Ainda existe uma esperança

Em seus dois primeiros jogos na Liga dos Campeões, o Lyon não se encontrou em campo. Tanto nos duelos contra Barcelona e Rangers a equipe demonstrou uma apatia preocupante. As duas derrotas por 3 a 0 deixaram o OL bem para trás no grupo E. Restava encarar o Stuttgart, que também perdera seus dois compromissos, para tentar um último suspiro. Apesar de atuar no Gottlieb-Daimler, o hexacampeão francês conseguiu se recuperar. Embora os Schwaben não atravessem um bom momento, os 2 a 0 servem para dar algum ânimo e fazer o time ganhar um pouco de moral para, quem sabe, arrancar pontos de seus algozes nos próximos confrontos.
O Lyon parece enfim ter acordado. Depois de repetir contra o Rangers os mesmos erros cometidos contra o Barça, a equipe tratou a ferida aberta mas que insistia ser um ‘cortezinho’ de nada. Essa retomada do seu poder se deu sobretudo pelo cuidado tomado pelo meio-campo, centrado na figura de Juninho Pernambucano. Contra os atuais campeões alemães, houve uma grande atenção e concentração para fazer o esquema tático fluir sem problemas e sem deixar espaços para os adversários.
Em outras palavras, o Lyon voltou a demonstrar em campo como se domina uma partida. Como se deu essa transformação? A explicação está na velha fórmula adotada com tanto sucesso em outras temporadas. Alain Pérrin montou a equipe no 4-3-3 ao qual os jogadores estão acostumados a jogar. Não se trata apenas de repetir números, mas sim de alcançar o equilíbrio na forma como os jogadores desempenharam suas funções em campo. À frente dos quatro defensores, havia um volante típico. Na ausência de Toulalan, machucado, coube a Fábio Santos desempenhar o papel. O brasileiro, pouco aproveitado na equipe, saiu-se muito bem, tanto no combate como nas subidas ao ataque – tanto que marcou o primeiro gol da vitória por 2 a 0.
Com Juninho e Källström mais abertos na armação, Govou e Ben Arfa se movimentaram bem pelos lados e ajudaram demais Benzema, referência no ataque. Aliás, a jovem dupla formada por Benzema e Ben Arfa a cada dia mostra consistência, uma péssima notícia para Fred. Embora a dupla não tenha o mesmo poder de marcação exercido pelo brasileiro e por Malouda na temporada passada, eles compensam com um entrosamento muito bom, maior qualidade técnica e hábeis na condução da bola.
Há ainda pontos para se evoluir, como por exemplo aumentar a pressão para se tomar a bola ainda no campo adversário. Isso poderia ser aprimorado quando Toulalan se recuperar, pois ele tem condições de atuar ao lado de Fábio Santos. Ao mesmo tempo, por sua qualidade no passe, ajudaria Juninho. O OL passa alguns sinais de evolução e, embora ainda não tenha as mesmas virtudes de elencos passados, caminha para a construção de um quadro positivo em curto/médio prazo.
Já no Vélodrome, o Olympique de Marselha encarou um teste de fogo diante do Porto, forjado nos últimos anos pela experiência adquirida na LC. Os Dragões tiveram a competência que o Liverpool não soube mostrar em Anfield. Ao pressionar o OM em sua casa, o time português logo percebeu que teria o jogo em suas mãos. Os marselheses encontraram muitas dificuldades para lidar com trocas rápidas de passes e uma forte marcação. Como prova, o Olympique não conseguia manter a bola em seus pés por muito tempo, pois errou jogadas em demasia.
Os donos da casa só conseguiram respirar quando o Porto baixou um pouco a guarda, no começo do segundo tempo. A partir daí, o OM conseguiu impor seu ritmo e a pressionar o adversário em seu campo de defesa. Pelo menos nesse período de predominância marselhesa, o OM foi mais eficiente do que o Porto e aproveitou para marcar com Niang. O gol acordou os Dragões, que partiram para cima e chegaram ao empate. O resultado pode sugerir um tropeço, mas os marselheses devem ficar de cabeça erguida.
A equipe mostrou em campo uma boa solidez defensiva e resistiu aos momentos nos quais os visitantes mantinham uma pressão muito forte. Apesar da ausência de Julien Rodriguez, o setor mostrou-se equilibrado, com uma boa atuação de Zubar e Faty no miolo da zaga. Méritos também para a determinação dos jogadores, que não perderam a calma mesmo nas melhores oportunidades criadas pelo clube português. Como o Besiktas deu uma mãozinha ao bater o Liverpool, em teoria o concorrente mais forte da chave, o OM surge com boas chances de se classificar.
Táticas furadas
Enfim o Lyon lidera de forma isolada a Ligue 1. Foram necessárias onze rodadas para que os hexacampeões enfim figurassem no topo da tabela sem um adversário ao seu lado. Além do triunfo sobre o Monaco, os lioneses também contaram com o empate do Nancy, seu rival mais ferrenho, com o Sochaux. O OL demorou um certo tempo para retomar seu trono e, durante esse período, permitiu aos outros clubes sonhar com a coroa. No entanto, caso se repita o ocorrido nas temporadas anteriores, a festa acabou. Sim, pois quando assume a ponta, o Lyon dificilmente dá chances para seus perseguidores.
