França

Anelka tem razão

 Diante de tantos acontecimentos ocorridos entre a derrota para o México e para a África do Sul, primeiro vou (tentar) me ater unicamente ao que ocorreu em campo no duelo entre os Bleus e os Bafana Bafana. Depois, com mais calma, abordarei todo o circo no qual se tornou a seleção francesa em Knysna, para vergonha de seus torcedores. A eliminação precoce da Copa do Mundo evocar o vexame de 2002, mas não passa nem perto do que aconteceu na Coreia do Sul/Japão.

Bom, vamos ao jogo. Se Raymond Domenech guardava alguma surpresa para enfrentar os donos da casa, ele conseguiu desagradar a todos em seu último ato como treinador da seleção. Ele até corrigiu a besteira que fez no duelo contra o México, quando deixou Gourcuff no banco e Ribéry desempenhou a função de armador, sendo um fiasco. O técnico voltou a escalar o meia do Bordeaux e deslocou Ribéry para a esquerda.

Govou, um fantasma pela direita, também ficou no banco e cedeu seu lugar para Gignac – era o que tinha por ali, mas melhor do que o antecessor. No entanto, ficou provado que a defesa segue um caos. Com a suposta recusa de Abidal de entrar em campo, Domenech colocou Squillaci ao lado de Gallas no miolo da zaga. Nem é preciso dizer como os sul-africanos adoraram esta formação.

A confusão se fez maior com a presença de Clichy na lateral-esquerda, no lugar do capitão Evra. Simplesmente ele não sabia o que fazia em campo. Tanto que, no lance do segundo gol dos sul-africanos, ele estava lá no meio da área, como um zagueiro, e falhou ridiculamente no combate a Mphela. Além disso, deixei o principal para o fim: quando todos pensavam que o corte de Anelka seria a deixa para Henry enfim ser titular, eis que Domenech anuncia a escalação com… Cissé.

Por pior que Henry esteja fisicamente, é de uma sacanagem sem tamanho deixa-lo no banco de reservas quando você mais precisa de alguém experiente em campo em um jogo de tamanha importância. E nem digo pelas chances mínimas de classificação, mas sim para resgatar o mínimo da dignidade que os Bleus fizeram questão de rasgar, sapatear e trucidar. Cissé, por mais esforçado que seja, não era o mais indicado para comandar o ataque francês em um momento tão crucial.

E quando Gourcuff tinha a chance de calar os críticos e mostrar um bom futebol, eis que um cotovelo o torna um dos vilões da partida. Está certo que a decisão do árbitro de lhe mostrar o cartão vermelho foi exagerada, mas o meia do Bordeaux enterrou todas as esperanças em torno dele como novo comandantes dos Bleus. Se esta Copa seria a oportunidade dele de cavar seu espaço na equipe, Gourcuff a perdeu de forma retumbante.

Na estreia contra o Uruguai, o meia teve atuação pífia. Ficou no banco contra o México. Contra a África do Sul, ficou menos de meia hora em campo. Domenech, obviamente, também tem sua parcela de culpa. Sem Gourcuff, quem organizaria o meio-campo francês? Era olhar para o banco e ver Govou, Valbuena… Não havia este tipo de jogador à disposição. O que se viu, então, foi a África do Sul crescer, dominar e, por incompetência, desperdiçou a chance de golear e se classificar.

As entradas de Malouda e Henry no segundo tempo deram mais equilíbrio ao time, embora a ligação entre o meio-campo e o ataque continuasse comprometida. Ao menos os Bleus fizeram um golzinho, o que não aconteceu em 2002. Há oito anos, porém, havia um time. Agora, eram atores de um decadente circo mambembe.

Palhaçada

A cena foi emblemática. A despedida de Domenech do comando da seleção francesa representa com incrível realismo todo o caráter deste senhor à frente dos Bleus. Carlos Alberto Parreira lhe estende a mão para cumprimentá-lo após a partida. O francês grunhe algumas palavras, recusa o gesto e sai resmungando e arrotando sua soberba. Era o final de um ato melancólico.

Nicolas Anelka saiu como um vilão para os dirigentes e homens de terno e gravata que condenaram a “atitude reprovável” do atacante. Deixemos esta coisa do politicamente correto de lado. Anelka fez o que grande parte dos jogadores estava a fim de fazer, mas que não tinha coragem. Boa parte dos torcedores franceses gostaria de estar no lugar do jogador do Chelsea para encher a boca e dizer coisas ainda piores ao selecionador – como Zidane definiu muito bem;

“Ah, mas um jogador não pode fazer isso, é uma insubordinação sem tamanho”, dirão as marocas de plantão. Nada a ver. Diante da arrogância, da cegueira, dos seguidos atos sem o menor pingo de lógica, qualquer cidadão com um mínimo de inteligência percebe que algo está errado. Anelka apenas colocou para fora o que estava cansado de ver e ninguém tomar uma atitude. Ele fez. Foi dispensado, mas saiu com a alma lavada.

A mesma federação francesa que agiu rápido e condenou a atitude do atacante tem grande parcela de culpa neste fiasco. O fracasso na Eurocopa já seria suficiente para mandar Domenech para a rua, mas a entidade decidiu mantê-lo no cargo. Para deixar o circo ainda mais animado, eis que a FFF anuncia pouco antes da Copa do Mundo que o técnico deixaria o cargo e seria substituído por Laurent Blanc. Nem mesmo Tolete e Denílson, os caros colegas d’A Várzea, teriam pensado em algo tão genial.

Obviamente, os jogadores também têm culpa no cartório. O próprio Anelka e Ribéry teriam ciuminho de Gourcuff. O preparador físico da seleção quase saiu na mão com Evra. Abidal pediu para não jogar contra a África do Sul. De nada adiantou a ministra Roselyne Bachelot exaltar a necessidade de se jogar pela honra. As lágrimas dos jogadores no discurso dela pareceram falsas demais, como o futebol demonstrado pela equipe.

Ainda teremos alguns capítulos da mais triste saga da história da seleção francesa, que envergonhou uma nação ao se deixar destruir por picuinhas e se contaminar pelo espírito maléfico de um pseudotreinador. A França saiu da África do Sul como piada mundial. Esta foi a bela herança deixada por Domenech para Laurent Blanc. Como é bom iniciar um trabalho com uma tarefa bem simples: resgatar o orgulho dos Bleus. Nem dá para saber por onde começar, pois há muitos escombros para remover e, pelo jeito, apenas uma pá para fazer o serviço.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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