Futebol francês

‘Me dá nojo. Lágrimas de crocodilo’: Campeão do mundo detona saída de Paulo Fonseca do Lyon

Christophe Dugarry critica decisão do português de trocar clube francês pelo Sporting antes do fim da temporada

Christophe Dugarry não poupou críticas a Paulo Fonseca diante da iminente saída do treinador português do Lyon. Na última segunda-feira (2), durante participação no programa “Rothen s'enflamme”, da “RMC”, o ex-jogador francês demonstrou profunda indignação com a decisão do comandante de abandonar o projeto do clube antes do encerramento da temporada. A revolta ganhou ainda mais força após as lágrimas de Fonseca na vitória por 2 a 0 sobre o Angers, no domingo (1), pela Ligue 1.

Apesar de tentar preservar alguma ambiguidade sobre o futuro, o português já tinha praticamente definido seu próximo destino. Conforme informações divulgadas pela imprensa francesa e portuguesa, Fonseca deixará o Lyon nos próximos dias para assumir o Sporting, clube pelo qual nutre uma ligação especial desde a infância. O técnico deve ocupar a vaga de Rui Borges, cuja saída da equipe lisboeta é esperada em breve.

A possibilidade de uma despedida antecipada provocou uma reação contundente de Dugarry, campeão mundial com a França em 1998. Para o comentarista, a escolha do treinador representa um problema que ultrapassa os interesses particulares do Lyon e expõe uma transformação preocupante no comportamento dos profissionais do futebol.

Dugarry critica saída antecipada e questiona compromisso de Fonseca

Paulo Fonseca orienta jogadores durante jogo do Lyon
Paulo Fonseca orienta jogadores durante jogo do Lyon (Foto: ANP / Icon Sport)

Dugarry argumentou que a função de um treinador vai muito além da condução dos jogos e envolve uma responsabilidade permanente com o desenvolvimento dos atletas e a construção de vínculos dentro do clube. Na avaliação do francês, abandonar o trabalho antes do fim da campanha significa interromper um processo que ainda exige dedicação, especialmente diante da presença de jogadores jovens no plantel.

— Acho isso terrível para o futebol em geral. Me dá nojo. Por muito tempo, dissemos que os jogadores eram mercenários e que só pensavam em dinheiro. Agora são os técnicos. O time foi montado para vocês (técnicos). Não conseguem terminar a temporada? Não entendo essa ideia.

O comentarista ainda aprofundou sua visão sobre o papel de um comandante na formação de um elenco. Para ele, a relação entre técnico e jogadores não deveria ser limitada aos resultados ou às oportunidades profissionais, mas construída também a partir da convivência cotidiana e do envolvimento com o crescimento individual dos atletas.

— Vocês têm jogadores jovens que precisam de vocês para atingirem seu potencial máximo. O que é um técnico? Ele leva um grupo à maturidade, ajuda seus jogadores a progredirem, fica feliz em vê-los todos os dias no treino. Há uma troca, uma paixão. Um técnico é um líder, um guru, um profeta, alguém importante na carreira, no clube. É diferente de um jogador.

Francês rejeita lágrimas de Fonseca e relembra apoio do Lyon

O choro de Paulo Fonseca após a vitória do Lyon sobre o Angers
O choro de Paulo Fonseca após a vitória do Lyon sobre o Angers (Foto: Stephane Pillaud / Icon Sport)

A manifestação de Paulo Fonseca após o triunfo sobre o Angers também se tornou um dos principais pontos da contestação. O treinador português foi às lágrimas diante dos jogadores e deixou o gramado visivelmente emocionado, em uma cena que poderia simbolizar sua despedida à frente do time. Na visão de Dugarry, entretanto, a demonstração de tristeza não combina com a decisão de deixar o trabalho antes de sua conclusão.

— Estou chocado. Certamente teremos que nos acostumar com isso. É terrível para o futebol e terrível para os torcedores do Lyon. Não é justo da parte de Fonseca. Acho chocante, me perturba completamente. Ele poderia ter ficado. Não acredito nessas lágrimas de crocodilo. Porque se dói tanto assim, você fica. Ninguém o obrigou a sair.

O ex-atacante também recuperou um episódio delicado da passagem de Fonseca pelo futebol francês para reforçar sua argumentação. Em março de 2025, o treinador recebeu uma suspensão de nove meses do Comitê Disciplinar da Liga de Futebol Profissional da França, após um incidente que envolveu sua reação diante de um árbitro. Durante o período em que esteve afastado dos gramados, o Lyon manteve o apoio ao português, que acompanhou partidas das arquibancadas.

Dugarry considera que o respaldo recebido naquela ocasião torna ainda mais difícil compreender a decisão de abandonar o projeto antes do término da temporada. O comentarista afirmou que o clube e seus profissionais trabalharam para superar o episódio e criticou o que considera uma contradição entre o comprometimento demonstrado anteriormente e a saída agora encaminhada.

— Você foi suspenso por seis meses por algo mais do que questionável, o clube continuou te apoiando quando você estava nas arquibancadas, tudo correu bem, todos arregaçaram as mangas. Você mostrou que queria se envolver e tudo isso é falso. É tudo uma farsa, na verdade, e este futebol está se tornando uma farsa — concluiu.

Paulo Fonseca chegou ao Lyon em 31 de janeiro de 2025, contratado para substituir Pierre Sage, demitido naquele momento. Com passagens por Porto, Paços de Ferreira, Braga, Shakhtar Donetsk, Lille e Milan, entre outros clubes, o português assumiu uma equipe que buscava estabilidade e melhores resultados esportivos. Seu vínculo com os franceses tinha validade até 30 de junho de 2027.

Durante o período à frente do Lyon, o treinador conseguiu conduzir o clube a duas classificações para a Liga Europa, mas não alcançou o principal objetivo esportivo de garantir uma vaga na Champions League. A transferência para o Sporting, além de encerrar antecipadamente seu ciclo na França, deverá render uma compensação financeira ao Lyon, que receberá uma indenização pela liberação do técnico.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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