França

Aznavour FC, o time da elite armênia que homenageava Charles Aznavour, lenda da música francesa

A vida foi generosa com Charles Aznavour. Ao longo de 82 anos, o músico pôde encantar multidões com sua voz potente e com a beleza de suas canções. A carreira do cantor começou quando ele tinha apenas 12 anos de idade e desdobrou-se por oito décadas, rendendo mais de 180 milhões de discos vendidos e mais de mil composições. Sua popularidade era tão grande que, não à toa, costumava ser comparado como Frank Sinatra. Nesta segunda-feira, o velho ídolo descansou. Faleceu em decorrência a complicações de um enfisema pulmonar, aos 94 anos, apenas 13 dias depois de seu último show. Deixou uma legião de fãs espalhados pelo mundo, que curiosamente também se notam através do futebol.

Historicamente, a França possui uma grande propensão a receber refugiados e imigrantes. O país foi um dos principais destinos de armênios, diante do genocídio promovido pelos turcos durante a década de 1910. E a família de Aznavour é justamente uma dessas gratas pela acolhida oferecida em Paris. O cantor nascido em 1924 foi batizado como Shahnour Vaghinag Aznavourian, antes de adotar o nome artístico, acompanhando seu pai (também cantor) em restaurantes da capital francesa. Diante deste cenário, o senso político sempre esteve bastante presente na vida de Aznavour. Sua família chegou a abrigar e esconder judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Além disso, Aznavour aproveitou sua imagem para abraçar causas armênias. Compôs uma música sobre o genocídio armênio e, em 1988, ajudou o país depois de um trágico terremoto que deixou cerca de 50 mil mortos. Nos anos 1990, também passou a atuar como representante do país na Unesco e foi nomeado como embaixador armênio na Suíça. Envolvido em causas humanitárias, era reconhecido como um defensor da democracia. E sua adoração na Armênia é tão grande que é possível encontrar ruas com seu nome, estátuas em bronze e até mesmo um museu dedicado à sua vida na capital Yerevan. Assim como um time de futebol, que disputou a primeira divisão do Campeonato Armênio sob o nome de “Aznavour Football Club”.

A equipe surgiu inicialmente em 1981, batizada como Pahatsoyagorts, na cidadezinha de Noyemberyan, no extremo norte do país. Naquela época, a Armênia ainda fazia parte da União Soviética e o clube participava da liga local dentro da estrutura do Campeonato Soviético. A mudança de nome em homenagem a Aznavour aconteceu em 1992, já depois da independência e da criação do Campeonato Armênio. A equipe disputou a edição inaugural da primeira divisão, inchada por 24 clubes, mas foi uma das nove rebaixadas ao final da temporada. Em compensação, faria uma grande temporada na segundona em 1993 e conquistou o acesso.

O período mais estável do Aznavour FC na elite armênia aconteceu a partir de então, com três temporadas consecutivas na primeira divisão. Chegou a terminar em terceiro na temporada transicional de 1995, quando não houve campeão por conta da mudança de calendário no futebol local. Todavia, seria rebaixado em 1995/96 com uma campanha tenebrosa, sem uma vitória sequer em 22 rodadas, com direito a 82 gols sofridos e apenas dois pontos somados. Naquele momento, a agremiação já sofria com sérios problemas financeiros, em uma região seriamente afetada pelos conflitos com o Azerbaijão. Disputaria apenas mais uma temporada na segundona, em que terminou em terceiro, antes de fechar as portas por problemas financeiros em 1997. De qualquer maneira, ficaria a memória pela marca que deixou. Diante da notícia sobre a morte de Charles Aznavour, um minuto de silêncio será respeitado nos jogos do Campeonato Armênio. Além disso, Henrikh Mkhitaryan publicou uma mensagem de condolências em suas redes sociais.

Vale lembrar que a diáspora armênia também espalhou vários clubes pelo mundo. O principal deles é o Deportivo Armênio, fundado em 1962 na província de Buenos Aires e que chegou a disputar a primeira divisão do Campeonato Argentino. O Ararat Tehran foi um dos principais clubes da capital iraniana na década de 1950. Já no Brasil, a presença é marcada pelo Juventude Armênia Fedainer, que disputa campeonatos de futebol de salão em São Paulo. Líbano, Estônia, Rússia, Estados Unidos, Áustria, Bélgica e Chipre também possuem equipes amadoras de descendentes. Inclusive, a Turquia teve um exemplo de resistência com o Taksim SK, fundado na região de mesmo nome de Istambul, em 1940. Símbolo dos armênios que permaneceram e voltaram à Turquia após o genocídio, o clube disputou a segunda divisão do Campeonato Turco na década de 1960 e permaneceu na terceirona até 1974.

Na França, o principal clube da comunidade armênia é o Ararat Issy, fundado em 1974 por um grupo de imigrantes residentes na região de Paris e que disputa as divisões inferiores do Campeonato Francês. Entretanto, se Charles Aznavour é o principal expoente na música de uma comunidade estimada em até 750 mil imigrantes e descendentes, há aqueles que também se destacaram no esporte. O piloto Alain Prost, tetracampeão na Fórmula 1, é filho de uma armênia. Já no futebol, os exemplos mais notáveis são de Alain Boghossian e Youri Djorkaeff, presentes na conquista da Copa do Mundo em 1998.

Ídolo sobretudo no Parma, Boghossian é filho de pai armênio. Já Djorkaeff, de carreira condecorada especialmente por suas passagens defendendo Monaco e Internazionale, é filho de mãe armênia. Em 2001, ambos manifestaram publicamente sua satisfação pelo reconhecimento do genocídio armênio feito pelo governo francês. Há também jogadores que fizeram o caminho contrário e, apesar de nascerem na França, decidiram defender a seleção armênia. É o caso de Éric Assadourian, atacante com passagem expressiva pelo Lille, que defendeu a seleção de seus ascendentes entre 1996 e 1998. Também de Gaël Andonian, zagueiro formado na base do Olympique de Marseille, que é chamado pela Armênia desde 2015. Entre os mais antigos, a principal referência é Babkin Hairabedian, goleiro nos anos áureos do Nice na década de 1950. Foi campeão nacional em 1956 e, na ocasião do ano da Armênia na França, teve um pequeno estádio na Côte d’Azur batizado em sua homenagem.

O grande representante do futebol armênio além das fronteiras, de qualquer forma, era mesmo o Ararat Yerevan. O clube servia como uma espécie de seleção armênia nos tempos de União Soviética e reunia os melhores jogadores da república. Conquistou a dobradinha nacional em 1973 e chegou a ameaçar o Bayern de Munique na Copa dos Campeões. Um orgulho local que sempre é exaltado. Assim como Charles Aznavour será lembrado: além de uma grande voz, o fiel representante de um povo.

Abaixo, um vídeo de “She”, a canção mais célebre na voz de Aznavour:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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