As escolhas de Domenech

Ao divulgar a lista final dos 23 convocados da seleção francesa para a disputa da Eurocopa, Raymond Domenech voltou a provocar surpresa e indignação. O treinador resolveu apostar em Bafétimbi Gomis, herói do amistoso contra o Equador no dia anterior ao anúncio oficial, e deixou de fora os figurões Mickaël Landreau e Djibril Cissé. Algumas de suas decisões também causaram polêmica, como as ausências de Philippe Méxès e Mathieu Flamini, com um bom desempenho durante a temporada. Para variar um pouco, o técnico adorou ver a polêmica criada e agora tirará proveito dela, exatamente como fez na Copa do Mundo.
Quanto às ausências de Landreau e Cissé, realmente há justificativas convincentes para explicar as opções de Domenech. O goleiro do Paris Saint-Germain viveu uma temporada bastante complicada. Apenas o fato de o clube da capital lutar contra o rebaixamento na maior parte da Ligue 1 seria suficiente para causar um grande desgaste físico e emocional. No entanto, Landreau passou longe de transmitir segurança aos seus companheiros. Suas freqüentes oscilações prejudicaram a equipe em diversos momentos, com seguidas falhas em gols evitáveis. Como mais teve baixos do que altos, embora tenha fechado o gol em algumas partidas, ele pagou o preço por sua irregularidade.
Enquanto isso, Cissé não teve um ano dos mais memoráveis no Olympique de Marselha. Embora tenha lá sua importância na campanha da equipe, terceira colocada na Ligue 1 e classificada para a disputa da Liga dos Campeões, o atacante foi ofuscado por Niang, Nasri e por vezes até Akalé. Quando esteve na seleção, Cissé teve apresentações comparáveis a de seus cabelos: raros, com um visual estranho e sem qualquer efeito. Não dá para colocar suas fichas em um goleador que não marca e encontra dificuldades para finalizar com um mínimo de pontaria. Nos Bleus, ele perdeu espaço na mesma medida na qual desperdiça oportunidades para balançar as redes.
Como a condição de titular de Coupet permanece firme, a presença de Steve Mandanda no grupo faz parte da característica de Domenech de trabalhar a inclusão de jovens promessas no ambiente da seleção. O goleiro do Olympique de Marselha terá a chance de conviver com atletas experientes, concentrar-se na disputa de uma competição importante e, mais importante, sentir o clima de fazer parte dos Bleus. Neste tipo de aprendizado, o treinador mostra-se um excelente orientador. Mandanda foi jogado aos leões no início da temporada ao substituir o machucado Cédric Carrasso no OM. Apesar da tarefa difícil, ele mostrou sua personalidade com atuações seguras na LC e na Ligue 1.
O mesmo se aplica a Gomis. O atacante do Saint-Etienne, de 22 anos, já vinha em evolução desde a temporada passada e soube aproveitar muito bem a chance oferecida. Em seu primeiro jogo com a camisa dos Bleus, ele entrou em campo no segundo tempo do amistoso contra o Equador, quando a partida estava empatada sem gols. Logo ele balançou as redes e coroou sua atuação ao fazer seu segundo gol em um lindo voleio. Foi o suficiente para encantar Domenech, cujo santo (ou signo?) não bate com o de David Trezeguet. Não dá para se desprezar um jogador com o talento de Trezegol, ainda mais quando se olha para seus números nesta temporada pela Juventus em um duríssimo Campeonato Italiano. Como toda aposta tem seu risco, o treinador prefere pagar para ver. Em 2006, um tal Franck Ribéry apareceu como ‘elemento-surpresa’ no elenco para o Mundial, e logo se tornou um dos principais nomes da França.
Agora, explicar a inclusão de Jean-Alain Boumsong, fora de sua melhor forma física e técnica, e deixar de fora Philippe Méxès, pilar do sistema defensivo da Roma vice-campeã da Série A, exigiria um esforço quase hercúleo. Mathieu Flamini também fez uma Premier League de alto nível pelo Arsenal, mas foi deixado de lado quando poderia ser lembrado para, ao menos, ganhar maior experiência na seleção. Como se vê, Domenech não seria o mesmo se elaborasse uma relação guiada pela lógica. Se o resultado for tão inesperado como o vice-campeonato mundial, seus oráculos logo serão cobiçados por algumas das principais equipes do continente para algumas consultas sem compromisso.
Balanço da temporada – parte I
Nesta semana, inicio a análise do desempenho de cada uma das 20 equipes na última edição da Ligue 1. No primeiro bloco, destaque para a salvação do Paris Saint-Germain de cair no abismo do rebaixamento. O Toulouse, de participante da Liga dos Campeões, passou a temer um possível futuro na Ligue 2, mas também se livrou da queda. Mesma sorte não tiveram Strasbourg e Lens; o Racing obteve um recorde negativo de onze derrotas consecutivas, enquanto os Sang et Or pagaram pelo planejamento confuso. Nice, Lille e Rennes, por sua vez, realizaram campanhas razoáveis e por pouco não se garantiram na Copa Uefa.
