França

Balanço da temporada – I

Na primeira parte do resumo, a análise das campanhas de Arles-Avignon, Auxerre, Bordeaux, Brest Caen, Lens e Lorient. Rebaixados e decepções. Confira:

 

Arles-Avignon

Colocação final: 20º (20PG, 3V, 11E, 24D, 21GP, 70GC)
Técnicos: Michel Estevan, Faruk Hadzibegic
Maior vitória: 3×2 Caen
Maior derrota: 0x5 Lille, 0x5 Lyon
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Rémy Cabella
Decepção: Angelos Charisteas
Artilheiro: Dja Djedje (4 gols)
Líder em assistências: Meriem (5 gols)

A torcida do Arles-Avignon mal conseguia se segurar com o acesso inédito à primeira divisão. No entanto, a temporada a seguir se mostrou vergonhosa para o ACA. Seria triste, mas absolutamente compreensível, o retorno do clube para a Ligue 2. Só que a queda do time teve requintes de humilhação. Desde o início, a equipe mostrou sua vocação para ser um saco de pancadas. Logo assumiu a lanterna e dela não mais saiu. Estava matematicamente rebaixado na 31ª rodada e terminou o campeonato nada menos do que 26 pontos atrás do Nice, último time a escapar da degola. O Arles-Avignon estava fadado à queda desde a primeira rodada, como seu desempenho horroroso provou.

Foram apenas três míseras vitórias e ridículos 20 pontos conquistados, a pior marca da Ligue 1 desde 1989. O sinal do fracasso do Arles-Avignon já estava dado desde a montagem do elenco para a temporada. O clube pensou que fez um negócio da China ao se reforçar com o grego Angelos Charisteas, que pulou do barco assim que percebeu a bobagem que havia feito. Se o time disputasse a Ligue 2 com o mesmo elenco, teria ficado longe das primeiras colocações, dada a evidente falta de qualidade do grupo. Tal fragilidade pode se verificar com o número de gols sofridos pela equipe: 70, a pior marca do campeonato desde a temporada 2003/04 com o Montpellier. O único motivo de comemoração foi Rémy Cabella. Embora tenha sido escalado apenas cinco vezes como titular pelo treinador Faruk Hadzibegic, o meia de 21 anos fez três gols e ganhou uma chance na seleção francesa de sua categoria.

 

Auxerre

Colocação final: 9º (49PG, 10V, 19E, 9D, 45GP, 41GC)
Técnico: Jean Fernandez
Maior vitória: 4×0 Lyon, 4×0 Arles-Avignon
Maior derrota: 0x3 Bordeaux
Competição continental: eliminado na fase de grupos da Liga dos Campeões
Principal jogador: Cédric Hengbart
Decepção: Anthony Le Tallec
Artilheiros: Birsa, Jelen, Pedretti, Traoré (5 gols)
Líder em assistências: Contout (5 assistências)

A temporada se mostrava promissora para o Auxerre. Afinal, o clube havia se classificado para a fase de grupos da Liga dos Campeões e, mesmo em uma chave difícil, teria uma experiência única. No entanto, a participação na LC foi um choque de realidade para o AJA, que foi colocado em seu devido lugar de forma até dura. A nona posição na Ligue 1 esconde os problemas vividos pela equipe ao longo do torneio, já que o time flertou com a zona de rebaixamento durante um longo período. A enxurrada de lesões e o elenco curto apenas evidenciaram que o clube não se preparou de forma adequada para os desafios que o aguardavam.

