A festa dos pequenos

Após 50 anos, um clube da segunda divisão levou o título da Copa da França. A façanha coube ao Guingamp, que derrotou o Rennes por 2 a 1 na “decisão bretã” do torneio. E o triunfo do EAG sobre seu rival local coroou mais uma vez a história de superação do pequeno sobre o poderoso, e não apenas do ponto de vista futebolístico. Desde o título do Le Havre sobre o Sochaux em 1959, alguns intrusos ameaçaram tomar as rédeas do campeonato, como visto nos últimos anos com as campanhas de Calais e Carquefou. Agora, o clube da Ligue 2 realizou o sonho dos pequenos e, como prêmio, classificou-se para a disputa da Liga Europa.
Guingamp e Rennes se localizam na região da Bretanha, mas a primeira cidade tem um ar muito mais provinciano do que a segunda. Para se ter uma ideia das diferenças entre os dois municípios, Guingamp conta com cerca de 8 mil habitantes, uma típica cidadezinha interiorana. Já Rennes, centro regional conhecido por suas universidades, possui mais de 200 mil moradores. No futebol, o abismo se acentua mais ainda: o EAG ocupa um modesto 13º lugar na Ligue 2, enquanto o Rennes figurava em sétimo na elite e, nas últimas temporadas, por pouco deixou a vaga para a Liga dos Campeões escapar por entre os seus dedos.
Por alguns momentos, a sensação de se tornar a “capital bretã” reinará absoluta sobre Guingamp. Doze anos depois de perder a final da mesma Copa da França para o Nice, o time agora conquistou seu primeiro grande título em nível nacional. Só que a equipe precisa rapidamente deixar as comemorações de lado e se concentrar para evitar o rebaixamento para a National (terceira divisão), uma decepção capaz de apagar toda a euforia trazida pelo título sobre o vizinho.
Para o Rennes, era uma questão de honra a conquista do troféu. O clube vive um jejum desde 1971 e a taça traria grande motivação para a reta final da Ligue 1. Afinal, o time sonha em se classificar para alguma competição europeia. Favorito, o time encontrou dificuldades desde o começo para conter os avanços do EAG, que abusava dos longos lançamentos para Eduardo e apostava nos contra-ataques para incomodar. Em contrapartida, o Rennes mal conseguia preocupar Gauclin. Contudo, o Guingamp caiu de rendimento devido ao pior condicionamento físico de seus jogadores.
O Rennes se aproveitou desse cansaço na segunda etapa para impor seu ritmo, tomar conta das ações e, enfim, abrir o placar aos 24 minutos. Parecia que a história estava definida, mas o Guingamp recorreu a Eduardo para se salvar. O brasileiro não decepcionou. Marcou os dois gols da virada e garantiu o inédito título para o En Avant. Culpa de Hansson e M’Bia, cujos erros foram determinantes para o resultado? Nem tanto. Apesar da situação perigosa na Ligue 2, o Guingamp apresentou qualidades que alguns times da primeira divisão pouco mostraram até aqui: estilo ofensivo e uma defesa equilibrada.
Enquanto o Guingamp festeja, o Rennes agora junta os cacos para se concentrar na Ligue 1. O título da Copa da França ao menos lhe garantiria um lugar na Copa Uefa, mas o clube corre o risco de ver navios ao final da temporada. Com sete pontos atrás do Lyon, terceiro colocado, a quatro rodadas do fim, parece improvável uma disputa por uma vaga na Liga dos Campeões. O quarto colocado, Paris Saint-Germain, possui seis pontos a mais, o que dá a dimensão exata dos problemas dos rubro-negros. O lado forte da Bretanha conhece seus momentos de fraqueza, sob forte ameaça de levar mais um tombo feio pelo caminho.
Rodízio de treinadores
Donos de excelentes campanhas nesta temporada, Olympique de Marselha e Paris Saint-Germain receberam notícias fortes logo no momento mais crítico da temporada. Em meio às emoções e a tensão naturais pela disputa do título da Ligue 1 e por uma vaga na Liga dos Campeões, os dois maiores clubes do país foram abalados por duas bombas: Eric Gerets e Paul Le Guen deixarão seus cargos de treinadores ao final desta temporada. O OM agiu rápido e, antes que a notícia causasse efeitos maiores, confirmou o nome de seu novo comandante. Já o PSG… Bom, o clube da capital mais uma vez parece deixar a instabilidade contaminar seus quadros, o que ameaça se refletir dentro das quatro linhas.
