França

Beckham se aposenta da melhor forma possível

Foram 21 anos de futebol na vida de David Beckham. Acostumado a estar em decisões por pelo menos 15 desses anos, o inglês atravessou duas eras distintas no esporte. Criado em meio a uma geração da Inglaterra que foi talentosa, técnica e acabou ficando no quase, Beckham precisou se reinventar conforme o tempo passava e viu no título da Ligue 1 sua última glória antes de anunciar a aposentadoria nesta quinta-feira.

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Durante seu auge nos anos 1990 (e também na consagração do Manchester United de Alex Ferguson), o meia ganhou fama com seu estilo de conduzir a bola e trabalhar como o maestro do setor. O físico nunca foi seu ponto forte, já que David fazia bom uso de seus passes e visão de jogo. Especialmente em seu curto período no PSG, precisou resgatar um estilo mais marcador e combativo, característica de seus primeiros anos na Inglaterra.

Exímio cobrador de faltas e garçom para os companheiros que jogavam no ataque, teve sua primeira temporada notória em 1995-96, quando o United venceu a Premier League e a Copa da Inglaterra. Mas foi mesmo alavancado ao sucesso com um gol de trás do meio campo em 1996 diante do Wimbledon do pobre arqueiro Neil Sullivan, na rodada de abertura daquela edição da Premier League em 1996-97.

Beckham comemora o título da Liga dos Campeões de 1999: geração inesquecível em Old Trafford
Beckham comemora o título da Liga dos Campeões de 1999: geração inesquecível em Old Trafford

Reconhecido como grande estrela da companhia, Beckham passou a ganhar mais responsabilidade, virou o menino de ouro da seleção e do clube. Sua importância dentro do time de Ferguson ficou bem nítida na inesquecível final continental diante do Bayern Munique em 1999. Carregando a bola pela esquerda, David rolou para Gary Neville que tentou o cruzamento. O United ganhou o primeiro dos dois escanteios (cobrados por Becks) que culminaram numa virada impressionante por 2 a 1. Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer também agradeceram ao camisa 7.

Jogador mais valioso daquela edição da Liga dos Campeões e ainda contemplado com o prêmio de melhor meia do torneio, Beckham conheceu o legítimo sucesso. As seis conquistas na Premier League, duas na Copas da Inglaterra, quatro em Supercopas da Inglaterra, sem falar no Mundial Interclubes de 1999 falavam por si. Seus melhores dias coincidiam com os melhores do Manchester United.

Desentendimento com Ferguson, saída para o Real Madrid e a fama acima do talento
No Real Madrid, Beckham precisou esperar até seu último ano para ganhar um título importante
No Real Madrid, Beckham precisou esperar até seu último ano para ganhar um título importante

O famoso episódio da chuteira atirada por Ferguson na cara de Beckham (durante um Manchester United x Arsenal pela Copa da Inglaterra) serviu para encerrar a estadia do astro em Old Trafford, em 2003. Mais popstar do que propriamente um atleta de alto nível, David passou a ser visto como peça explorada pelo marketing, ao contrário do que havia construído anos antes. Vendido ao Real Madrid, se juntou a outros craques num elenco estelar.

Os galácticos Iker Casillas, Roberto Carlos, Zinedine Zidane, Luís Figo, Raúl, Ronaldo e Fernando Morientes pareciam ser o time perfeito. Nos quatro anos em que defendeu os merengues, Beckham e seus colegas não conseguiram fazer o Real o super campeão que se esperava.

Venceu apenas uma Liga espanhola (em seu último ano) e uma Supercopa, vendo de perto o Barcelona entrar para a história com Ronaldinho e Eto´o.

Aventura na MLS e estrelato no Paris-Saint Germain
Beckham foi bicampeão da MLS pelo Galaxy
Beckham foi bicampeão da MLS pelo Galaxy

Já na casa dos 30 anos, David foi tentar a sorte no Los Angeles Galaxy e aceitou a missão de tentar popularizar o esporte nos Estados Unidos. Apesar dos dois empréstimos ao Milan, treinamentos no Arsenal e no Tottenham e até especulações de que voltaria ao futebol inglês, Beckham foi bem sucedido no clube norte-americano.

Bicampeão da MLS em 2011 e 2012, foi o capitão da equipe e em algumas partidas mostrou que o velho desejo de vencer ainda estava ali. Sem necessidade de correr pelo campo para buscar o jogo, se contentava em ele mesmo achar espaços na defesa adversária para criar chances de gol.

Ainda havia tempo para que aos 37 anos aceitasse o convite do Paris Saint-Germain para encerrar sua carreira. Nos últimos minutos da janela de transferências de janeiro de 2013, os dirigentes do clube francês o anunciaram em uma coletiva esperada pelo mundo todo.

Foi também a última taça erguida por Beckham em sua carreira, as últimas partidas europeias e também o dissabor de duas derrotas significativas. Para o Barcelona de Messi, que saiu do banco para resolver as quartas de final da Liga dos Campeões e para o Évian, nas quartas de final da Copa da França.

Ao fim de abril, foi expulso com apenas seis minutos em campo contra o Évian, em revanche pela eliminação no torneio local. O episódio fez lembrar a fatídica derrota para a Argentina na Copa do Mundo de 1998, onde se desentendeu e revidou uma agressão a Diego Simeone. Hostilizado na Inglaterra pelo ocorrido, ele precisou se redimir anos depois ao marcar um gol de falta diante da Grécia e classificar seu país de forma dramática para o Mundial de 2002.

Os números e conquistas mostram como ele foi vencedor. Campeão por onde passou (com exceção do Milan), só lhe faltou mesmo alguma taça pela seleção inglesa. Muito embora nesse ponto ele seja acompanhado por outros grandes jogadores como Frank Lampard, Steven Gerrard, Kevin Keegan, Gary Lineker, Glenn Hoddle e outros que não conseguiram levar a Inglaterra ao topo de qualquer campeonato.

Beckham atravessou duas eras distintas e desfrutou do estrelato que não fez questão de abdicar.

Beckham números

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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