Alma perdedora

A estreia vitoriosa na fase de grupos da Liga dos Campeões esconde uma outra faceta do Lyon. Na Ligue 1, o OL faz seu pior início de temporada dos últimos 15 anos. Mais do que a derrota por 2 a 0 para o Bordeaux, o time apresentou no Chaban-Delmas qualquer coisa que não se assemelhava a futebol. Em crise de confiança, com a mediocridade predominante e um estilo de jogo muito longe de empolgar a torcida, os lioneses caminham rumo à crise.
O triunfo por 1 a 0 diante do Schalke 04 na LC não passou de uma ilusão. A dura realidade voltou a bater às portas do Lyon diante de um combalido Bordeaux. Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon, tentou fazer o papel de bombeiro, mas apenas avivou o fogo em torno da equipe ao deixar nítida a tensão no ambiente do clube – tudo por conta de sua reação áspera às perguntas dos jornalistas.
Em seis rodadas da Ligue 1, o OL somou apenas cinco pontos ganhos. Foram três derrotas fora de casa, algo que não acontecia desde 1999/2000. A 17ª colocação parece justa para um time que ainda não mostrou a que veio e exibe um futebol digno de pena. Apesar da chegada de Yoann Gourcuff, com a esperança de trazer um sopro de inspiração ao meio-campo lionês, a falta de criatividade impera.
Para o torcedor, o lado mais revoltante está na falta de incômodo dos torcedores com as seguidas derrotas. Não há no momento um espírito de reação em campo, como se todos estivessem conformados com a superioridade dos adversários. Uma passividade difícil de se imaginar quando se lembra que há pouco tempo o OL ditava as regras escaldado pelos sete títulos nacionais consecutivos.
Até agora, praticamente nada mudou no OL mesmo com as saídas de Bodmer, Boumsong e Govou, além do preparador físico – sobre quem recaiu a culpa pelo alto número de jogadores lesionados no elenco. Nem mesmo Claude Puel parece disposto a reagir, como mostrou sua figura apática no banco de reservas durante a derrota por 2 a 0 para o Bordeaux. Embora seja um queridinho de Aulas, Puel sabe que a paciência do presidente lionês tem limite.
O duelo entre Bordeaux e Lyon refletiu muito bem o momento das duas equipes. Jogadores sem confiança, seguidos erros de passe e de posicionamento e uma postura quase covarde para não correr riscos norteou a partida. Os girondinos foram um pouco mais agressivos, mas não que isso assegurasse um jogo vistoso.
Puel pagou caro por escalar um time defensivo demais (um 4-2-3-1 com Toulalan e Makoun) e por mexer mal no time. Ao mexer no ataque após a lesão de Lisandro López, ele preferiu colocar o jovem Pied em campo. Quando ele percebeu que o melhor era promover a entrada de Gomis, não havia mais tempo para reagir. Gourcuff, vaiado pela torcida que o idolatrou, foi uma sombra de suas melhores atuações no Chaban-Delmas.
Para complicar o quadro lionês, há o dérbi contra o Saint-Etienne, o 100º da história. Uma oportunidade perfeita para os Verdes, líderes e há tempos longe dos holofotes, afundarem seu rival histórico, que erra sem alma pela Ligue 1. As duas equipes inverteram os papéis. Se quiser despertar e se recuperar a tempo de um vexame, o Lyon precisa reencontrar a vergonha que sentia ao ser derrotado. Enquanto durar esse conformismo, nada mudará.
Lamentações
Auxerre e Olympique de Marselha têm motivos para lamentar suas derrotas na estreia da fase de grupos da Liga dos Campeões. O AJA, embora tivesse um duelo muito mais complicado, até poderia surpreender o Milan em pleno estádio San Siro. O OM, por sua vez, deu vexame diante de sua torcida no Vélodrome ao perder para o Spartak Moscou. Um péssimo resultado contra um adversário direto pela segunda vaga da chave.
Para o Auxerre, o panorama diante do Milan parecia promissor. Afinal, os rossoneri vinham de uma humilhante derrota para o Cesena (2 a 0) e disputaram apenas duas partidas no Campeonato Italiano – ou seja, o time, com seu ataque reformulado, estaria em condições físicas menos adequadas. O 4-4-2 de Jean Fernandez funcionou muito bem no primeiro tempo, com uma marcação eficiente.
A prova da boa atuação do Auxerre nos primeiros 45 minutos esteve nas figuras de Seedorf e Alexandre Pato, bastante apagados. As falhas constantes da defesa rossonera deram ao AJA a inesperada chance de ficar em vantagem, o que não seria um absurdo diante das oportunidades desperdiçadas pelos visitantes. A falta de pontaria e a presença decisiva de Abbiati teriam seu preço no segundo tempo.
Quando o momento do jogo pedia para que a experiência resolvesse, o Auxerre sentiu o golpe. E nisto o Milan cresceu, sobretudo com a excelente noite de Ronaldinho. Foram necessários apenas cinco minutos para desmontar o sistema defensivo que havia funcionado tão bem até então. Méritos para Ibrahimovic, autor dos dois gols que deixaram o AJA nas cordas, sem qualquer reação.
A experiência que faltou ao Auxerre também passou longe do Vélodrome. O Olympique de Marselha repetiu 2008 e 2009 e estreou na fase de grupos da LC com uma derrota em casa. Ao contrário dos anos anteriores, quando foi derrotado por Liverpool e Milan, o OM agora foi superado pelo Spartak Moscou, cuja qualidade está bem distante da dos Reds e dos rossoneri.
Era para o time russo ser o visitante mais desejado pelo Olympique. O Spartak Moscou ocupa apenas a sexta colocação da Premier Liga e tem apenas a 12ª melhor defesa do torneio (entre 16 clubes). O OM, que não começou bem a Ligue 1 (está em 13º), até fez sua parte para conquistar a vitória – ao todo, o time finalizou 23 vezes, contra apenas quatro do Spartak. A ineficiência ofensiva, porém, complicou a equipe, ainda mais com o gol contra marcado por Azpilicueta e que definiu o placar favorável ao clube russo.
De cara, o Olympique de Marselha vê complicar sua situação no grupo. É de se imaginar que o Chelsea será o dono da primeira vaga e que o Zilina não oferecerá riscos; portanto, OM e Spartak brigam para ver quem ficará em segundo. Devolver o resultado na Rússia será o desafio para os marselheses, que demoram demais para ajeitar seu ataque mesmo com os bons nomes em seu elenco.


