Futebol francês

Beraldo é intocável no PSG: Por dentro da renovação e os planos de longo prazo por clube e Seleção

Em entrevista à Trivela, Filipe Tancredi revela que PSG e jogador alinharam um projeto de desenvolvimento mútuo

Lucas Beraldo viveu em pouco mais de dois anos no Paris Saint-Germain uma transformação que ajuda a explicar por que o clube decidiu antecipar a renovação de seu contrato. Contratado do São Paulo em janeiro de 2024 como zagueiro de 20 anos, o brasileiro passou por momentos de protagonismo e outros de pouca utilização, foi testado como lateral e cravou seu futuro no meio-campo.

Agora, aos 22 anos, tem vínculo com o PSG até 2031. A extensão foi anunciada no início de setembro, junto às renovações de Luis Enrique, João Neves, Willian Pacho, Senny Mayulu e Fabián Ruiz. Em entrevista à Trivela, Filipe Tancredi, empresário de Beraldo, conta que a renovação foi mais do que uma simples atualização contratual.

Antes de sentar à mesa para discutir o novo vínculo, a prioridade foi entender se PSG e jogador enxergavam o mesmo caminho para os próximos anos. A resposta, de acordo com o representante, foi positiva — e deixou claro que o clube francês não vê o brasileiro apenas como uma peça útil para a rotação, mas como alguém que pode permanecer em Paris durante boa parte da próxima década.

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Beraldo foi da falta de espaço ao jogador que o PSG não quer negociar

A renovação acontece justamente quando Beraldo encontrou uma nova maneira de conquistar espaço no elenco de Luis Enrique. O treinador espanhol começou a utilizá-lo como volante na reta final da temporada passada, uma mudança que deixou de ser apenas uma solução emergencial e passou a fazer parte do repertório do jogador.

A história recente de Beraldo no mercado ajuda a dimensionar o que mudou. Durante 2025, quando a concorrência por espaço na defesa do PSG aumentou, o brasileiro passou a ser associado a uma possível saída. Depois do Mundial de Clubes, a Juventus apareceu naquele mercado como um dos clubes interessados. A “Gazzetta dello Sport” informou em agosto de 2025 que o clube italiano havia se informado sobre Beraldo durante conversas com o PSG.

Beraldo comemora gol pelo PSG
Beraldo comemora gol pelo PSG (Foto: Anthony Bibard/FEP/Icon Sport)

O interesse não desapareceu completamente nos meses seguintes. O nome de Beraldo voltou a aparecer ligado à Juventus no fim de 2025 e, já em 2026, Borussia Dortmund e Bayer Leverkusen foram associados ao jogador em diferentes relatos de mercado. O cenário atual, porém, é completamente diferente. Tancredi revela à Trivela que o clube vê o brasileiro como intocável:

“A resposta mais sincera possível é que o Lucas é intocável no Paris Saint-Germain. Hoje o PSG não tem nem possibilidade de abrir conversas pelo Lucas, porque realmente eles entendem ele como um jogador que é muito importante para o projeto.”

A transformação de posição foi decisiva nesse processo. Luis Enrique encontrou em Beraldo um jogador capaz de transportar características de defensor para o meio-campo: qualidade no passe, leitura para antecipar, agressividade defensiva e experiência para interpretar o que acontece às suas costas.

O projeto do PSG por Beraldo vai além da posição

Tancredi explica que o papel do staff não foi apenas negociar valores ou duração de contrato. Antes de qualquer acordo, houve uma preocupação em entender como o PSG imaginava a evolução de Beraldo e se havia espaço real para que o brasileiro continuasse acumulando minutos.

“O nosso trabalho passa muito por entender e estar muito próximo do atleta e do clube, fazendo essa interface entre as partes. Quando a gente vai para a mesa para tratar de uma renovação de um atleta como o Lucas hoje, num clube também como o PSG, a gente tem que entender se o PSG tem um plano claro para o atleta”, revela o agente.

A preocupação tem uma razão: um contrato longo pode parecer uma demonstração de confiança, mas não necessariamente significa protagonismo. Para um jogador jovem, ficar vinculado durante anos a um clube de elite sem uma perspectiva clara de minutos pode ser um problema. Tancredi, por isso, diz que esse alinhamento foi uma das questões centrais da negociação.

Luis Enrique, técnico do PSG, em coletiva de imprensa
Luis Enrique, técnico do PSG, em coletiva de imprensa. Foto: Baptiste Fernandez/Icon Sport)

“Porque o que parece ser um sonho, se não bem executado, pode se transformar num pesadelo”, afirma.

No caso de Beraldo, a avaliação do staff é que o PSG oferece justamente o ambiente que o jogador precisa neste momento. Ele treina diariamente com alguns dos melhores jogadores do mundo, disputa todas as competições importantes e está inserido em um elenco que acaba de conquistar duas Champions League consecutivas.

