França

Aos 34 anos, Nasri anuncia o fim precoce de uma carreira que nunca chegou a ser o que prometia

Coadjuvante nos primeiros títulos da era milionária do City, Nasri ainda assim não foi o destaque que muitos apostavam

Samir Nasri passou os últimos anos longe dos holofotes. O meia surgiu como uma grande promessa no Olympique de Marseille e nas seleções francesas de base, mas nunca desabrochou como se esperava. Até acumulou troféus importantes com o Manchester City, após sua transferência do Arsenal, só que não ocupou exatamente o posto de protagonista nos celestes. Desde 2016, o francês ainda rodou por clubes como Sevilla, Antalyaspor e West Ham. Sem contrato desde que saiu do Anderlecht em 2019/20, resolveu anunciar sua precoce aposentadoria neste final de semana, aos 34 anos.

Descendente de argelinos, Nasri nasceu e cresceu na região de Marselha. O garoto não demorou a surgir como um fenômeno e ganhou sua primeira oportunidade no Olympique quando tinha nove anos. A partir de então, pulou etapas rapidamente nas categorias de base até fazer sua estreia no time principal em setembro de 2004, com 17 anos recém-completados. Pouco antes, o meia já tinha ganhado projeção continental com a badalada “geração 1987” da seleção francesa, que conquistou o Campeonato Europeu Sub-17 naquele mesmo ano. Nasri marcou o gol do título para a equipe que também reunia Karim Benzema, Hatem Ben Arfa e Jérémy Ménez.

Nasri se desenvolveu rapidamente no Olympique de Marseille. Em sua segunda temporada na equipe profissional, em 2005/06, já ocupava um posto de destaque entre os titulares. Os marselheses atravessaram uma seca de títulos naquele período, mas Nasri chegou a ser eleito a revelação da Ligue 1 em 2006/07 e era tratado como um grande xodó pelos torcedores. Acabaria despontando ao lado de outros meias em ascensão, como Franck Ribéry e Mathieu Valbuena. E o prêmio pelo momento veio com as primeiras convocações à seleção principal da França, inclusive para integrar o elenco na Euro 2008.

Nasri era visto como um dos jogadores mais promissores do mundo e o destino natural de vários prodígios franceses naquele momento era o Arsenal. Os Gunners pagaram £12 milhões para comprar o meia de 21 anos e Arsène Wenger esfregava as mãos para contar com seu novo camisa 8. O francês não arrebentou de imediato, mas teve bons momentos em suas duas primeiras temporadas em Londres. Apesar disso, deixaria de frequentar as convocações da França por conta de problemas de relacionamento e perderia a Copa de 2010. O retorno de Nasri aos Bleus se combinou com a melhor temporada pelo Arsenal, em 2010/11. Foi quando atravessou sua fase mais consistente e até acabou eleito para a equipe do ano na Premier League.

Apesar da crescente em Londres, Nasri aceitou uma proposta do Manchester City em agosto de 2011. O meia de 24 anos seria mais um dos badalados reforços celestes, ao custo de £25 milhões. A primeira temporada indicou que a escolha foi acertada, com a histórica conquista da Premier League em 2011/12. O francês também disputou a Euro 2012, mas saiu como um dos vilões na fraca campanha dos Bleus, ao novamente ficar marcado pelo destempero. Com o filme queimado na seleção, Nasri frequentaria menos as listas de Didier Deschamps em 2013. Ignorado para a Copa de 2014, anunciou o fim de sua trajetória pela equipe nacional com apenas 27 anos.

No Manchester City, Nasri permaneceu eclipsado por outros jogadores mais talentosos. Não apresentava grande regularidade e virou um mero coadjuvante no grupo. Ainda teria um papel notável na reta decisiva da conquista da Premier League em 2013/14, na sua temporada mais efetiva pelos celestes, que fez sua convocação à Copa ser esperada por muita gente – apesar da decisão de Deschamps. Depois disso, de qualquer forma, aos poucos ele perdeu espaço e começou a conviver com lesões. Já não andava muito prestigiado com Manuel Pellegrini e a chegada de Pep Guardiola foi a carta branca para a saída do francês. Aos 29 anos, sua carreira em alto nível praticamente teve fim naquela temporada de 2016/17.

Nasri ainda passou pelo Sevilla por empréstimo, mas sem apresentar muito. Em 2017, ele resolveu aceitar uma oferta do Antalyaspor. Permaneceu na Turquia por uma temporada e meia, chegando a receber uma punição por doping após um tratamento médico irregular. A última tentativa de dar uma volta por cima nas grandes ligas ocorreu em janeiro de 2019, quando assinou com o West Ham, mas mal entrou em campo. Por fim, graças à relação com Vincent Kompany, ainda arranjou um contrato com o Anderlecht em 2019/20. De novo as aparições seriam bastante esporádicas e o veterano acabou dispensado ao final da temporada, em meio à pandemia. Desde então, não tinha assinado com nenhum outro clube, até optar pela aposentadoria.

Em seu anúncio, Nasri revelou que o caso de doping motivou a despedida precoce, garantindo sua inocência. Tal episódio deteriorou sua relação com o futebol. Além disso, ele não desejava voltar à França se não fosse para o Olympique: “As coisas no Anderlecht não saíram como planejado. Então, a liga foi suspensa por causa da pandemia. Depois disso, eu não tinha necessariamente mais motivação. Nenhum desafio realmente me agradava. E eu não poderia me imaginar voltando para a França se não fosse no Olympique de Marseille”.

Nasri ainda apontou que um de seus desejos para o futuro é tentar a carreira como treinador. Seu desafio pessoal, porém, será superar os problemas de relacionamento de uma trajetória nos gramados marcada pela indisciplina e pela falta de foco. O francês ainda teve uma história razoável, em que defendeu clubes tradicionais e conquistou títulos importantes. Todavia, acabou muito aquém do que prometia aquele garoto habilidoso e com grande visão de jogo que encantou tanta gente nas seleções de base.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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