Em Gerland, os lioneses mantiveram sua sede por vitórias, pelo menos no campeonato francês. Em oito partidas, o OL saiu de campo sete vezes vencedor; além disso, recuperou aquele espírito competidor visto na temporada passada. Do outro lado, o Monaco se afundou um pouco mais em seus problemas. Após um desempenho muito bom nas primeiras rodadas, a equipe do principado logo perdeu terreno. Com o 3 a 1 diante dos hexacampeões, o ASM sofreu sua quinta derrota consecutiva na Ligue 1. Ficou notória a falta de confiança do elenco, cuja moral se abalou ao perder por 2 a 1 para o Bordeaux.
No meio dessa queda, encontra-se Ricardo Gomes. O técnico encontra dificuldades para dar um padrão tático à equipe, muito por não conseguir montar um time-base equilibrado e mantê-lo por muito tempo. Contra o Lyon, por exemplo, ele optou por um esquema mais defensivo, com seis jogadores com esta característica. No entanto, o sistema ruiu após o gol marcado por Juninho Pernambucano. Foi o suficiente para despertar a vontade dos donos da casa e fazer dos visitantes uma vítima indefesa dos botes lioneses.
A reação no final do primeiro tempo, quando o Monaco diminuiu o placar para 2 a 1, fez Ricardo Gomes alterar o modo de jogar de sua equipe, com as entradas de Diego Perez e Leko. Contudo, as mudanças mal foram sentidas, pois Benzema tratou de dar o golpe final. Com os 3 a 1, o Lyon voltou a mostrar sangue frio para esfriar o adversário e fazer a bola correr de um lado para o outro até o apito final, sem correr riscos. Agora, os lioneses devem disparar.
O Nancy pensava que conseguiria seu décimo triunfo consecutivo em casa, mas esbarrou num Sochaux muito bem postado na defesa, em busca de um ponto precioso na luta para fugir das últimas posições. O ASNL, sem inspiração, saiu na frente mas não resistiu à pressão dos Leões. Méritos para o técnico Frédéric Hantz, que montou um time bem ofensivo. Erding, sozinho no ataque, foi auxiliado pelos meias Birsa, Isabey e Dalmat; além disso, N’Daw teve uma boa atuação no combate e ajudou a minar a resistência de Gavanon e Berenguer.
No fim de semana, outro técnico chamou a atenção. Sem fazer o Paris Saint-Germain engrenar, Paul Le Guen resolveu recorrer a uma estratégia mais ousada. Diante do Valenciennes, ele preferiu deixar de lado os habituais titulares e escalou jogadores jovens para ver se eles dariam conta do recado. O técnico se irritou com a falta de personalidade dos titulares durante a derrota por 3 a 1 para o Rennes em pleno Parc des Princes, mas escolheu um termo bem mais leve para justificar suas modificações: “alimentar a concorrência.”
Seria tudo muito interessante se o elenco não tivesse convocado uma reunião durante a semana para a lavagem de roupa suja. Em 45 minutos, os jogadores tiveram espaço para se manifestar e falar sobre o que não lhes agradava no momento. Le Guen incorporou o ‘estilo bombeiro’ e apostou em NGoyi, N’Gog, Sankharé, Arnaud e Sakho, escalados entre os onze. No banco, Pauleta, Luyindula, Frau, Mendy e Armand faziam parte da ‘vitrine de luxo’, um castigo para ver se eles reagiriam de alguma forma com o afastamento do time principal.
O treinador usou a mesma tática quando chegou ao clube da capital na segunda metade da temporada passada. O próprio Pauleta experimentou várias vezes a sensação de assistir a uma partida de um ângulo diferente, na reserva. A Águia dos Açores via Diané entrar em campo e ajudar o PSG a sair da zona do rebaixamento. Se o tratamento de choque funcionou uma vez, pode falhar da outra, pois não faria efeito em jogadores já acostumados a esse tipo de gesto.
Com atletas experientes como Mickaël Landreau, Mario Yepes e Zoumana Camara, Le Guen deu a braçadeira de capitão a Mamadou Sakho, de apenas 17 anos. O time voltou com um empate sem gols com o Valenciennes, mas é natural uma equipe repleta de jovens oscilar bastante durante um campeonato – caso essas promessas sejam mantidas e ganhem uma seqüência de jogos. Talvez lançá-las de forma tão prematura na temporada seja uma tentativa desesperada do treinador para encontrar alguma solução, pois até agora não conseguiu dar um rosto ao PSG.
Se o objetivo for mexer com a vontade de seus medalhões, Le Guen faz uma aposta arriscada, na qual crê que um raio cairá duas vezes no mesmo lugar. Da primeira vez, deu certo; hoje, Pauleta, que não se mostra mais tão interessado assim, pode se acomodar de vez e influenciar seus outros companheiros. Enquanto isso, o time se vê cada vez mais perto de reviver o pesadelo da batalha contra o rebaixamento.


