Balanço do primeiro turno – parte I

Chegada a pausa de inverno, as 20 equipes da Ligue 1 fazem seu planejamento para o segundo turno do campeonato. Enquanto algumas desejam manter o bom ritmo apresentado na primeira parte do torneio, outras se preocupam em como resolver seus problemas e sair de posições incômodas na tabela. Embora o Lyon mais uma vez apareça no topo, clubes modestos surpreendem e surgem com chances de brigar pela classificação para os torneios europeus.
O OL lidera a Ligue 1, apesar de não repetir o mesmo brilho de suas temporadas anteriores. A equipe de Alain Pérrin aparece apenas quatro pontos à frente do Nancy, principal ‘intruso’ nas primeiras colocações. O ASNL, promovido em 2005 à primeira divisão, tem a companhia de outros times que retornaram há pouco tempo a Ligue 1, ou foram mal em 2006/07: Caen (4º, recém-promovido), Le Mans (5º, subiu em 2005), Valenciennes (6º, subiu em 2006) e Nice (7º, 17º na temporada anterior) mostram a força dos pequenos.
Por outro lado, times mais tradicionais e acostumados nos últimos tempos a brigar por vagas na Liga dos Campeões e na Copa Uefa só decepcionam. Auxerre (15º), Paris Saint-Germain (16º), Lille (17º), Lens (18º) e Sochaux (19º) deixaram suas torcidas apreensivas quanto ao futuro. Ninguém quer se juntar ao Metz, lanterna e com uma das piores campanhas da história da Ligue 1, fortíssimo candidato ao rebaixamento.
Os lioneses caminham para o heptacampeonato, mas a conquista de um novo título deve vir sem grande brilho. Após um início bastante irregular na temporada, quando tropeçou em seus primeiros jogos na Liga dos Campeões, o Lyon aos poucos se ajeitou e atingiu um nível de equilíbrio, ainda inferior ao alcançado no mesmo período em 2006/07. Para se ter uma idéia, o OL tinha onze pontos a mais e ostentava uma diferença de 15 pontos para o Lens, então vice-líder, na última Ligue 1.
Apesar de seu ataque continuar poderoso (marcou 38 gols, a melhor marca do torneio), a defesa deixou a desejar. Mesmo sendo a terceira menos vazada (sofreu 16 gols), ela apresentou uma grande irregularidade, sobretudo com as ausências de Coupet e Cris. Vércoutre e Anderson oscilaram muito e passaram insegurança aos seus companheiros. Para piorar, Grosso tornou-se uma grande decepção, por não conseguir nem atacar nem defender com um mínimo de qualidade. O promissor Belhadj também mostrou precisar de um pouco mais de tempo para amadurecer completamente.
A Ligue 1 retomou sua tendência de poucos gols. Nesta primeira metade do campeonato, a média atingiu parcos 2,16 gols por partida. Nos grandes torneios nacionais da Europa, a marca só é melhor que a de Portugal (2,14). No entanto, perde de longe para Alemanha (2,82), Inglaterra (2,69), Itália (2,57) e Espanha (2,56). Melhor nem mencionar os números da Holanda (3,11). Em compensação, houve uma melhora nos índices da tabela de artilheiros.
Benzema, principal destaque da temporada, marcou 12 gols até agora. O atacante lionês precisou de apenas 1386 minutos jogados para quase atingir a marca de Pauleta, artilheiro da última Ligue 1 com somente 15 gols. Bellion, Túlio de Melo, Niang e Elmander vêm logo atrás, com dez. Saïfi e Koné fizeram oito – na temporada passada, após o final do primeiro turno, Bangoura, Dindane, Bodmer e Pagis também haviam marcado oito vezes e estavam empatados no topo da artilharia. Na época, a média de gols foi superior: 2,31.
Outro dado interessante fica por conta da artilharia por países. Os brasileiros aparecem no topo da lista, com 50 gols marcados até agora. Em segundo, bem longe, vem a Costa do Marfim (19), seguida por Senegal (16) e Suécia (15). Por continente, os africanos levam a melhor: 80, mas a participação dos jogadores do continente no total de gols diminuiu em relação à temporada passada (39,21% contra 55,05%). A América do Sul segue em segundo (62), mas a Europa diminuiu bem a diferença (60). Em 2006/07, a distância era de 20 (39 a 59).
