França

A revolta dos puritanos

Privar um jogador de disputar uma Copa do Mundo por conta de uma ida à boate parece injusto? Essa é a questão sobre a qual os franceses refletem nos últimos dias. O volante Yann M’Vila foi suspenso até junho de 2014 por curtir a noite às vésperas de um jogo decisivo da seleção francesa sub-21. Punição exagerada ou não, M’Vila paga por ser reincidente – e também pela necessidade quase obsessiva de moralizar o futebol do país.

Todos os acontecimentos vergonhosos ocorridos na África do Sul durante a Copa do Mundo-2010 geraram revolta e uma onda de pedidos de punições severas a todos os envolvidos. De torcedores ao alto escalão da política francesa, os franceses encetaram uma corrente moralista para limpar os Bleus e recuperar sua imagem diante do mundo. Qualquer ato de indisciplina não seria mais visto como antes. Nada de passar a mão na cabeça; um espirro fora de hora já geraria grande grita.

Após o Mundial-10, Laurent Blanc assumiu o comando da seleção e deixou clara esta ideia de todo poder ao bom-mocismo. Aos poucos, porém, os jogadores que participaram do vexame em Knysna voltaram a vestir a camisa azul. Durante todo este processo, os resultados em campo continuam parecidos: os Bleus empolgavam pouco e, na hora agá, fracassaram de forma retumbante mais uma vez – agora, na Eurocopa-12.

Blanc saiu, veio Deschamps e seu perfil disciplinador para tentar resgatar este ideal de equipe vencedora e de reputação ilibada. Foi só M’Vila cometer um deslize e pronto; toda a comissão da patrulha dos puritanos veio à tona com suas sirenes agudas de moralismo e bons costumes. Onde já se viu um jovem gostar de uma balada e sair com os amigos para curtir a noite? Traidor da pátria! Irresponsável! Que fique no ostracismo!

Claro que a atitude de M’Vila precisa ser punida (ainda mais por se tratar de uma reincidência), mas não com este rigor inflamado por este clamor moral. O volante deve ter a consciência de que sua escapada não foi a melhor coisa a ser feita por um profissional, mas soa ainda mais criminoso lhe tirar a oportunidade de disputar a maior glória a que um jogador de futebol sonha desde sua infância.

O volante já havia sido repreendido por não cumprimentar Blanc ao ser substituído durante um dos jogos da Euro-12. Um aperto de mão, uma balada fora de hora… Parecem fatos muito menores do que os ocorridos na África do Sul, mas com punição desproporcional ao tamanho de cada caso. Se a punição a M’Vila for mantida, a França apenas provará que nada aprendeu com os problemas vividos por sua seleção e está completamente perdida em meio a este falso moralismo.

Topo disputado

A briga pela liderança da Ligue 1 se intensifica a cada rodada. Para quem esperava um passeio do galáctico PSG, a tabela do torneio ao final de sua 12ª rodada mostra uma disputa bastante cerrada pela ponta. Com os empates de PSG, Olympique de Marselha e Lyon, a distância entre o primeiro colocado e o nono é de apenas nove pontos. Mesmo que OM ou OL saiam com a vitória no jogo atrasado que disputarão, nenhum deles desgarrará dos demais.

O PSG tinha nas mãos a chance de abrir uma pequena vantagem sobre seus rivais, mas marcou passo diante do Montpellier. A expulsão de Sakho com apenas 11min de jogo não reduziu o ímpeto do clube da capital, que mesmo atuando fora de casa teve o domínio das ações pela maior parte do tempo. Cabe lembrar que o time teve um bom rendimento ofensivo, mesmo com a ausência do suspenso Ibrahimovic.

Montado para atuar no contra-ataque, o PSG abriu o placar com Maxwell no primeiro tempo, mas insistia em um erro que se revelaria seu carrasco. Os defensores insistiam em sair com a bola dominada em direção ao ataque. Em duas ocasiões, erros individuais custaram caro aos parisienses. A primeira foi a expulsão de Sakho, que puxou a camisa de Charbonnier quando era o último homem. Depois, foi a vez de Matuidi pisar na bola e deixar Cabella em condições de igualar para os donos da casa.