Para começar, o Auxerre se mostrou tímido demais na hora de reforçar seu elenco. As chegadas de Langil, Le Tallec e Sammaritano foram insuficientes para dar a profundidade necessária a um grupo que teria de se dividir entre LC e Ligue 1. Deu no que deu. Quando precisou de substitutos para os jogadores que se lesionaram (casos de Jelen, Le Tallec e Birsa), o AJA não tinha peças à altura. Com uma equipe pouco preparada, o Auxerre esteve à beira do inferno. Na Ligue 1, o time ficou sete rodadas sem vencer, marca superada apenas pelo Arles-Avignon. E foi exatamente um triunfo sobre o ACA a faísca para o AJA engrenar. Em seus últimos oito jogos, o time venceu quatro deles – um desempenho essencial quando se analisa a tabela, já que a disputa no pelotão intermediário se mostrou muito acirrada. Semifinalista da Copa da Liga Francesa, o Auxerre precisa ousar um pouco mais se quiser dias melhores. Do contrário, a experiência adquirida ao enfrentar Real Madrid, Milan e Ajax na LC de nada terá valido.

 

Bordeaux

Colocação final: 7º (51PG, 12V, 15E, 11D, 43GP, 42GC)
Técnico: Jean Tigana, Eric Bédouet
Maior vitória: 3×0 Auxerre
Maior derrota: 1×5 Lorient, 0x4 Sochaux
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Cédric Carrasso
Decepção: André
Artilheiro: Modeste (10 gols)
Líder em assistências: Plasil (10 assistências)

O Bordeaux se preparava para viver uma temporada sob os holofotes, mas a terminou no anonimato. A direção do clube acreditava que teria condições de brilhar mesmo perdendo dois de seus principais jogadores (Marouane Chamakh e Yoann Gourcuff). Muito embora o atacante e o meia não tenham sido lá essas coisas em seus novos clubes (Arsenal e Lyon), os girondinos pagaram caro por essa dose de soberba pouco característica do clube. Os Marine et Blanc cometeram seguidos erros, o que explica a fraca campanha na Ligue 1. Um dos maiores fracassos foi a contratação de Jean Tigana para comandar um elenco que não se preparou de forma suficiente para suprir ausências de elementos tão importantes.

A aposta em Tigana se revelou um grande equívoco. O técnico jamais encontrou o equilíbrio necessário no trato com os jogadores. Embora a relação entre os dois lados tenha sido de respeito, as partes pareciam falar idiomas completamente diferentes. Esta falta de sintonia se refletiu em campo, com um time burocrático, sem alma. As dificuldades do Bordeaux em exibir alguma empolgação ficavam mais latentes em casa. A campanha dos girondinos no Chaban-Delmas foi desastrosa: foram 27 pontos perdidos diante de sua torcida, alguns deles de forma vexatória – a goleada por 4 a 0 para o Sochaux e o empate sem gols diante do Arles-Avignon traduzem muito bem como o time ficou órfão na criação e perdeu peso no ataque. A diretoria acreditou que resolveria seus problemas ofensivos com a chegada de André. O ex-santista, porém, foi uma decepção completa. Foram apenas 179 minutos em campo e uma mísera (isso mesmo, apenas uma) finalização correta. Pela terceira temporada seguida, o clube termina com suas finanças no vermelho. Sem participar de competições continentais, o clube está obrigado a diminuir custos – leia-se enxugar a folha salarial. Tempos de vacas magras vêm por aí.

 

Brest

Colocação final: 16º (46PG, 11V, 13E, 14D, 36GP, 43GC)
Técnico: Alex Dupont
Maior vitória: 4×1 Lens
Maior derrota: 0x3 Olympique de Marselha
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Bruno Grougi
Decepção: Mario Licka
Artilheiro: Bruno Grougi (9 gols)
Líder em assistências: Bruno Grougi (9 assistências)

Ao término da 13ª rodada da Ligue 1, quem olhava a tabela do campeonato precisava se beliscar. Afinal, o Brest, um dos caçulas da elite, estava na ponta da tabela. O time, porém, fez jus à expressão “cavalo paraguaio” e aos poucos voltou à realidade. Quem sonhou com as primeiras posições precisou torcer muito para não ser rebaixado, e mesmo com a derrota para o Toulouse na última rodada a permanência na elite se concretizou. Foi um prêmio para quem mostrou, na primeira metade da temporada, qualidades após 19 anos afastado da primeira divisão. Foram duas rodadas na primeira colocação, graças principalmente a um sistema defensivo que se mostrava bastante eficiente.

