Boxing Jour

Para os torcedores franceses que sentem falta de um joguinho de futebol no fim do ano, novidades podem aparecer em breve. A União dos Clubes Profissionais de Futebol (UCPF) estuda a possibilidade de preencher este vazio na época do Natal e do Ano Novo com algumas rodadas da Ligue 1. A inspiração, claro, vem do tradicional Boxing Day existente na Inglaterra e viria como uma solução para o cada vez mais apertado calendário.
Philippe Diallo, diretor geral da UCPF, defende a criação deste “Boxing Jour” para manter o clima quente de disputa do campeonato. Para ele, a supressão da pausa de inverno acabaria com aquela sensação de quebrar algo que está bombando. Como geralmente a Ligue 1 se mostra um torneio equilibrado, sem que um time dispare, este clima de briga acirrada seria mantido, sem a demora para engrenar novamente após parar por algumas semanas.
Além disso, segundo Diallo, seria uma oportunidade interessante para abrir os estádios para um público um pouco diferente. O diretor geral da UNPF acha que o clima festivo de fim de ano, além das férias escolares, levaria um número maior de mulheres e crianças aos campos, criando um ambiente mais familiar. O discurso ganha força quando se analisa a situação do futebol francês dentro da Europa.
Há cerca de 15 anos, o Campeonato Francês era o segundo do continente em termos de valores de negócios. Hoje, aparece em quinto lugar, bastante ameaçado por Portugal. Há uma preocupação crescente em retomar sua posição de destaque no cenário europeu, ainda mais ao ver que outros esportes estão roubando público, audiência e, principalmente, dinheiro. O rúgbi, por exemplo, aproveitou bem esta lacuna e ganhou espaço.
Na prática, porém, os planos da UCPF se tornam complicados de se concretizar. Para começar, é pouco provável que os franceses adotem sem restrições uma tradição usada pelos ingleses, seus velhos rivais. O contexto do Boxing Day na Inglaterra é bem diferente do que a UCPF pensa em adotar – para os súditos da rainha, o dia 26 de dezembro (data de uma das rodadas da Premier League) é um feriado; para os franceses, um dia normal.
Se do ponto de vista cultural fica difícil imaginar este empréstimo, há outro forte argumento para contrapor esta ideia. Ao sugerir a supressão da pausa de inverno, automaticamente as férias dos jogadores também são interrompidas. E quando se mexe nisso, há toda uma mobilização do sindicato dos atletas para a defesa dos direitos de seus membros.
Além disso, o risco de aumentar o número de contusões e problemas físicos aumenta consideravelmente, pois os jogadores são expostos a um desgaste contínuo. Se pensarmos que os compromissos internacionais (torneios continentais e jogos de seleções) continuam iguais, de pouco adianta você adiantar duas ou três rodadas da Ligue 1. Amistosos, Liga dos Campeões e Liga Europa sempre existirão e exigirão dos clubes um grande esforço para contemplá-los da melhor maneira possível.
A constante reclamação com o calendário francês faz sentido, mas o problema está em outro lugar. Voltamos, então, a uma antiga discussão: existe mesmo a necessidade de se disputar uma Copa da Liga Francesa? O torneio já não conta com tanta simpatia dos clubes e suas partidas ocupam espaço considerável na agenda dos times das principais divisões do país. Antes de pensar em mexer em um vespeiro, deve-se primeiro olhar para seu próprio umbigo.
Lyon em baixa
No Paris Saint-Germain, Carlo Ancelotti conquistou sua primeira vitória à frente da equipe e manteve a liderança com os 3 a 1 sobre o Toulouse. O Olympique de Marselha reagiu ao bater o Lille por 2 a 0. Até o lanterna Ajaccio conquistou seu 10º ponto nos últimos 12 disputados ao ganhar do Auxerre por 2 a 1. Enquanto isso, o Lyon não consegue mesmo se firmar na Ligue 1.
Tudo bem que o OL enfrentou o vice-líder Montpellier fora de casa, mas os comandados de Rémi Garde mais uma vez exibiram um futebol pobre. O milagre obtido diante do Lille, quando venceu por 2 a 1 com um homem a menos pela Copa da Liga Francesa, não se repetiu. O treinador se viu obrigado a montar uma defesa completamente experimental e juvenil.
O Lyon vive uma temporada marcada pela série de lesões de alguns de seus principais jogadores e contra o MHSC não foi diferente. Desta vez, a defesa foi completamente arrasada pela enfermaria. Cris, Lovren, Cissokho e Réveillère, machucados, não estiveram em campo. Como se não bastasse, Koné e Mensah estão com suas seleções para a disputa da Copa Africana de Nações e Dabo estava suspenso. Sobrou escalar Fofana (improvisado na lateral direita), Gonalons, Umtiti e Kolodziejczak no setor defensivo e rezar para tudo dar certo. Não deu.
Contra o melhor ataque da Ligue 1 e o artilheiro do campeonato, não havia muito o que uma defesa remendada pudesse fazer. Olivier Giroud agradeceu e fez o gol da vitória por 1 a 0 do Montpellier, que fez o OL perder contato com a liderança e desperdiçar a chance de entrar na zona de classificação para a Liga dos Campeões.
Se a defesa teve dificuldades diante do Montpellier, o ataque dos lioneses teve rendimento pífio. Durante o primeiro tempo, o Lyon não deu um chute a gol sequer. Desorganizado na armação, o OL apenas assistiu ao lógico domínio do MHSC, que sentia problemas na conclusão de suas jogadas embora tivesse maior posse de bola e o controle da partida em suas mãos.
Garde encontrou um culpado que se encaixa na primeira parte desta coluna: o calendário. Em uma semana, o Lyon teve três jogos importantes para disputar. Além da Ligue 1, o time está vivo na disputa da Copa da França, Copa da Liga Francesa e Liga dos Campeões. O clube errou em sua estratégia de montagem de elenco para a temporada, ao apostar em um grupo pequeno e formado por vários jogadores de pouca experiência. O resultado tende a ser o pior possível.