Como curiosidade, o melhor cobrador de faltas do primeiro turno da Ligue 1 foi… Wendel. O jogador do Bordeaux fez três gols desta forma, contra dois de Romaric, Juninho e Savidan. Gervinho, Leroy e Mouloungui dividem o posto de melhores garçons, com cinco assistências cada um. Koller e Luyindula, por sua vez, mostraram-se especialistas em gols de cabeça. Os atacantes de Monaco e Paris Saint-Germain, respectivamente, balançaram as redes quatro e três vezes – todas em jogadas pelo alto.
A seguir, a primeira parte da análise mais detalhada do desempenho de cada equipe até agora na Ligue 1.
Valenciennes
Campanha: 6º
Destaque: Steve Savidan
Decepção: Jeovânio
Na temporada passada, o Valenciennes escapou por pouco da queda para a segunda divisão. Mesmo sem gastar muito com reforços, o time surpreendeu por sua constância no primeiro turno. Desde o começo, a equipe se mostrou sólida e bem equilibrada em seus setores. O VA nunca deixou a parte de cima da tabela e apresenta o terceiro melhor saldo de gols da Ligue 1: seis, atrás somente de Lyon (22) e Nancy (14). Ao contrário de 2006/07, o time comandado por Antoine Kombouaré fez valer sua força como mandante. No Nungesser, o clube venceu sete partidas e empatou duas.
Muito do bom desempenho do Valenciennes se deve ao seu setor ofensivo. Savidan mais uma vez provou sua importância ao time, mas ele encontrou em Audel um ótimo parceiro no ataque. Após uma temporada fraca no Lille, Audel teve a tranqüilidade necessária para voltar a balançar as redes. Logo na primeira rodada, ele marcou os três gols do triunfo por 3 a 1 sobre o Toulouse, badalado por sua classificação para a Liga dos Campeões. Para a segunda metade da Ligue 1, o VA não deve mudar muito seu elenco. Aguarda-se com certa ansiedade a volta de Jeovânio. O brasileiro nem teve muito tempo para defender a equipe, pois sofreu uma grave lesão. Se houver contratações, a chegada de um zagueiro seria bem-vinda.
Paris Saint-Germain
Campanha: 16º
Destaque: Jérôme Rothen
Decepção: atuações no Parc des Princes
A torcida do Paris Saint-Germain se vê de novo às voltas com o perigo de ver sua equipe cair para a segunda divisão. Os problemas vividos em 2006/07 permaneceram e o treinador Paul Le Guen está cada vez mais sem alternativas para mexer com os brios de seus jogadores. Ele deu um voto de confiança aos atletas mais experientes, mas eles novamente decepcionaram. O jeito foi apelar para outro tratamento de choque: assim como fez após chegar ao clube em janeiro, o técnico lançou diversos jovens na equipe, com os antigos titulares amargando o banco de reservas. A tática não mudou muito o panorama, pois a inexperiência de algumas dessas apostas prejudicou o time. Aos trancos e barrancos, o clube time manteve-se extremamente irregular. O nervosismo também atrapalhou, como ficou evidente depois da derrota por 1 a 0 para o Caen. Ceará, cuja falha resultou no gol do triunfo dos rivais em Paris, foi crucificado por Armand. O episódio não deixou dúvidas quanto ao péssimo ambiente nos vestiários.
A prova cabal desta inconstância está na comparação entre os desempenhos do PSG como mandante e visitante. No Parc des Princes, desastre total: a equipe ainda não venceu em casa e conquistou apenas quatro dos 30 pontos possíveis (é a segunda pior campanha como anfitrião). Longe de seus domínios e da pressão da torcida, quanta diferença… O clube da capital simplesmente fulminou seus adversários fora de casa e lidera a classificação nesse quesito. Embora Rôthen seja um dos poucos a exibir um bom futebol (ele é o dono do melhor aproveitamento de passes na Ligue 1), a situação vivida pelo meia traduz bem como anda o clima no time. Alguns torcedores invadiram a casa do meio e depredaram seu carro, após o meia bater boca com um fã em uma partida. Se este é o tratamento dispensado ao melhor atleta do elenco no momento, não se deve esperar muito apoio para o futuro. Embora Luyindula tenha voltado a marcar gols importantes, o PSG cogita a contratação de um atacante, mas sem gastar muito.