Nice
Campanha: 8º (55PG, 13V, 16E, 9D, 35GP, 30GC)
Artilheiro: Bakary Koné (14 gols)
Melhor garçom: Hellebuyck (6 assistências)
Cartões amarelos: 72
Cartões vermelhos: 2
Destaque: Hugo Lloris
Decepção: Joseph-Désiré Job
O OGC freqüentou a zona de rebaixamento na temporada passada e aprendeu com os erros. Com um elenco equilibrado, o clube viveu dias mais calmos e até mesmo sonhou em se classificar para a Copa Uefa. A esperança de disputar o torneio continental foi para o espaço com uma seqüência negativa no estádio du Ray. O time ficou sem vencer sete jogos seguidos diante de sua torcida, e alguns pontos extras nesta fase seriam de vital importância. Mesmo assim, os rubro-negros terminaram 2007/08 com a consciência tranqüila, com um trabalho bem feito.
O setor defensivo foi motivo de orgulho. Ao lado do Nancy, o Nice teve a melhor defesa de todo o campeonato, com apenas 30 gols sofridos. Muito dessa marca se deve às excelentes atuações do goleiro Hugo Lloris, que lhe renderam até convocação para os Bleus e uma transferência para o Lyon. Koné também viveu uma temporada positiva, sendo a referência do time no ataque – tanto por seus gols como por sua capacidade de driblar os marcadores e abrir espaços para seus companheiros. Resta saber como a equipe se virará a partir de agora sem Éderson, seu principal articulador, negociado com o Lyon.
Strasbourg
Campanha: 19º (35PG, 9V, 8E, 21D, 34GP, 55GC)
Artilheiro: Rentería (9 gols)
Melhor garçom: Mouloungui (7 assistências)
Cartões amarelos: 64
Cartões vermelhos: 5
Destaque: Renaud Cohade
Decepção: Yacine Abdessadki
Como o Strasbourg desejou que a temporada terminasse na metade… Após atingir o ápice na 12ª rodada, quando subiu para o sexto lugar com uma vitória por 3 a 0 sobre o Lille fora de casa, o Racing acabou o turno em 14º. Para quem desejava se manter na elite, estava de bom tamanho. Contudo, ainda havia 19 partidas pela frente, e o time da Alsácia conseguiu bater um recorde do qual ninguém gostaria de ter o orgulho. A equipe sofreu uma pane gigantesca e acumulou uma série de 11 derrotas consecutivas. O clube, que havia sido promovido, voltou para a Ligue 2 no ano seguinte. Foi o terceiro rebaixamento do RCS em sete anos.
O excesso de contusões ajuda a explicar um pouco tamanho fracasso, embora os ânimos do elenco tenham se dizimado a cada nova derrota nas costas. A situação de Renaud Cohade se encaixa neste caso. O meia até conseguiu brilhar no setor de criação da equipe, mas uma pubalgia o tirou do time em um momento crucial. Ele não esteve em campo na série de onze derrotas. Quando os problemas físicos o deixaram, Rentería também conseguiu um bom aproveitamento. Com a confirmação do treinador Jean-Marc Furlan no cargo apesar da queda, o Strasbourg se prepara para um faxina geral e apostará em suas categorias de base para se reerguer e esquecer logo este vexame.
Lens
Campanha: 18º (40PG, 9V, 13E, 16D, 43GP, 52GC)
Artilheiro: Monterrubio (9 gols)
Melhor garçom: Monterrubio (8 assistências)
Cartões amarelos: 60
Cartões vermelhos: 3
Destaque: Monterrubio
Decepção: Guy Roux
Em 2006/07, os Sang et Or deixaram escapar a classificação para a Liga dos Campeões nas rodadas finais. Era a prova de que o elenco precisaria de um pouco mais de tranqüilidade para trabalhar, sem uma grande pressão em seus ombros. Para liderar esse processo de recuperação da auto-estima de seus atletas, o Lens convidou Guy Roux. O treinador, então aposentado, aceitou a proposta do clube, que brigou para permiti-lo exercer sua profissão (por uma lei da LFP, Roux estava acima da idade limite). Ele traçou seus planos e trouxe jogadores de sua confiança, com quem já trabalhara no Auxerre. O pesadelo tomou corpo quando ele deixou a equipe com apenas quatro rodadas. Era o início da desgraça.
