França

Bandeira Blanc

Bastou Jean-Pierre Escalettes dizer que Raymond Domenech deixará o comando da seleção francesa após a Copa do Mundo para um mar de especulações tomar conta da imprensa local. Após os inúmeros fogos, rojões e o feriado nacional vindo com o anúncio da saída do treinador (aleluia!), logo se formou a rede de boatos em torno do sucessor. Algo natural, mas que vem desgastando um pouco a relação entre o presidente da FFF e Laurent Blanc, o mais forte candidato a assumir o cargo.

O jornal Le Parisien até divulgou a existência de um misterioso contrato entre o técnico do Bordeaux e Escalettes, que seria revelado mais tarde. Tanto o dirigente como o treinador se irritaram tanto que vieram a público para desmentir de forma categórica tudo o que foi falado, escrito, comentado e fofocado a respeito. Puro jogo de cena. Desde já Blanc surge como o nome mais indicado para substituir Domenech.

Para começar, Blanc tem algo que Domenech nunca conseguiu: agradar a todos. O atual treinador dos Bleus desperta a ira de torcida, imprensa e até mesmo alguns jogadores. Suas polêmicas desnecessárias, seu jeito xucro de lidar com a imprensa e suas teimosias (sem falar nas maluquices baseadas pelas sempre bem fundamentadas influências astrológicas) esgotaram a paciência.

Quando os resultados em campo apareciam, como no vice-campeonato mundial em 2006, aturava-se a personalidade extravagante dele. Agora, com o vexame na Euro-2008 e a classificação para a Copa-2010 conquistada a fórceps e de uma forma questionável, tornou-se insustentável sua manutenção. Mesmo Escalettes, único defensor de Domenech no alto escalão da FFF, achou que era hora de dar um basta.

Daí surge o nome de Blanc. O treinador do Bordeaux conta com a simpatia gratuita da nação. É só lembrar quem foi um dos personagens mais emblemáticos na conquista da Copa de 1998. Por falar no Mundial, os outros campeões também o apóiam de forma irrestrita – algo que conta demais quando se menciona o simples nome “Zidane”. Mesmo Didier Deschamps, outro concorrente ao posto, tem grande respeito pelo ex-companheiro de vestiário.

Dentro da FFF, Blanc surge como nome de consenso. Michel Platini, presidente da Uefa, deu seu sinal de positivo. Até a Nike, futura patrocinadora dos Bleus, aprova a possível indicação do treinador. Todo este apoio vem, além da personalidade de Blanc, graças ao excelente trabalho desenvolvido por ele no Bordeaux. De técnico iniciante, ele se transformou no principal artesão do melhor time da França no momento, sem grandes investimentos, com um padrão de jogo irrepreensível e maturidade suficiente para encarar outras potências sem temer. Exatamente o que falta na seleção.

Além de Blanc, outros candidatos correm por fora. Como já dissemos, Deschamps está entre eles e conta com o aval de Jean-Claude Dassier, presidente do Olympique de Marselha. O dirigente aceitaria liberar o treinador para os Bleus, mesmo que ele tenha um ano de contrato a cumprir com o clube. Se Deschamps surpreender e superar o favoritismo de Blanc, os franceses também estariam bem servidos. Domenech, para variar, aposta em outros candidatos: Alain Giresse (Gabão) e Paul Le Guen (Camarões). Há pelo menos um lado bom: ainda bem que Jean-Michel Aulas cuida apenas do Lyon, senão ele levaria Claude Puel para comandar os Bleus.

Agora, resta esperar as reuniões entre os membros da FFF e os pretendentes ao cargo para ver qual deles será o escolhido. O mais óbvio seria pensar em Blanc como o provável novo dono do cetro, mas a federação francesa adora uma surpresa. Por enquanto, é melhor comemorar a saída de Domenech, o treinador mais impopular de todos os tempos.

Mamão com açúcar

Após enfrentar tantas dificuldades nos últimos torneios dos quais participou, a França ao menos teve motivos para comemorar. No sorteio das eliminatórias da Eurocopa-2012, os Bleus caíram em um grupo bem menos chato do que os outros dos quais fez parte recentemente. E, como não terá Domenech para atrapalhar, a seleção tem chances de se classificar sem as mesmas dificuldades enfrentadas há pouco.

Luxemburgo, Albânia e Bielorrússia aparecem apenas como figurantes no grupo D, com poucas chances de tirar pontos das outras seleções da chave – os luxemburgueses, obviamente, serão o saco de pancadas do grupo. Albaneses e bielorrussos até podem aprontar alguma coisa, mas a princípio não devem fazer nada de especial.

As complicações aparecem quando se vê a Bósnia pela frente. A seleção surpreendeu nas eliminatórias da Copa-2010 ao terminar em segundo lugar na chave da Espanha, mas a equipe não resistiu a Portugal e viu o sonho de disputar o Mundial ir pelo ralo. Naquele momento, os principais jogadores da equipe viviam excelente fase e estavam no auge. Hoje, a história se mostra um pouco diferente.

Talvez a melhor ilustração para explicar o momento da seleção bósnia venha do Wolfsburg. Quando Misimovic e Dzeko esmerilhavam em campo, os Lobos deram a arrancada definitiva rumo ao inédito título alemão. Hoje, os companheiros de Grafite tiveram uma queda de rendimento, e os Lobos aparecem em posição bastante modesta na tabela. Claro, é uma visão simplista demais dizer que a má fase do Wolfsburg se deve apenas à fase ruim do meio-campista, um dos principais assistentes da Bundesliga, e do atacante, que foi cogitado para transferir para o Milan. Contudo, é inegável que este desempenho abaixo do esperado também se reflete na seleção, na qual os dois fazem parte da espinha dorsal.

Sendo assim, a Romênia aparece hoje como a principal adversária dos Bleus na disputa por uma vaga na competição continental. Franceses e romenos se especializaram em encontros recentes: eles estiveram lado a lado na Eurocopa-08 e nas eliminatórias da Copa-2010. Embora na briga pela classificação para o Mundial a Romênia tenha ficado para trás, não dá para simplesmente considerá-la uma segunda força.

O caminho dos Bleus rumo à Euro-2012 parece, à primeira vista, bem mais livre do que os já traçados pela equipe nos últimos tempos. Com um novo comando, é de se esperar que a seleção enfim se solte em campo e prove que o sofrimento das últimas campanhas nada mais era do que um reflexo de seu treinador: confuso, opaco e sem compromisso.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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