O Olympique de Marselha voltou a frustrar sua torcida e, como no duelo contra o Borussia Mönchengladbach pela Liga Europa, permitiu o empate por 2 a 2 ao Nice. Superiores, os marselheses tinham tudo para sair do Vélodrome com a vitória. No entanto, a equipe voltou a exibir sua inaptidão para administrar o resultado no fim da partida. A ineficiência na marcação castigou o OM, que agora terá uma sequência difícil de partidas na Ligue 1 contra Bordeaux, Lille e Lyon.

Para complicar, o OM voltou a perder Loïc Rémy. Lesionado no início da temporada, o atacante viu André-Pierre Gignac ganhar espaço, dar a volta por cima e se tornar o grande personagem do belo início de temporada da equipe. Foi só APG se machucar e o time começou a oscilar. O retorno de Rémy era esperado para tentar preencher esta lacuna, mas a nova contusão sofrida diante do Nice o tirará de combate por longos dias.

O Lyon também tinha esperanças de assumir a liderança, pois enfrentava um frágil Sochaux em flerte com a zona do rebaixamento. Motivado pela classificação na Liga Europa, o OL entrou em campo com uma formação rejuvenescida (Umtiti, Fofana e Ghezzal foram titulares) e calcado em um 4-2-3-1 que permitiu um início de jogo tranquilo – ainda mais após Gonalons abrir o placar.

O gol acordou o Sochaux, que passou a dominar o meio-campo, principalmente pelo crescimento de Vincent Nogueira nos desarmes. Os Leões fincaram sua bandeira na defesa do Lyon e, se em um primeiro momento pecavam na finalização, chegaram ao justo empate com Privat. Nem mesmo as entradas de Gourcuff e Gomis adiantaram alguma coisa e os lioneses voltaram para casa com um pontinho mais do que valioso.

Humilhação

O Lille entrou para a história ao protagonizar a maior goleada já sofrida por um clube francês na Liga dos Campeões. Os 6 a 1 diante do Bayern de Munique são um retrato da prestação indigente de um LOSC que jamais esteve em condições de sequer oferecer alguma resistência aos adversários nesta fase de grupos do torneio. Eliminado com quatro derrotas em quatro jogos, os Dogues precisam melhorar muito para não obter outra marca negativa: ser o primeiro time francês a não somar pontos nesta etapa da LC.

Nenhum time na história da LC havia terminado o primeiro tempo com um acachapante placar de 5 a 0 nas costas. O LOSC até havia nutrido alguma esperança diante de um dos grandes da Europa ao enfrentá-lo em casa, mas os bávaros não perdoaram a vulnerabilidade do Lille e castigaram os visitantes sem dó. O pior de tudo foi ver os Dogues levarem um gol atrás do outro como se fizessem parte da plateia de um espetáculo, quando na verdade eles deveriam ao menos lutar por um papel digno em cena.

A atuação ridícula da defesa do Lille merece ser recolhida em um depósito para lixo tóxico, sob risco de contaminar gerações futuras. A liberdade oferecida a Lahm e, sobretudo, Pizarro fizeram o atacante do Bayern marcar o hat-trick mais fácil de sua carreira. Em menos de 35 minutos de jogo, o placar apontava para um 5 a 0 injusto, pois o time alemão merecia ganhar por uma margem maior de gols.

A humilhante goleada veio em um momento no qual o Lille acreditava em uma reação nesta temporada. A equipe havia vencido três dos seus últimos quatro jogos na Ligue 1, mas enfrentar Évian e Valenciennes está anos-luz de ser o mesmo que encarar um Bayern de Munique. Se o time não tem poder nem para fazer frente ao BATE Borisov, não dá para se esperar grande coisa na LC.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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