Jean-Pierre Papin, seu substituto, foi obrigado a começar do zero, enquanto seus adversários estavam engatinhando. Os reforços de Roux (Kalou, Akalé, Pieroni) saíram de fininho e deixaram o time na mão. Com um alto grau de gambiarras para tapar as falhas da equipe, Papin ainda teve que dividir o comando do time com Daniel Leclercq, para aumentar um pouco mais a bagunça. Os Sang et Or fizeram 3 a 0 em cima do Lyon na 21ª rodada e ainda respiravam. No entanto, a desorganização logo dominou a situação. De nada adiantou o esforço de Monterrubio, envolvido em 40% dos gols marcados pelos Sang et Or. Com a chegada de um novo treinador, o Lens se prepara para dias amargos na Ligue 2.
Toulouse
Campanha: 17º (42PG, 9V, 15E, 14D, 36GP, 42GC)
Artilheiro: Elmander (11 gols)
Melhor garçom: Mansaré (6 assistências)
Cartões amarelos: 74
Cartões vermelhos: 6
Destaque: Arribagé
Decepção: Gignac
A temporada se mostrava exuberante para os Violetas. A classificação para a Liga dos Campeões dava a impressão de que o time teria tudo para viver um momento especial. Para seu azar, o time pegou o Liverpool na fase preliminar do torneio europeu e foi eliminado. Logo a ilusão deu lugar à realidade: com um elenco bastante limitado e ultra-dependente de Elmander, o TFC nunca conseguiu se impor na Ligue 1. Quando o atacante sueco se ausentou da equipe devido a problemas físicos, o Toulouse tornou-se ainda mais frágil e conviveu com o medo de ser rebaixado. As parcas vitórias em casa (apenas quatro em 19 jogos) também quase contribuíram para a queda, mas alguns triunfos como visitante garantiram a manutenção do clube. Foi um bom golpe para o Toulouse realmente perceber qual é seu verdadeiro espaço.
Elmander e Emana, quando estiveram fora da enfermaria, salvaram a pele do TFC em diversas ocasiões. No entanto, Arribagé, com seus 36 anos, foi o responsável pelo equilíbrio da equipe nas piores situações. Em uma defesa arrasada por uma série de lesões, ele provou sua capacidade de liderança. Para quem despontava como uma promessa, André-Pierre Gignac colecionou decepções. O atacante não conseguiu se entender com Elmander no ataque e acabou na reserva. Além disso, desentendeu-se com o treinador Elie Baup, ficando à margem do elenco. Pelo menos o Toulouse aprendeu a ter os pés no chão e espera não ser devorado por seus devaneios. Com a saída de Baup, Alain Casanova terá a missão de reequilibrar o time.
Lille
Campanha: 7º (57PG, 13V, 8E, 7D, 45GP, 32GC)
Artilheiro: Michel Bastos (8 gols)
Melhor garçom: Obraniak (6 assistências)
Cartões amarelos: 64
Cartões vermelhos: 4
Destaque: Béria
Decepção: Kluivert
O LOSC entrou nesta Ligue 1 sem tantos compromissos por um grande desempenho. O clube passa por um período de transição e perdeu dois de seus mais importantes jogadores. Bodmer e Keita foram negociados com o Lyon e a aposta em jogadores desconhecidos mas com forte espírito de grupo veio abaixo com a chegada de Patrick Kluivert. Se os Dogues preferiam a discrição, arranjaram alguém para servir como referência. Contudo, o holandês fracassou de forma retumbante. Em forma física questionável, sua lentidão no campo deixava os zagueiros adversários à vontade para marcá-lo. A volta de Mirallas e a contratação de Frau serviram para deixá-lo no banco de reservas e fazer o Lille subir de produção.
Após um primeiro turno de pouco destaque, no qual figurava entre os últimos colocados, o Lille iniciou sua virada com uma vitória no dérbi do norte francês sobre o Lens. O triunfo contra um adversário direto na luta contra a queda encheu os jogadores de ânimo. Com uma defesa sólida (a terceira menos vazada da Ligue 1) e um time equilibrado (perdeu apenas sete vezes, mesmo número ostentado por Lyon e Bordeaux), o LOSC progrediu com a chegada de Frau e as atuações regulares de Michel Bastos, Franck Béria e Yohan Cabaye. Embora a classificação para a Copa Uefa tenha escapado por pouco, o time obteve um resultado muito bom dadas as condições oferecidas no começo da temporada. Como a força dos Dogues está em sua identidade, quando se ousa alterá-la a equipe perde rendimento. Fica ainda a esperança de confirmação do talento de jovens atletas como Adil Rami e Peter Franquart, com um futuro promissor nas mãos de Claude Puel.
