, a briga para fugir do rebaixamento também pega fogo nas seis rodadas finais da Ligue 1. Com exceção do Le Havre, de pífia campanha nesta temporada e já fadado à lanterna, outras nove equipes despontam como as mais afetadas por esta disputa nada nobre. Nem todas, porém, apresentam uma situação tão desesperadora. Há três níveis de perigo, sendo que o último e mais emocionante reúne o maior número de “membros”: quatro. Monaco e Auxerre, embora matematicamente tenham chances de queda, ganharam fôlego com as vitórias na última rodada e estão perto de sair da lama, formando um bloco à parte. Confira a composição dos outros:
Sossegados, pero no mucho
Lorient (11º, 38PG), Le Mans (12º, 38PG), Grenoble (13º, 38 PG)
Seis pontos acima da zona fatal, os três clubes contam com uma vantagem considerável sobre seus concorrentes mais ameaçados. Após cinco jogos sem vencer, o Le Mans deu sinais de recuperação ao ganhar duas seguidas e, melhor ainda, contra adversários diretos: Sochaux e Valenciennes. Para seu azar, a tabela lhe reservou dois duelos encardidos: Paris Saint-Germain (em casa) e Bordeaux (fora). Qualquer ponto conquistado contra os pretendentes ao título fará uma enorme diferença a favor do MUC 72 no final. O Le Mans também precisa tomar cuidado longe de seus domínios: Valenciennes, Caen e Lorient estão em seu caminho e, caso tropece contra estes rivais diretos, estará em maus lençóis.
O Grenoble conseguiu um resultado de suma importância para suas pretensões à permanência na elite. A equipe derrotou o Toulouse por 1 a 0 em casa e, se confirmar sua tendência de “seguidinhas”, estará a salvo. Explica-se: o GF 38 vinha de uma sequencia de quatro empates, quatro vitórias e três derrotas. Em seu futuro, pelo menos não há equipes da parte de cima da tabela e ainda há um confronto contra o Le Havre fora de casa. Já o Lorient perdeu por 2 a 1 para o Olympique e anda ressabiado. Os Merlus terão duelos difíceis pela frente (Lille, Toulouse e Rennes – os dois últimos como visitante). Ao menos joga em casa contra Le Havre e Le Mans, mas deve se preocupar caso perca diante dos primeiros colocados e isso prejudicar o estado de ânimo de seu elenco.
Com as barbas de molho
Valenciennes (14º, 36PG), Nancy (15º, 36PG)
O estádio de Nungesser poderá ser palco de diversas definições da Ligue 1. Afinal, o Valenciennes receberá três ilustres convidados em seus duelos restantes como mandante no torneio: Lyon, Bordeaux e Paris Saint-Germain. O VA já deu vexame diante de sua torcida ao perder por 2 a 0 para o Le Mans na última rodada e deixou sua torcida com o pé atrás. Além da necessidade de frear o ímpeto dos concorrentes ao título, o Valenciennes precisa obter pontos fora de casa. Outra tarefa ingrata, pois a equipe terá Sochaux, Monaco e Saint-Etienne nestas condições.
O Nancy suspirou ao derrotar o Caen por 2 a 1 fora de casa e ficar um pouco mais distante do fogo do rebaixamento. Coincidentemente, o ASNL havia derrotado o VA na rodada anterior por 2 a 0 – os gols foram marcados nos acréscimos e interromperam uma série de nove jogos sem vitórias. Seu calendário se anuncia um pouco chato, pois encara Olympique de Marselha (em casa) e Lille (fora). Em compensação, pega três adversários em posição inferior na tabela: Nantes (em casa), Caen e Saint-Etienne (fora).
Emergência
Nantes (16º, 33PG), Sochaux (17º, 32PG), Saint-Etienne (18º, 32PG), Caen (19º, 31PG)
Dois dos maiores campeões da França hoje lutam para escapar da Ligue 2. Nantes e Saint-Etienne se misturam a Sochaux e Caen no bloco dos clubes com maior risco de rebaixamento. Os Verdes esperam contar com a força de Geoffroy-Guichard para o difícil duelo diante do Toulouse. Contra o Lille, o caldeirão funcionou e o ASSE bateu o Lille por 2 a 1. Os Canários, por sua vez, também vêm de vitória em seu território (2 a 0 sobre o Nice). Como o Saint-Etienne, o Nantes terá pela frente o Le Havre, mas em compensação pega Rennes e Lyon.
