Ancelotti e o monstro
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Logo em sua apresentação oficial no Paris Saint-Germain, Carlo Ancelotti tratou de ser simpático. Em francês, o treinador elogiou seu novo clube e prometeu se esforçar para aprimorar o idioma. Apesar do clima descontraído da cerimônia no Parc des Princes, os dias seguintes se mostraram mais duros do que o italiano poderia imaginar. A avidez de torcedores e da imprensa em saber quais são os planos do técnico, como ele pretende montar o time e, principalmente, os reforços que ele tem em mente compõem um turbilhão que, se não for trabalhado da forma correta, deixará Ancelotti em maus lençóis logo de cara.
Um ótimo exemplo para ilustrar o potencial perigo que pode atrapalhar seus primeiros dias foi o fracasso na negociação com David Beckham. Em Doha, onde o time passou parte de sua intertemporada, o diretor esportivo Leonardo não escondeu a decepção no acerto com o Spice Boy, que alegou questões pessoais para não trocar o Los Angeles Galaxy pelo PSG. No discurso do brasileiro, uma constatação simples, mas que ao mesmo tempo desperta atenção: a vinda de Ancelotti não significa que os jogadores na mira do clube virão correndo para o Parc des Princes.
A enorme expectativa criada com a grandeza dos nomes especulados a cada dia (Tevez, Alexandre Pato, Kaká, Drogba…) pode muito bem engolir Ancelotti caso nenhum deles realmente acerte com o PSG. Daí a necessidade de o treinador calcular com muito cuidado seus primeiros passos para não se deixar envolver pelo redemoinho. Tarefa complicada, mas à altura do currículo vencedor do italiano.
Ancelotti, de forma inteligente, preferiu não embarcar no oba-oba. O treinador tratou de elogiar o elenco e destacou a qualidade da equipe, “sobretudo no setor ofensivo”. Para bom entendedor, isso quer dizer que os sonhos de um ataque galáctico diminuem de maneira considerável. Nas entrelinhas, pode-se esperar por mudanças maiores na defesa, cujas atuações nesta temporada têm oscilado mais do que o desejado.
Leonardo também aproveitou a apresentação de Ancelotti para tentar limpar a sua barra. Questionado pela saída de Antoine Kombouaré sem uma grande razão determinante, o brasileiro adotou um tom conciliador. Elogiou o treinador e destacou seu trabalho à frente da equipe, levando à liderança da Ligue 1. Além disso, procurou amenizar o forte impacto dos gastos nas nuvens do PSG para a contratação de jogadores e pagamentos de altos salários para suas novas estrelas, o que despertou a ira de políticos e autoridades franceses.
A tal revolução tão esperada no elenco do PSG está ameaçada de se tornar apenas uma mudança pequena. Um nome de impacto pode se concretizar nos próximos dias, como o poderio do Qatar Sports Investment não deixa dúvidas de que pode preparar uma oferta tentadora para qualquer grande jogador. No entanto, pelo menos neste primeiro momento, Ancelotti deve preferir conhecer melhor o grupo de que dispõe para só aí pensar quais posições realmente mais precisam de reforços.
O treinador deixou claro seu desejo de transformar o PSG em um dos grandes clubes da Europa. Ancelotti sabe como ninguém que isso não ocorre em um passe de mágica – o Manchester City está aí como maior prova disso. Em um cenário de violenta crise econômica e em um país que não está acostumado a ver tanto dinheiro derramado no futebol, o projeto do clube da capital precisa de bases extremamente sólidas para vingar. Do contrário, o time está fadado a ser apenas mais um grande fiasco ao ser tragado pelo próprio monstro que ajudou a criar.
Escorpião no bolso
Enquanto no Parc des Princes se fala em montar uma filial do Harlem Globetrotters, a rotina do Vélodrome continua fadada à contagem de migalhas. O Olympique de Marselha sabe da necessidade de reforçar seu elenco, ainda mais com a proximidade da disputa da Copa Africana de Nações. Contudo, ao contrário do seu rival que ganhou uma bolada na loteria, os marselheses precisam vender o almoço para comprar a janta.
O OM passou por um estágio de três dias na Espanha – mais precisamente em Peralada, local especial para Dider Deschamps. No início de 2010, o treinador também levou o time para lá, e logo em seguida os marselheses deram início à arrancada que levou a equipe ao título da Ligue 1. A situação atual do time, porém, impede previsões mais otimistas quanto à possibilidade de tal feito se repetir.
A única semelhança é a distância do Olympique para o líder – no caso, o PSG está nove pontos à frente. Deschamps tem problemas mais complicados para resolver dentro do elenco. Kaboré, Diawara, André Ayew e talvez seu irmão Jordan devem disputar a CAN por suas respectivas seleções, deixando o treinador sem muitas opções para preencher as vagas de jogadores tão importantes. Sem peças de reposição em quantidade e qualidade necessárias, o OM se vê obrigado a ir às compras, mas o dinheiro curto impede qualquer gasto exorbitante.
Deschamps deseja contar com um bom atacante para manter a qualidade ofensiva da equipe, mas a escassez de recursos não permite pensar em grandes nomes. Logo, a solução seria se desfazer de alguém com o intuito de aliviar a folha salarial do OM, algo em torno de € 84 milhões anuais. Novamente surgem os nomes de Lucho González e André-Pierre Gignac, que figuram na lista de maiores salários do clube, entre os possíveis jogadores negociáveis.
Gignac esteve a ponto de acertar com o Fulham no início desta temporada, mas não houve acordo. Agora, a possibilidade de um empréstimo de seis meses com opção de compra para o clube inglês parece bastante viável. Se a negociação der certo, as portas do OM se abrem novamente para a chegada de Amauri, desejo antigo da diretoria. Já Lucho González não despertou tanto interesse no mercado, para desespero dos marselheses que não veem a hora de aproveitar a chance de negociar o meia, cada vez mais por baixo no clube.
Enquanto tudo caminha no universo das especulações, Deschamps trabalha com aquilo que tem em mãos. Enquanto não há qualquer fato concreto, o treinador pesca possíveis substitutos nas categorias de base do clube. Nos bastidores, a diretoria também trabalha firme para dobrar a Federação Ganense e liberar os irmãos Ayew apenas na última hora. A CAN começa em 21 de janeiro, mas o OM espera contar com André e Jordan até o dia 15 – ambos disputariam a partida contra o Caen pela Copa da Liga e o decisivo duelo contra o Lille pela Ligue 1. Enquanto o PSG imita o tio Patinhas e nada em montanhas de dinheiro em sua caixa-forte, o Olympique passa o chapéu para recolher alguns centavos e se virar como pode.