A Liga dos completos perdedores

Seis jogos, míseros dois empates e quatro derrotas. O desempenho das equipes francesas na fase de grupos da Liga dos Campeões beira o ridículo. Bordeaux e Olympique de Marselha ainda não somaram pontos e, logo na segunda rodada, vêem suas chances de classificação para as oitavas-de-final diminuírem de forma drástica. O Lyon, que somou dois pontos, conta com a sorte de ter caído num grupo com o Bayern de Munique em fase turbulenta, mas nem assim pode ter algum motivo para festejar.
Comecemos pelo Olympique de Marselha. A derrota em casa para o Liverpool não serviu de lição para o duelo contra o Atlético de Madrid. Como contra os Reds, o motivo do fiasco ficou nítido. As falhas defensivas ofereceram aos Colchoneros as chances para marcar dois gols. A indefinição de Erbate e uma bobagem cometida por Hilton foram fatais para o gol de Agüero. Uma falta desnecessária de Taiwo permitiu a Luis García deixar sua marca nas redes de Mandanda. Dois lances nos quais a desatenção mais uma vez comprometeu qualquer esperança do OM de obter algo melhor.
Tais falhas jogaram no lixo todo o bom trabalho desenvolvido pelos demais setores da equipe. Embora derrotado, o Olympique saiu do Vicente Calderón com a sensação de ter feito uma apresentação digna. E realmente fez, com uma pressão inicial no campo do adversário. Só que tudo isso durou apenas quatro minutos, com o presente oferecido a Agüero. O OM encontrou muitas dificuldades diante da solidez defensiva do Atlético e o 4-4-2 de Gerets fracassou. O raro apoio pelas laterais e jogadores ‘engessados’ atrapalharam qualquer reação, apesar dos esforços de Niang.
Com Liverpool e Atlético com seis pontos, o Olympique se vê numa encruzilhada. Ganhar do PSV se tornou obrigação, ainda mais pelo fato de o time holandês mostrar uma fragilidade impressionante. A queda de desempenho do OM já verificada na Ligue 1 apenas acentua essa pressão por um triunfo sobre o clube de Eindhoven, sob o risco de uma eliminação prematura complicar todo o planejamento para o restante da temporada.
No Chaban-Delmas, o Bordeaux dominou a Roma, abriu uma vantagem de 1 a 0 e tinha o jogo nas mãos. Só não contava com a expulsão de Henrique, responsável direto pela mudança completa no panorama da partida. Se o brasileiro merecia ou não ser expulso pela cotovelada em Perrotta, que nem atinge o italiano, não está em questão, mas sim a capacidade de os Marine et Blanc se encolherem ao sinal da primeira dificuldade.
A postura covarde de se fechar na defesa e convidar os giallorossi para seu campo matou os girondinos, ainda mais quando o técnico Luciano Spaletti tirou Aquilani e colocou Okaka em campo. A Roma teve o lógico domínio das ações, contou com a entrada muito oportuna de Júlio Baptista e se aproveitou da acentuada queda de rendimento físico dos donos da casa para fazer três gols e sair com a vitória. Essa passividade do Bordeaux, já exibida contra o Chelsea, deixa dúvidas até sobre as condições da equipe na luta por uma vaga na Copa Uefa, dadas as atuações do surpreendente CFR Cluj.
Lyon, na trave
Há de se louvar a capacidade de o Lyon resistir à pressão exercida pelo Bayern de Munique no Allianz Arena. Contudo, os lioneses poderiam muito bem ter aproveitado melhor o péssimo momento vivido pelo clube bávaro – duas derrotas seguidas na Bundesliga, sendo uma delas a goleada por 5 a 2 para o Werder Bremen sob os olhos de sua torcida. Pelo menos os outros times do grupo ajudaram. A Fiorentina fez o favor de empatar sem gols com o Steaua Bucareste e deixou a chave embolada.
Seria uma excelente oportunidade para recuperar os pontos perdidos na estréia contra a Fiorentina (empate por 2 a 2 em casa, com os ‘viola’ tendo aberto uma vantagem de dois gols). Não chega a ser frustrante o resultado em território alemão, ainda mais quando se comparados os inícios de campanha do OL nesta e na edição passada da LC. Se contra o Barcelona, no Camp Nou, os lioneses se mostraram bem inofensivos e tomaram de 3 a 0, pelo menos desta vez eles colocaram o adversário nas cordas por algum momento.