Se por um lado a defesa segurava as pontas, o ataque do Brest se mostrava pouco eficiente. Foram apenas 36 gols marcados (apenas o 15º da Ligue 1), mesma marca ostentada pelo rebaixado Monaco. Isto ajuda um pouco a explicar o elevado número de empates da equipe: 13 no total, e alguns deles ocorridos em uma fase perigosa do torneio. As constantes igualdades nas últimas rodadas fizeram a equipe se tornar uma das candidatas ao rebaixamento, mas a tal gordura adquirida na primeira parte foi suficiente para assegurar mais um ano na elite. O Brest precisa aprimorar sua política de contratações. A aposta nos tchecos Mario Licka e Tomas Micola se mostrou um tiro n’água. Embora tenha sido o destaque do time, Nolan Roux sentiu falta de um parceiro de melhor qualidade no ataque. Com vários jogadores com contratos no fim, o clube já planeja uma intertemporada agitada no mercado. Além disso, a direção concentra forças na construção de um estádio, o que deve se refletir nos gastos mais contidos para a contratação de reforços. Um risco elevado, ainda mais para a segunda temporada na elite – a da confirmação.

 

Caen

Colocação final: 15º (46PG, 11V, 13E, 14D, 46GP, 51GC)
Técnico: Franck Dumas
Maior vitória: 4×0 Nice
Maior derrota: 2×5 Lille
Competição continental: não disputou
Principais jogadores: Youssef El Arabi, Alexis Thébaux e Romain Hamouma
Decepção: Damien Marcq
Artilheiro: El Arabi (17 gols)
Líder em assistências: Hamouma (6 assistências)

Desde o começo da temporada, o objetivo do Caen estava bem definido: manter-se na primeira divisão. A meta foi alcançada graças ao desempenho da equipe no segundo turno, com uma boa arrancada. Para quem não tem grandes aspirações na Ligue 1, permanecer na elite já é como se fosse um título. A campanha inicial até empolgou. Foram 16 pontos conquistados nas dez primeiras rodadas. A empolgação, porém, transformou-se em tragédia na sequência. Entre a 11ª e a 18ª rodada, o SMC somou apenas um ponto. Depois, nova recuperação, com 21 pontos entre a 19ª e a 28ª rodada. A salvação parecia garantida, mas nem tudo estava tão sossegado assim.

Três derrotas consecutivas (Lille, Paris Saint-Germain e Sochaux) quase fizeram o Caen naufragar. O poder de recuperação da equipe foi decisivo para evitar a degola. O time encaixou uma série de sete partidas sem perder (seu recorde na temporada), o que foi determinante para confirmar a permanência na Ligue 1. Youssef El Arabi carregou a equipe nas costas e brilhou ao marcar 17 gols. Ele terminou no pódio da tabela de artilheiros, algo que o Caen não conhecia desde 1992. Resta saber como o SMC se virará sem ele. O clube aposta na mescla entre jogadores experientes e a molecada que apareceu muito bem para tentar ultrapassar a barreira de três temporadas consecutivas na primeira divisão, algo que aconteceu pela última vez na década de 90.

 

Lens

Colocação final: 19º (35PG, 7V, 14E, 17D, 35GP, 58GC)
Técnicos: Jean-Guy Wallemme, Laszlo Bölöni
Maior vitória: 4×1 Montpellier
Maior derrota: 0x4 Nancy
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Adil Hermach
Decepção: Yohan Démont
Artilheiro: Jemaa (5 gols)
Líderes em assistências: Bedimo, Hermach (4 assistências)

O que era para ser uma temporada festiva se tornou um dos períodos mais vergonhosos da história do clube. Após conseguir permanecer na elite, esperava-se que o Lens prosseguisse com sua evolução e apresentasse algo capaz de fazer acreditar em sua recuperação. Estava tudo errado. O clube deu um péssimo exemplo de como não se comportar, tanto dentro como fora de campo, e estragou todo e qualquer plano de reação. Agora, apagar a péssima imagem deixada se tornou uma missão das mais árduas. O que ficou foi o pesadelo de ver um elenco sem um pingo de união, um time que não se entendia em campo, uma cisão completa entre a equipe e a torcida e uma diretoria que insistia em bater cabeça sem resolver problema algum. O rebaixamento era o mínimo que se esperava diante de um cenário tão caótico e desolador.