Penúltimo, o Caen ainda quer acreditar na salvação, mas a tabela lhe reserva confrontos ingratos. O SMC visita Rennes e Lyon e, na última rodada, recebe um Bordeaux que a estas alturas pode depender do resultado para ser campeão. Para animar um pouco mais, o Stade Malherbe joga sua vida diante do Sochaux, com o risco de os dois morrerem abraçados. Por falar nos Leões, a derrota por 1 a 0 para o Auxerre em casa estragou os planos da equipe, que mantinha uma série de vencer uma e perder outra. O FCSM tem a tabela a seu favor, pois terá apenas o Bordeaux como rival da parte de cima. Em seu caminho, estão Nantes e Caen; triunfos contra os dois abrem o horizonte para o Sochaux.
Em queda
Era a hora de se impor. O Lyon visitou o Bordeaux ferido pela perda da liderança da Ligue 1 para o Olympique de Marselha e necessitava mais do que nunca de uma vitória. Em outros tempos, o OL recorreria ao seu poder de decisão para superar um rival direto e, assim, recuperar-se depois de um tropeço. No entanto, esta não é a realidade lionesa. No Chaban-Delmas, os homens de Claude Puel mais uma vez tiveram o fracasso estampado em seus rostos, amargaram uma derrota por 1 a 0 e caíram para terceiro lugar. Se bobear mais um pouco, o time perde até mesmo a classificação para a Liga dos Campeões, algo até então impensado para o gigante rico e conquistador.
Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon, iniciou a temporada com a realização de um sonho quase infantil. O dirigente enfim contratou o técnico considerado ideal para alçar o clube à condição de potência continental. Claude Puel, por seu trabalho reconhecido no Lille, era mesmo o mais indicado para reerguer a equipe depois do fracasso causado pela passagem de Alain Pérrin em 2007/08. Só que o tão cultuado treinador pouco pôde fazer diante do declínio do império lionês. De homem idolatrado, Puel ficará marcado de forma negativa por estar à frente do OL na quebra da hegemonia nacional.
Uma tremenda injustiça, diga-se de passagem. Embora tenha sua parcela de culpa (maior do que pode se supor), o treinador também ficou de mãos atadas quando viu sua defesa ser dizimada por uma interminável onda de lesões. Daí a necessidade de se trocar tantas vezes de esquema tático (Puel flertou com o 4-4-2, 4-3-3 e 4-2-3-1, sem obter a melhor composição da equipe até agora). Não dá para querer jogar nele a culpa, por exemplo, de se gastar uma fortuna para contratar Kader Keita e achar que o jogador se trata de um novo Platini.
Por outro lado, Puel não pode ser inocentado de alguns erros. Éderson, contratado como um dos principais meias da Ligue 1 graças às atuações destacadas pelo Nice, demorou a se encontrar na equipe. O brasileiro sentiu as dificuldades normais de se adaptar a um novo ambiente, mas acabou prejudicado pela indefinição de seu treinador. Puel o escalou pelo lado esquerdo do campo, mandou-o atuar também na direita e, por vezes, até como centroavante. Para quem chegou com o status de substituto de Juninho Pernambucano, parece uma heresia atuar no lugar de Benzema.
Com as nítidas dificuldades defensivas, Puel foi obrigado a se virar da maneira que podia. Ele até mesmo improvisou Bodmer e Toulalan, volantes de origem, como dublê de uma dupla de zaga. Estava escancarada a necessidade de se contratar alguém para diminuir o impacto de mudanças tão severas, mas o treinador recusou o sinal verde para a busca de novos jogadores. Pagou o preço pela insistência e foi obrigado a engolir o fato de que o elenco do Lyon não era tão maravilhoso assim.
Mesmo com as falhas cometidas neste seu primeiro ano à frente do Lyon, Puel está tranquilo quanto ao seu futuro. Aulas, que lhe deu carta branca, disse estar satisfeito com o trabalho do treinador e nem pensa em mandá-lo embora. Pérrin, apesar de seus erros, conquistou uma inédita dobradinha (Ligue 1-Copa da França), mas nem por isso mereceu o mesmo tratamento. Puel pode fechar a temporada com um feito quase inacreditável, sem ver o Lyon ganhar sequer uma tacinha e com a perda de uma supremacia consolidada. Ao menos ele comemora gozar de tanto prestígio com a diretoria, capaz de varrer o fracasso para baixo do tapete e fingir na maior cara de pau que nada aconteceu.