Nice
Campanha: 7º
Destaque: Hugo Lloris
Decepção: Habib Bamogo
Os rubro-negros parecem ter aprendido com o susto tomado na última Ligue 1, quando sentiram as chamas do rebaixamento quase lhes atingirem. A receita para esta melhora passou pelas mãos de Antoine Kombouaré. O treinador montou um elenco mais equilibrado para esta temporada e soube escolher os nomes certos com os quais trabalharia. Ele manteve uma base com os melhores jogadores da campanha anterior (Lloris, Echouafni, Balmont, Koné, Laslandes), livrou-se daqueles com quem mantinha um relacionamento difícil e um certo desinteresse (Vahirua e Bellion) e contratou atletas com os quais já havia trabalhado e nos quais depositava sua confiança (Hognon e Hellebuyck). Pronto; a ‘mágica’ estava feita, sem grandes sacrifícios.
Outro mérito de Kombouaré foi o de saber equilibrar juventude e experiência na equipe. Essa mistura resultou em um sistema de jogo maduro, no qual o Nice se preocupa em armar as jogadas com a boa qualidade de seu meio-campo criativo e de seu ataque eficiente. Além dessa ofensividade, a defesa mostrou-se aplicada, sobretudo com as atuações seguras de Lloris no gol. No começo do segundo turno, a grande dúvida fica por conta de como a equipe se comportará com a ausência de Bakary Koné, convocado para a disputa da Copa Africana de Nações. Apesar das diversas chances recebidas, Habib Bamogo ainda não convenceu. Em 17 partidas, o ex-atacante do Olympique de Marselha marcou apenas um gol. Por falar em CAN, o torneio continental deve provocar várias baixas no elenco – além de Koné, Job, Diakité, Apam e Kanté devem defender suas seleções na competição. A diretoria trabalha contra o tempo para cobrir essas baixas. Pelo menos há a certeza da chegada de Allaeddine Yahia, defensor do Sedan, para o lugar de Pancho Abardonado, negociado com o Nuremberg.
Lille
Campanha: 16º
Destaque: Stéphan Lichtsteiner
Decepção: Patrick Kluivert
Após sentir o doce gosto de disputar a Liga dos Campeões, o Lille agora sofre com uma temporada de transição. Não há mais Mathieu Bodmer, Kader Keita, Peter Odemwingie, Rafael Schmitz, Efstahios Tavlaridis ou Mathieu Chalmé para estabilizar a equipe. A ausência na disputa de competições européias tornaram mais difíceis tanto a permanência de jogadores importantes (atraídos por propostas mais vantajosas) como a contratação de reforços. Claude Puel se viu forçado a lidar com uma situação diferente nesta temporada. O treinador, acostumado a manter uma boa base, viu-se na obrigação de trabalhar com diversos atletas novos. Para piorar, os substitutos não engrenaram; daí o fato de o LOSC brigar para fugir das últimas colocações. O alto número de empates (nove) também ajuda a explicar porque o time está em posição tão incômoda.
Com tantas saídas e a chegada de atletas que não vingaram, Puel perdeu a capacidade de manter o ‘espírito de grupo’ com o qual havia se acostumado. Ele se notabilizou nas últimas temporadas por extrair o máximo de jogadores pouco renomados, mas perdeu a mão para os individualismos. A chegada de Kluivert para ser a estrela do time desmoronou o ideal do treinador. O holandês, ao contrário, tornou-se o símbolo do erro na visão de mercado do LOSC. Sem ritmo de jogo e desfalque em vários jogos devido a lesões, ele ajuda a explicar como a equipe se tornou inofensiva: o Lille fez apenas 18 gols em 19 partidas. Sem identidade, o clube traça como objetivo manter-se na Ligue 1. Para isso, tenta corrigir as falhas na hora de contratar e pretende reforçar seu elenco com um atacante e um meia defensivo.
Lorient
Campanha: 8º
Destaque: Rafik Saïfi
Decepção: Leonardo Moura
Ao final das quatro primeiras rodadas da Ligue 1, o Lorient ocupava a liderança da tabela. Os Merlus haviam superado Monaco (2 a1), Paris Saint-Germain (1 a 3) e até mesmo o Lyon (2 a1). Nada mal para um clube pequeno, cujo objetivo principal era ficar distante da zona do rebaixamento. O triunfo contra os hexacampeões, no entanto, trouxe uma espécie de ‘mau agouro’ à equipe de Christian Gourcuff. Nas nove rodadas seguintes, o time ficou sem vencer (cinco empates e quatro derrotas). Após esse ‘apagão’, o Lorient voltou a mostrar seu futebol sem grandes invenções, porém o suficiente para pleitear uma vaga em competições européias.