Yohan Démont simbolizou a perda de valores que o Lens viveu nesta temporada. O jogador perdeu a braçadeira de capitão, brigou com Nenad Kovacevic dentro de campo e se esqueceu completamente de jogar bola. Para completar, quebrou alguns ossos da mão ao perder a paciência dentro do vestiário ao dar um soco. A chegada do treinador Laszlo Bölöni, que substituiu Jean-Guy Wallemme, em nada mudou o panorama. Aliás, qualquer um que aceitasse o cargo não conseguiria se impor diante de um elenco tão fragilizado, seja em qualidade como em espírito. Os Sang et Or tiveram um desempenho patético em casa, com apenas cinco vitórias conquistadas. A defesa sofreu 58 gols e só não foi pior do que a do saco de pancadas Arles-Avignon – por aí dá para sentir o drama. E não dá para alguém se orgulhar de ser o artilheiro do time na temporada com o parco número de cinco gols marcados. Para apagar tamanha catástrofe, o Lens precisa de uma faxina completa. Internamente, as mudanças já começaram. O Crédit Agricole se tornou acionista majoritário, o que deve podar o poder de Gervais Martel. Ainda há que se controlar a influência negativa do diretor esportivo Daniel Leclercq.

 

Lorient

Colocação final: 11º (49PG, 12V, 13E, 13D, 46GP, 48GC)
Técnico: Christian Gourcuff
Maior vitória: 5×1 Bordeaux
Maior derrota: 3×6 Lille
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Kévin Gameiro
Decepção: Sebastian Dubarbier
Artilheiro: Kévin Gameiro (22 gols)
Líder em assistências: Morgan Amalfitano (13 assistências)

Por um instante, o Lorient sonhou alto. O clube estava na briga por uma vaga na Liga Europa, o que seria o êxtase para quem havia pensado apenas em se manter como um simples coadjuvante. A queda de desempenho no fim da temporada comprometeu a realização de uma utopia e os Merlus acabaram como os figurantes de sempre. As três derrotas sofridas nas quatro últimas rodadas do campeonato acabaram com a esperança do clube de roubar a cena e, pela primeira vez, tornar-se protagonista. O revés em casa para o Auxerre (2 a 1) doeu muito e custou quatro posições à equipe. A diretoria, porém, nem reclama deste papel secundário na Ligue 1, ainda mais com um balanço tão positivo. Ou alguém acha que ter seu principal atacante convocado para a seleção francesa é algo de pequeno valor?

O Lorient deixa a temporada com a certeza de ter exibido um dos estilos de jogo mais agradáveis da Ligue 1. Muito desse sucesso se deve ao entrosamento da dupla formada por Morgan Amalfitano e Kévin Gameiro. As 13 assistências de Amalfitano e os 22 gols de Gameiro (vice-artilheiro da Ligue 1) fizeram da parceria deles a mais eficiente do campeonato. O goleador ganhou chances com Laurent Blanc e sua carreira deu um salto. Com sua transferência para o Paris Saint-Germain, o Lorient perde grande parte de seu poder de fogo. Os Merlus se notabilizaram pelo bom desempenho em casa e pela rápida adaptação ao gramado sintético. No entanto, o clube foi inofensivo como visitante, com apenas 17 pontos conquistados longe de seus domínios. O Lorient continua com seu eterno pensamento: ficar no miolo da tabela, sem grandes pretensões.

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Equipe Trivela

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