Paris Saint-Germain
Campanha: 16º (43PG, 10V, 13E, 15D, 37GP, 45GC)
Artilheiro: Diané (11 gols)
Melhor garçom: Rothen (8 assistências)
Cartões amarelos: 55
Cartões vermelhos: 0
Destaque: Diané
Decepção: Le Guen
A torcida do PSG se acostumou a viver emoções fortes nas últimas temporadas, mas 2007/08 foi um belo teste. O rebaixamento para a Ligue 2 parecia consolidado, mas o Lens deu uma força e ajudou a tirar o time da capital do buraco. Os mesmos Sang et Or derrotados na final da Copa da Liga Francesa, cujo troféu deu ao Paris Saint-Germain a chance de comemorar um título – e a classificação para a Copa Uefa. Um jogo no qual o emocionante placar de 2 a 1, com direito a gol nos acréscimos, pouco importou. Um grupo de torcedores exibiu uma faixa com ofensas racistas, em um episódio lamentável e que comprovou como todos os setores do PSG estão contaminados. Um elenco bagunçado, montado sem a obediência a critérios mínimos de qualidade; um técnico que perdeu a mão no meio do caminho; dirigentes que contratam mal e sem perspectivas de um futuro melhor; instabilidade no poder, com troca de presidente em momento crucial da temporada; torcedores dispostos a bater boca e intimidar jogadores e a violência – e conseqüente dissolução – dos Boulogne Boyz retratam a bomba na qual o clube se transformou.
O fraco elenco de 2007/08 teve reforços do nível de Souza, ex-São Paulo. Le Guen, para mexer com os brios de seus jogadores mais renomados, preferiu deixar Pauleta, Yepes e Armand no banco, enquanto lançou os jovens Sakho, Sankharé e N’Gog na fogueira. O técnico conseguiu avivar o incêndio: deixou os líderes do elenco mais revoltados ainda e queimou etapas com atletas promissores ao submetê-los a tamanha pressão. Foram necessárias onze partidas para o PSG vencer seu primeiro jogo no Parc des Princes pela Ligue 1. Para melhor ilustrar o drama, o feito ocorreu na 20ª rodada (3 a 0 sobre o Lens) – ou seja, a equipe passou todo o primeiro turno em jejum. A despedida de Pauleta deixará o elenco mais carente, embora Diané tenha se esforçado em carregar o time nas costas ao lado de Rothen, mais constante e em melhor forma física. Mesmo se tivesse uma boa reserva garantida para a contratação de reforços, o PSG tem grandes chances de gastar mal um dinheiro pingado. A taça da Copa da Liga e o vice da Copa da França não devem ofuscar as necessidades emergenciais do clube.
Rennes
Campanha: 6º (58PG, 16V, 10E, 12D, 47GP, GC)
Artilheiro: Pagis (12 gols)
Melhor garçom: Leroy (10 assistências)
Cartões amarelos: 57
Cartões vermelhos: 2
Destaque: Leroy
Decepção: Emerson
Como nas temporadas anteriores, o Rennes mostrou ser imbatível na arrancada nas rodadas finais da Ligue 1. Nas 13 últimas partidas no campeonato, a equipe somou 28 pontos e por pouco não se classificou para a Copa Uefa. A bola bateu na trave de novo, e os bretões se contentaram com uma vaga na Intertoto. Mais uma vez, a oscilação do time no primeiro turno deixa um gosto de frustração, pois alguns pontinhos perdidos de bobeira teriam feito grande diferença no fim das contas. O técnico Pierre Dréossi levou a equipe ao terceiro lugar, mas uma seqüência de seis derrotas fez o Rennes despencar. A chegada de Guy Lacombe para assumir o comando do elenco promoveu uma mudança positiva e logo os bons resultados se tornaram uma constante. Ele conseguiu sobreviver em um ambiente com alguns egos inflados e soube podar as asas de quem estava com muito nome e um futebol aquém das expectativas.
Lacombe deixou de lado titulares como Didot, Cheyrou, Sorlin, Wiltord e Pouplin, com grande apoio a Mickaël Pagis. O ex-marselhês, vaiado pelos torcedores na primeira metade da Ligue 1, deu a volta por cima ao trabalhar de novo com o treinador. A resposta foi dada em campo: Pagis marcou dez gols (antes, havia feito apenas dois) e foi um dos principais nomes da recuperação bretã. Sem dúvida, o maior responsável pelo bom desempenho do time se chama Jérôme Leroy. Suas dez assistências o deram o título de melhor ‘garçom’ do torneio. Para completar, ele ainda marcou seis gols, sendo fundamental no setor criativo da equipe. Dono do melhor centro formador de atletas do país, o Rennes aos poucos se consolida como força mediana, sempre em busca de posições no alto da tabela. O passo decisivo será encontrar um equilíbrio definitivo para dar o salto consagrador.