O próprio PSG utiliza esse discurso. No anúncio das renovações recentes, Nasser Al-Khelaïfi afirmou que os jogadores renovados representam “o presente e o futuro” do projeto. Beraldo, portanto, não foi colocado em um grupo de atletas cujo contrato simplesmente precisava ser estendido: ele aparece oficialmente entre os jogadores que o clube francês identifica como parte de sua construção de longo prazo.

“Eles são apaixonados, toda a direção e clube, pelo atleta, pela qualidade, mas principalmente pelo profissional e pela pessoa. Pela ética de trabalho, por ele chegar primeiro que todo mundo, por ele ajudar todo mundo, por entender o momento dele”, conta.

A característica também ajuda a explicar como Beraldo atravessou um período de menor utilização sem transformar a situação em uma ruptura. O jogador queria jogar mais, mas continuou treinando, esperando uma oportunidade e, quando Luis Enrique encontrou uma nova função para ele, conseguiu responder.

Inspiração em Marquinhos e o caminho da seleção brasileira para Beraldo

A comparação com Marquinhos surge quase naturalmente. Os dois são brasileiros, zagueiros, chegaram jovens ao PSG e passaram a construir suas carreiras em Paris. Marquinhos chegou aos 19 anos, em 2013, e se tornou capitão, um dos maiores vencedores da história do clube e uma referência institucional do projeto.

Beraldo não foge da influência do compatriota. Segundo Tancredi, os dois são amigos, as famílias mantêm relação próxima e Marquinhos foi uma referência importante desde antes da transferência para Paris. Mas o empresário evita estabelecer uma linha reta entre as duas histórias.

Beraldo e Marquinhos comemoram título, em 2024
Beraldo e Marquinhos comemoram título, em 2024 (Foto: Anthony Bibard/FEP/Icon Sport)

“O Marquinhos é o maior ídolo da história do Paris Saint-Germain, indiscutivelmente, é o maior campeão da história do clube. O Lucas agora vai construir a história dele. Acho que cada um do seu jeito, da sua maneira, com a sua história.”

O clube, segundo Tancredi, vê a transformação como parte de uma filosofia maior. O PSG mudou a maneira como recruta e desenvolve jovens jogadores nos últimos anos, buscando atletas que possam ser potencializados dentro do próprio projeto. Beraldo, nesse sentido, virou um exemplo do que o clube pretende fazer.

“Eles sempre nos expressam que o Lucas é um cara que tem tudo para fazer história e ficar muitos anos lá”, diz o empresário.

A permanência no PSG também tem impacto direto em outro objetivo de Beraldo: voltar a ter espaço frequente na seleção brasileira. O zagueiro foi convocado por Carlo Ancelotti durante o ciclo da Copa de 2026 e chegou a atuar pelo técnico italiano, mas ficou fora da lista final do Mundial.

Para Tancredi, existe uma lógica clara: quanto mais protagonismo um jogador tiver em um clube de elite, maiores serão suas chances de voltar à Seleção.

“É claro que é o sonho dele, mas ele seguiria trabalhando para conquistar o espaço dele. Ele é um cara que sabe que é muito importante estar bem no clube para que a oportunidade na Seleção apareça.”

O empresário reconhece que a concorrência é enorme. A seleção brasileira passou por mudanças e Ancelotti utilizou o primeiro ciclo pós-Copa para observar novos jogadores. Beraldo, apesar de já ter experiência internacional, precisará disputar espaço com outros zagueiros que também estão sendo avaliados.

Mas existe um argumento que Tancredi considera importante: Beraldo não está apenas em um clube de elite. “Se o atleta está performando no Paris Saint-Germain, está sendo campeão de tudo, ele está na frente de um atleta que está jogando num time que não ganha ou que é um time do meio para baixo da tabela”, afirma, ressalvando que todos os jogadores convocados têm seus próprios méritos.

É uma visão naturalmente ligada ao interesse do jogador e de seu estafe, mas também ajuda a explicar por que a decisão de permanecer em Paris foi tão importante. Beraldo não escolheu apenas ficar onde estava confortável, mas continuar em um ambiente no qual existe a possibilidade de disputar títulos no mais alto nível e, ao mesmo tempo, desenvolver uma função nova.

A Seleção, nesse cenário, passa a ser consequência do trabalho no clube. “A gente acredita que o Lucas tem feito um trabalho muito sólido e está 100% preparado”, afirma Tancredi.

A renovação até 2031, nesse sentido, é uma aposta de que a história de Beraldo em Paris ainda está longe de terminar. O PSG já sabe o que o brasileiro pode oferecer como zagueiro. Luis Enrique descobriu que ele pode oferecer algo diferente como volante. E o clube, ao antecipar a renovação antes mesmo do fim do contrato original, decidiu que quer descobrir até onde essa transformação pode chegar.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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