A queda dos leões no templo

A França encerrou 2010 em grande estilo. Em seu primeiro grande teste, os Bleus se deram muito bem diante da Inglaterra, com uma vitória convincente por 2 a 1 em pleno estádio de Wembley. Tudo bem, os donos da casa estavam completamente remendados, com um time repleto de desfalques e com uma atuação decepcionante. No entanto, o peso de um triunfo contra um de seus maiores rivais credencia o bom trabalho feito até aqui pelo técnico Laurent Blanc.
Para o duelo diante dos ingleses, Blanc optou por um 4-3-3 cujo setor criativo no meio-campo ficou a cargo de Yoann Gourcuff e Samir Nasri. Atuando lado a lado, os dois demonstraram bom entrosamento e qualidade de jogo, com um desempenho que foi a chave para o sucesso francês.
A superioridade do meio-campo francês frente ao desalinhado English Team permitiu aos Bleus dominarem a partida da forma como bem quiseram. Na primeira etapa, sobretudo, a França explorou muito bem esta fragilidade dos donos da casa, materializada na figura de um ineficiente Theo Walcott perdido na função de armador – tanto que foi substituído no intervalo. Com a extrema dependência de Steven Gerrard, a Inglaterra se tornou um leão domesticado sem muito trabalho.
Com o segundo gol no início da segunda etapa, a França relaxou. Blanc resolveu adotar um esquema mais cauteloso ao colocar Alou Diarra no lugar de Mathieu Valbuena, mas a tática trouxe resultados negativos. Os Bleus passaram a atuar num 4-2-3-1 e deram mais espaços aos ingleses, que cresceram no jogo e enfim deram algum trabalho a Hugo Lloris. Com a entrada de Adam Johnson, os donos da casa se fortaleceram ofensivamente, diminuíram a vantagem e ainda deram um calor nos visitantes. Nada, porém, que estragasse a vitória azul.
Para uma equipe em reconstrução tanto do ponto de vista pessoal como moral, o triunfo sobre os ingleses traz a confiança que faltava para engrenar o trabalho de Blanc. Apesar das vitórias conquistadas anteriormente contra adversários de menor porte, ainda restavam alguns resquícios da tenebrosa era Domenech pairando pelos ares. Embora a Inglaterra tenha apresentado um futebol de pouco brilho, derrotar um inimigo histórico, mesmo que ele tenha entrado com um time B, devolve boa porte do orgulho perdido em Knysna.
Por falar nisso, os jogadores franceses decidiram renunciar aos prêmios referentes à Copa do Mundo e ao período de preparação da equipe (os amistosos contra Costa Rica, Tunísia e China). Estava mais do que na hora de se encerrar esta polêmica questão, aprofundada com uma matéria do L’Équipe na qual se afirmava que alguns atletas não estariam de acordo em abrir mão de suas partes.
Todo o valor, em torno de € 3 milhões, será usado para ajudar no desenvolvimento do futebol amador francês. Trata-se de uma decisão sensata e que ao menos passa aos torcedores a sensação de que existe, sim, algum arrependimento por tudo o que aconteceu na África do Sul. Pode nem ter sido essa a vontade de alguns atletas, que devem ter aceitado tal proposta a contragosto. Mesmo assim, não deixa de ser uma atitude emblemática para a recuperação da imagem da seleção francesa junto à opinião pública.
Empates e seca de gols
Para quem gosta de equilíbrio e disputas intensas por posições na tabela, a Ligue 1 tem se mostrado um prato cheio. Com exceção do Arles-Avignon, que está em outra rotação, os demais clubes do torneio vivem uma sensação estranha. Basta uma vitória para quem estava lá embaixo se tornar um pretendente ao título. Ou então um dos líderes sofre uma derrota e cai para bem perto da zona do rebaixamento.
Apenas seis pontos separam o Paris Saint-Germain, quarto colocado, do Nancy, 19º. O Lyon, em oitavo, está apenas três pontos atrás do surpreendente líder Brest. Quem poderia disparar nas primeiras colocações marcou passo na 13ª rodada, como foram os casos dos próprios PSG e Brest, que empataram com Lorient e Sochaux, respectivamente. Em uma rodada com nove jogos, foram quatro igualdades – o que ajuda a entender porque há uma diferença tão pequena entre as equipes na classificação.
Quem também perdeu a chance de ganhar espaço na briga pela ponta foi o Olympique de Marselha. O time voltou a decepcionar em pleno Vélodrome ao ceder o empate por 1 a 1 para o Lens. Embora tenha um jogo a menos e, caso vença o Rennes, alcance o Brest na ponta, a equipe ainda não convence sua torcida. Um dos principais problemas está no seu setor ofensivo.
Na temporada passada, Didier Deschamps podia contar com a excelente fase de Mamadou Niang. No entanto, o senegalês foi embora e o treinador pensou que teria bons substitutos com André-Pierre Gignac e Loïc Rémy. A dupla, porém, até agora fez o técnico sentir saudades de seu antigo pupilo. Juntos, os dois atacantes fizeram míseros quatro gols até aqui na Ligue 1. Muito pouco para dois atletas que custaram a bagatela de € 30 milhões aos cofres do OM.
Se os números já falam contra Gignac e Rémy, dentro de campo a realidade se mostra mais cruel. Os dois têm tido atuações bastante irregulares, sobretudo o primeiro. Gignac tem se mostrado egoísta, querendo resolver a partida sozinho. Além disso, ele resume muito bem as atuações do Olympique de Marselha em seus jogos nesta temporada: os 20 minutos iniciais deixam uma excelente impressão, mas os 70 seguintes são de uma queda brusca de rendimento. E fazer três gols no Zilina na Liga dos Campeões está longe de ser uma credencial de capacidade ou de talento.
Rémy, por sua vez, até começou bem, mas aos poucos seu brilho se apagou. Ele deixou de ser uma referência para ficar escondido no jogo, sem dar opções aos seus companheiros. Pela primeira vez, deixou o campo vaiado. Com uma cobrança cada vez maior de uma torcida que pede um time ofensivo, Deschamps se vê em meio às velhas especulações de que o clube precisa de reforços em janeiro.
Apenas para comparar, na mesma época da temporada passada, Niang havia marcado seis gols – dois a mais do que Rémy e Gignac juntos. Para o torcedor mais “corneta”, deve-se lembrar outro dado. Em sua primeira temporada no OM, ele fez apenas dois gols neste período. Quando deixou o Olympique de Marselha, Niang contava com mais de cem gols com a camisa do clube. Ou seja, nada melhor do que ter um pouco mais de paciência antes de crucificar os até agora a dupla de eficiência questionável e de baixo custo-benefício.


