A formação do novo Lyon

A conquista do heptacampeonato nacional determinou o início de novos tempos no Lyon. O clube, acostumado com a hegemonia adquirida na Ligue 1, viu seu poderio ser ameaçado em 2007/08, quando teve um desempenho abaixo do esperado, apesar da inédita dobradinha com os títulos da Copa da França e do Campeonato Francês. Para a próxima temporada, a equipe se prepara para mudanças mais radicais, mas aposta na mesma fórmula que parecia tão promissora no ano passado e revelou-se um tanto quanto equivocada. Daí a importância de se contar com um treinador como Claude Puel, capaz de tirar o máximo de atletas limitados tecnicamente e formar grupos fortes – um alento para o OL, em constantes brigas internas.
Para começar, o OL mais uma vez abriu seus cofres em busca de bons reforços para seu elenco. Até o momento, o clube gastou nada menos do que € 44 milhões para contratar apenas quatro jogadores. Pelo valor das negociações e os nomes envolvidos nestas transferências, há de se torcer o nariz. Embora eles tenham um bom nome dentro do mercado francês, seria possível utilizar esses mesmos valores para contratar atletas de maior renome internacional.
Na temporada passada, os lioneses também não pouparam dinheiro para contratar Fabio Grosso, Nadir Belhadj, Mathieu Bodmer e Kader Keita. Dentro de campo, os resultados demoraram demais para aparecer. Por exemplo, o lateral italiano até hoje não convenceu como titular, com atuações distantes de quando vestiu a camisa da Squadra Azzurra. A dupla do Lille encontrou problemas para se adaptar e, aos poucos, conseguiram uma estabilidade. Belhadj mostrou-se imaturo demais e acabou negociado para ganhar maior experiência.
É possível traçar um paralelo muito semelhante com as vindas de Éderson, Jean Makoun, Hugo Lloris e Miralem Pjanic. Makoun, por exemplo, veio do Lille, assim como Bodmer e Keita. Para contratar o meia, o Lyon gastou € 14 milhões, mesmo valor pago ao Nice para contar com Emerson. Os lioneses pagaram uma fortuna por Bodmer e Keita, dois dos melhores jogadores do LOSC. O camaronês e o brasileiro também figuravam entre os nomes mais importantes de suas equipes, e devem encontrar problemas para se encaixar entre os titulares. Afinal, quem está disposto a investir tanto neles deseja um retorno rápido e um nível de atuações correspondente às expectativas depositadas – exatamente as maiores dificuldades encaradas pela antiga dupla dos Dogues.
O desgaste vivido pelo elenco ao longo destas temporadas foi citado nos bastidores como um dos principais motivos pelo rendimento em um nível inferior do esperado pelo time. Chegou a hora de ‘patrões’ se despedirem, como o caso de Grégory Coupet, ou então viverem seus últimos momentos no clube – Juninho Pernambucano demonstrou não ter mais as mesmas condições físicas de outrora. A política de ‘pescar’ talentos continua forte, como se vê na chegada de Hugo Lloris (€ 8,5 milhões). O goleiro do Nice chamou a atenção por sua segurança, capacidade de crescimento e uma convocação para a seleção B francesa.
O caso mais emblemático fica por conta de Pjanic. O jovem meia-atacante foi um dos poucos pontos positivos da fracassada campanha do Metz, lanterna da Ligue 1 com uma campanha ridícula. Os lioneses decidiram bancar a aposta na promessa e pagaram € 7,5 milhões aos Grenás pelo jogador de 18 anos. Mais uma vez, o alto valor envolvido coloca nas costas do garoto uma grande responsabilidade quando ele entrar em campo. Uma carga com enorme peso para alguém que carece de maior experiência em um clube competitivo, com grandes chances de sucumbir à pressão e se transformar em decepção. Daí a necessidade de um trabalho a longo prazo, sem pular etapas ou arremessá-lo logo de cara aos leões – como aconteceu com Belhadj, chamado para substituir um incipiente Grosso no começo da temporada, mas não resistiu às exigências necessárias para isto.
Para completar, resta falar do treinador. O Lyon decidiu entregar o comando de um elenco promissor nas mãos de um técnico de alto potencial, cuja excelência em seu trabalho anterior o credenciava como um nome perfeito para tal tarefa. A descrição se encaixa tanto para falar de Alain Pérrin como de Claude Puel. O primeiro, reconhecido por conquistar a Copa da França pelo Sochaux, logo foi engolido pelo sistema. Quando tentou promover mudanças táticas, viu o time afunda e fazer péssimas atuações. Obrigado a retornar ao velho esquema, perdeu pontos, moral e prestígio, e acabou refém das circunstâncias. Durou muito no cargo, até.
Puel realizou um trabalho excelente para as modestas condições oferecidas pelo Lille. Com um elenco sem estrelas, ele conseguiu classificar o LOSC duas vezes para a Liga dos Campeões e fez o clube brigar pelas primeiras colocações da Ligue 1. Ao menos o técnico terá à disposição três de seus atletas de destaque dos Dogues, o que o ajudará a disseminar seu estilo de trabalho aos demais jogadores. Se mantiver sua discrição, o treinador terá a chance de corrigir eventuais problemas de recrutamento do Lyon, algo que Pérrin mal teve oportunidade de gerenciar.
Por pouco
O Grenoble retornou à Ligue 1 após uma ausência de quase 40 anos, mas por muito pouco não viu seu sonho se desmanchar. Embora tenha conquistado o acesso dentro de campo, o clube corria o risco de ser barrado bem na hora de saborear o bolo por falta de garantias financeiras. Na França, a DNCG (sigla para Direção Nacional de Controle de Gestão) analisa com rigor a saúde de todos os clubes profissionais, uma garantia para evitar que algum deles não tenha condições de se sustentar com as próprias pernas e acabe no fundo do poço, afundado em dívidas e com risco de falência e extinção. O órgão, enfim, deu seu aval para a participação do GF38 na primeira divisão.
Para a DNCG considerar o Grenbole livre de suas pendências, o órgão precisava da comprovação de um aporte de € 4,3 milhões ao clube. Houve um adiamento da primeira data final desta garantia, mas o prazo final acabou respeitado. O GF38 conseguiu o dinheiro graças ao seu principal acionista. A Index Holding, empresa detentora de 98% do clube, arrecadou tal valor por meio de um de seus ‘braços’, a Nicome (uma sociedade de publicidade japonesa).
Foram dez dias de espera entre o acordo de princípios firmado pela Index sobre a quantia e o depósito deste dinheiro na conta do clube. Daí a apreensão dos dirigentes com o impasse, e a expectativa de uma decisão favorável da DNCG, que se confirmou por meio de um telefonema. Alívio geral no GF38, que agora pode se preocupar finalmente com a montagem de seu elenco para seu retorno à Ligue 1.
Passado o susto, o clube agora deve recuperar o tempo perdido. Não faltam exemplos recentes de equipes que subiram para a elite e não agüentaram o peso de disputar a primeira divisão, fruto dos pequenos investimentos na formação dos elencos e na falta de jogadores experientes na disputa da Ligue 1. Embora o Grenoble tenha se garantido na primeira divisão, este problema com a DNCG revela como serão difíceis seus dias entre os principais clubes do país, mesmo com o apoio de um investidor.