O início da temporada parecia reservar notícias ruins para o Lorient. A polêmica saída de André-Pierre Gignac, sua principal revelação em 2006/07, para o Toulouse significava uma baixa considerável para o setor ofensivo da equipe. Na busca pelo substituto, a diretoria cometeu um erro e um acerto. Rafael Moura, ex-Corinthians e Fluminense, pouco fez desde que chegou ao clube. Fora de forma, o ‘He-Man’ jogou apenas 13 minutos na Ligue 1 e outros 64 na Copa da Liga; logo depois, machucou-se e ´não mais viu a cor da bola. Há até mesmo a chance de ele voltar ao Brasil. Por outro lado, Marama Vahirua foi um achado para os Merlus. Contratado do Nice, o taitiano formou uma bela dupla de veteranos com Rafik Saïfi, que deixou os tempos de altos e baixos para encontrar uma regularidade impressionante. Com oito gols, Saïfi, até então considerado como um atleta talentoso mas um pouco ‘desligado’, deu a volta por cima nesta temporada.
Lens
Campanha: 18º
Destaque: Aruna Dindane
Decepção: Guy Roux
Os Sang et Or despontavam como uma das forças desta Ligue 1. Após uma longa briga, o clube conseguiu convencer Guy Roux a deixar a aposentadoria e voltar à ativa. Novos esforços foram gastos pelo clube para fazer a Liga de Futebol Profissional (LFP) rever seus conceitos e permitir ao treinador, acima da idade-limite estabelecida pela entidade, trabalhar em paz. O ex-técnico até começou a fazer um planejamento, com a contratação de Kanga Akalé e Bonaventure Kalou, seus comandados nos tempos de Auxerre, mas logo abandonou o barco. Com apenas cinco rodadas, Roux alegou não saber mais os métodos necessários para motivar um elenco. Ou seja: todos os esforços movidos pelo Lens para fazer uma temporada decente foram jogados fora e o clube deveria começar um novo projeto com o torneio em andamento. Não se deve esquecer como o lado psicológico dos jogadores ficou abalado com a incrível perda da vaga para a disputa da Liga dos Campeões na Ligue 1 passada.
Jean-Pierre Papin assumiu o comando do Lens e teve que se virar com um elenco moldado para Roux. As saídas de Jussiê, Cousin, Jemaa e Keita enfraqueceram muito o poder ofensivo dos Sang et Or, sem haver uma reposição do mesmo nível. A fragilidade do ataque da equipe está nas estatísticas: o time marcou apenas 16 gols, uma média inferior a um por partida. Aruna Dindane, principal artilheiro do clube, foi às redes cinco vezes. A situação da equipe promete piorar ainda mais, pois o marfinense defenderá sua seleção na disputa da Copa Africana de Nações. Com pouco dinheiro em caixa, deve-se recorrer a um substituto barato, o que aumenta os riscos de mais uma transação furada. Escapar da queda para a Ligue 2 tornou-se questão de honra para Papin.
Monaco
Campanha: 9º
Destaque: Vincent Muratori
Decepção: Jérémy Berthod
No Principado, havia a esperança de novos dias com a chegada de Ricardo Gomes para comandar o Monaco. Na temporada passada, o time flertou com a zona de rebaixamento, mas superou seus problemas e se salvou. No entanto, nem mesmo o treinador livrou o time de seu principal defeito: a irregularidade. Embora desta vez o medo da queda esteja distante, o ASM ainda não encontrou seu melhor padrão de jogo. O brasileiro fez sua parte; testou diversas opções táticas, deu oportunidades a vários jogadores e lançou alguns jovens, sem encontrar a fórmula ideal. O descontentamento de alguns atletas (Bolívar, Nenê) e a provável saída de outros (Koller, Veigneau, Berthod) deixam um ponto de interrogação quanto ao futuro.
Famoso por dirigir equipes com um sistema defensivo eficiente, Ricardo Gomes não teve a mesma sorte no Monaco. O clube tomou 19 gols em 19 partidas, uma média que não causa grandes preocupações mas chama a atenção. A contusão de Perez dificultou a tarefa de encontrar um equilíbrio entre o meio-campo e a defesa, por isso o ASM viu os atacantes rivais darem bastante trabalho. Berthod chegou ao time do principado com status de titular, mas o lateral-esquerdo logo perdeu a posição para o jovem Vincent Muratori. Revelado nas categorias de base do próprio Monaco, ele tomou conta de seu lado do campo, com poucos erros cometidos e uma constância que faltou ao restante da equipe. Piquionne e Koller também merecem destaque, embora vivam de muitos altos e baixos. A contratação de um meia poderia dar esse equilíbrio final ao elenco.