Assim foi o primeiro tempo, ainda mais quando Demichelis desviou contra suas próprias redes uma falta de Juninho Pernambucano. O Bayern se viu obrigado a partir para cima, mas ainda de forma desordenada. O OL teve espaços para explorar, sendo perigoso nos contra-ataques. Os heptacampeões aos poucos ruíram, mais uma vez, por conta dos remendos mal-feitos em sua defesa.
O zagueiro John Mensah, improvisado na lateral-esquerda, esteve perdido. No lance do gol, por exemplo, ele levou a pior na velocidade para Klose – isso sem contar nos apuros sofridos diante de Oddo. De nada adianta o Lyon apresentar equilíbrio em seu meio-campo e ataque se lá atrás há uma gambiarra. A artimanha pode até quebrar um galho uma ou outra vez, mas vai estourar quando for testada para valer.
O encanto acabou?
Para 2008/09, o Paris Saint-Germain deu sinais de que estava disposto a apagar as péssimas campanhas das últimas temporadas. Após conviver com o fantasma do rebaixamento, uma situação econômica ruim, encarar a revolta de sua torcida e contar com um elenco de qualidade duvidosa, era chegada a hora de sonhar. Makélélé, Giuly, Sessegnon, Hoarau, Kezman… Os reforços indicavam novos tempos no Parc des Princes. Vieram as primeiras rodadas da Ligue 1, com um desempenho regular. Contudo, nuvens escuras se aproximam do PSG. A tranqüilidade durou pouco.
O time da capital sofreu duas derrotas consecutivas por 1 a 0, para Saint-Etienne e Grenoble (esta última em pleno Parc des Princes). Os resultados foram suficientes para jogar a equipe para a metade de baixo da tabela e reacender os temores da torcida, iludida pelas primeiras vitórias. O PSG chegou a figurar na terceira posição na quinta rodada, mas o time ainda não se livrou completamente daquele espírito negativo dos anos anteriores.
Claro, não se deve cobrar do Paris Saint-Germain uma luta mortal para desbancar o Lyon do topo. Esperava-se um pouco mais de empenho em um elenco com jogadores experientes. Cabe lembrar que tanto as vitórias como as derrotas do PSG não foram conquistadas com uma incrível superioridade de uma parte ou outra. Sempre foi aquele 1 a 0 meio chorado ou, no caso dos reveses para os Verdes e o GF 38, uma questão de pouca objetividade.
Nos triunfos contra Caen, Nantes e Kayserispor, pela Copa Uefa, um ponto em comum: o clube da capital abriu logo o marcador. Esta vantagem parcial deu tranqüilidade suficiente à equipe para controlar o adversário. O PSG começa a encontrar dificuldades quando seu gol demora para sair. O time demonstra não ter paciência suficiente para manter um ritmo equilibrado. Daí, inicia-se a sucessão de erros: pressa, nervosismo, uma necessidade burra de se querer resolver o jogo sozinho… As falhas de finalização se acumulam e o rival, mesmo acuado a maior parte do tempo, consegue se segurar mais pelas bobagens dos parisienses do que por mérito próprio.
O duelo contra o Grenoble ilustra com muita precisão este problema. O GF38 se encolheu e entregou o campo para o PSG, que ainda não sabe muito bem como fazer para se impor com propriedade. E foi em sua única finalização em direção ao gol que os visitantes calaram o Parc des Princes. Embora tenha sido apenas o quarto gol sofrido pela equipe nesta edição da Ligue 1 (o time tem a segunda defesa menos vazada do torneio), outra estatística revela a carência de um melhor poder de definição. O clube marcou apenas quatro gols e está empatado com Lorient, Saint-Etienne e Le Havre no quesito pior ataque da competição.
Enquanto a defesa parece ter encontrado a estabilidade que tanto lhe faltou em épocas recentes, o meio-campo e o ataque ainda não se comunicam direito. Na dupla de frente formada por Hoarau e Kezman, cada um joga em sintonia diferente do outro – o sérvio ainda parece ter caído de pára-quedas na equipe. Sessegnon tem atuado mais recuado do que em sua passagem de sucesso pelo Le Mans. Para piorar, Giuly, esperança de equilibrar o setor de criação e desafogar Rothen, está longe de sua melhor forma e agora se machucou.
Seria crueldade falar em crise no PSG, mas a situação exige cuidados extras de Paul Le Guen. O treinador precisa trabalhar melhor o setor criativo da equipe, repensar a função de Sessegnon (ainda mais com a ausência de Giuly) e promover um entrosamento melhor entre Hoarau e Kezman. Se não buscar o ataque, de nada adianta consertar os buracos da defesa.


