Caça às bruxas

Quando Laurent Blanc assumiu o comando da seleção francesa, esperava-se enterrar aquele espírito maléfico presente nos funestos tempos de Raymond Domenech. Nada de brigas internas, revoltas ou guerrinha de egos; era preciso resgatar a imagem dos Bleus depois de um fiasco tão grande como o ocorrido na África do Sul. O treinador vinha bem em seu propósito e obteve uma importante série invicta. No entanto, todo seu trabalho foi atirado na lama a eliminação da Eurocopa-12 foi apenas uma consequência de uma triste comprovação: quando você extirpa um mal, deve fazê-lo por completo.
Blanc bancou Samir Nasri como titular da seleção francesa na Euro. O meia teve bela atuação contra a Inglaterra, mas ao comemorar o gol marcado com um “cala a boca” a um jornalista já o tornou alvo de reprovação por parte da Federação Francesa (FFF). Quando mais se precisa de paz, eis que o clima aparentemente calmo começa a fechar. Nasri não soube lidar com a cobrança, natural em um momento desejado de recuperação e, principalmente, redenção de uma equipe achincalhada e ridicularizada aos olhos do mundo.
As críticas ao futebol de Nasri tinham sua razão de ser; afinal, a constância nunca foi o ponto forte do meia. E foi exatamente o que se viu dele nos jogos seguintes: atuações discretas e que colocavam em dúvida seu mérito de ser titular. A derrota para uma eliminada Suécia serviu de estopim para desencadear uma série de cobranças e mostrar que o domínio de Blanc sobre o elenco era apenas ilusório.
Perder para a Espanha campeã mundial está longe de ser um vexame. Esta palavra se aplica ao que houve fora de campo com os Bleus. Nasri ignorou qualquer senso de unidade ao descontar sua frustração em outro jornalista após a eliminação francesa com insultos descabidos. Seu relacionamento com os outros jogadores também não era dos melhores. Há inúmeros casos de times campeões formado por atletas que se detestavam, mas em campo faziam aquilo que se esperava deles: jogar bola. Nasri não fez nem uma coisa, muito menos a outra.
Seu comportamento o faz entrar para a lista de indesejados da FFF, assim como Nicolas Anelka foi por mandar Raymond Domenech tomar… caju (muito embora o treinador merecesse, mas não nos vestiários de um jogo de Copa do Mundo). Nasri deve levar um gancho ainda maior do que o do atacante e está ameaçado de ficar até dois anos sem vestir a camisa dos Bleus – o que fatalmente o tiraria da Copa do Mundo-2014. Seria um castigo exemplar, mas ao mesmo tempo demonstra que o espírito de Knysna ainda ronda o ambiente da seleção.
Blanc ainda viu Jérémy Ménez tirar satisfações de forma ríspida com Hugo Lloris durante o jogo contra a Espanha. Yann M’Vila teve um chilique quando foi substituído e nem cumprimentou Olivier Giroud, que entrou em seu lugar. No banco, fez beicinho ne se esqueceu que o treinador lhe deu um voto de confiança ao mantê-lo no elenco mesmo após se recuperar de um problema físico e não estar com 100% de suas condições. Hatem Ben Arfa também teve seus repentes de ingratidão ao bater boca com o técnico.
Tudo isso demonstra que Blanc não tem o completo domínio do grupo como se imaginava. Pior: ao assumir, ele se comprometeu a virar a página do fiasco da Copa-2010, mas os episódios na Ucrânia mostram que quase nada mudou. A longa invencibilidade serviu como aquele tapete para o qual se varre a sujeira e se acha que está tudo bem. A Suécia e a Espanha resolveram levantar este tapete e provaram que estava tudo do mesmo jeito, como começou. Voltamos à estaca zero.
Futuro
Nem mesmo a demonstração de arrependimento de Nasri ameniza a situação. Se o jogador tem grande participação em todo este ambiente negativo em torno dos Bleus, Blanc também tem sua parcela de culpa. Ao assumir o cargo no lugar de Domenech, esperava-se que ele fizesse de tudo para recuperar a terra arrasada deixada pelo antecessor. O técnico fez uma floresta artificial, muito bela aos olhos de quem analisa superficialmente, mas que não resistiu à primeira tempestade.
Blanc deixou a Euro-12 fragilizado. A imagem de um treinador com o grupo na mão ficou extremamente abalada com os casos de indisciplina de seus jogadores. Muito embora não tenha sido um inconsequente como Domenech, o técnico caiu na real e percebeu que todo seu longo trabalho de recuperação falhou. Isso coloca em dúvida sua permanência à frente dos Bleus.
O encontro de Noël le Graët, presidente da FFF, com Blanc nesta semana se mostra decisivo. Se a renovação de contrato do treinador parecia certa após a vitória sobre a Ucrânia, quando a França apresentou um futebol vistoso, agora há sérias dúvidas sobre sua permanência. Os episódios ocorridos na Ucrânia e o interesse do Tottenham são indícios do que pode acontecer. A Federação Francesa há tempos se mostra descontente com o elevado número de membros da comissão técnica (23 no total), mas engolia seco por conta dos resultados. Agora, o novo fiasco deve acelerar o processo de desmanche, o que enfraqueceria ainda mais o treinador.
Há fortes rumores de que Didier Deschamps está pronto para deixar o Olympique de Marselha para substituir Blanc. DD está cada vez mais descontente no OM, onde vive uma guerra interna todos os dias com seus desafetos na diretoria. Ele até já teria conversado com Graët para falar sobre sua situação e condições para assumir as novas funções.
O silêncio de Blanc quando questionado sobre seu futuro não poderia ser um sinal mais claro. Ele já não é o dono de seu destino e acabou como uma vítima da confiança que depositou em alguns jogadores. Traição? Seria uma palavra forte demais, mas é certo que Nasri, MVila e Ben Arfa (estes em maior grau) foram no mínimo ingratos com quem lhes estendeu a mão quando eram enxovalhados.
Talvez tenha faltado a Blanc se impor diante de seu elenco e adotar uma postura mais enérgica para conter esta rebeldia. Nem sempre a conversa e a proximidade dos jogadores resolvem os problemas de relacionamento. Muitos confundem confiança com liberdade excessiva. Alguém com a personalidade forte como Deschamps teria o pulso necessário para afrouxar ou apertar a guia conforme a necessidade.
Neste momento, os Bleus precisam de alguém mais enérgico, e Deschamps se encaixa bem neste perfil. Blanc se mostrou um excelente treinador, mas para quando o ambiente estiver tranquilo e todos os elementos funcionam de forma harmônica. A Euro-12 era a chance de mostrar ao mundo uma França com outra cara, mas os Bleus falharam miseravelmente. O momento exige mudanças urgentes.