O Olympique recorreu a alguém que o conhece a fundo. Capitão do OM campeão continental em 1993, Deschamps já tinha seu nome cogitado há tempos para retornar ao clube. Desde sua saída da Juventus em 2007, o treinador era sondado pela direção dos marselheses, sem no entanto chegar a um acordo definitivo. Além das lembranças (nem tão positivas do time montado por Bernard Tapie), Deschamps ainda carrega em seu “pacote de benefícios” o fato de ter sido o capitão dos Bleus na vitoriosa campanha da Copa do Mundo em 1998. Ninguém pode negar que ele possui um tremendo carisma exatamente por conta de seu currículo de sucessos.
Por isso mesmo, o OM acertou em cheio ao anunciá-lo como seu novo técnico, tanto nas suas qualidades como do ponto de vista do timing. A direção do clube não permitiu que o anúncio da saída de Eric Gerets causasse maiores danos ao elenco. Antes de a notícia negativa provocar maiores estragos logo nos momentos decisivos da Ligue 1, o Olympique se apressou ao nomear um de seus maiores ídolos como substituto para o cargo. Sem dúvida, uma medida acertada e fundamental para manter o clima positivo para o final da temporada, além de criar um ambiente de otimismo para o futuro.
De forma inevitável, os planos para 2009/10 já se anunciam bem interessantes. Deschamps tem a seu favor o fato de atrair jogadores importantes, desejosos por trabalhar com ele. Foi assim com Morientes no Monaco. E Trezeguet indicou que poderia muito bem deixar a Juventus para retornar ao futebol francês, tudo pela chance de trabalhar novamente com seu ex-treinador. A possibilidade de o Olympique voltar a brilhar na Europa enche os olhos da torcida, ainda mais motivada pelas grandes chances de ficar com o título da Ligue 1 e, enfim, quebrar a hegemonia do Lyon.
Por outro lado, o Paris Saint-Germain preferiu deixar a tranquilidade de lado. A calmaria que reinou no Parc des Princes nesta temporada, e que permitiu ao clube fazer uma campanha decente na Ligue 1, parece estar com os dias contados. A prova disso ficou por conta dos desdobramentos do anúncio da saída do técnico Paul Le Guen ao final desta temporada. O treinador deixará a equipe com abalos em sua relação com a diretoria, ainda mais depois do que aconteceu em uma reunião com Sébastien Bazin, presidente e acionista majoritário do PSG.
No encontro, Bazin deixou claro que Le Guen teria direitos reduzidos caso permanecesse. Por exemplo, o treinador ficaria de lado na escolha de seu auxiliar (Yves Colleu, que não é unanimidade entre os diretores do clube) e ficaria como um peso-morto na definição dos futuros reforços da equipe (mais pela redução dos recursos destinados à contratação de atletas). Para completar, o presidente manteve Alain Roche, responsável pela área de contratação de jogadores, e Bruno Skropeta, diretor de comunicação, no quadro de funcionários. Le Guen mantém uma relação problemática com os dois, e a permanência deles apenas demonstrou como o treinador estava em baixa com a direção.
Com o time no meio da disputa por uma vaga na Liga dos Campeões, a indefinição quanto ao nome do sucessor de Le Guen promete ter efeitos desastrosos. Antoine Kombouaré, hoje no Valenciennes, desponta como principal candidato. Ao menos ele segue a linha seguida pelo clube nos últimos tempos: a de nomear como técnicos ex-jogadores com passagens pelo time. Esses foram os casos de Luis Fernandez, Ricardo Gomes, Joël Bats, Vahid Halilhodzic, Laurent Fournier e do próprio Paul Le Guen. Kombouaré, dono de uma relação cordial com Roche, comandou a equipe reserva do PSG de 1999 a 2003 e deixou boa impressão. Seu estilo, de pulso firme e com vocação ofensiva, também agrada.
Kombouaré também chama a atenção por sua capacidade de lidar com baixo orçamento, uma possibilidade concreta no planejamento do PSG para 2009/10. Além disso, conta com grande simpatia por parte da torcida, mais ou menos como a relação entre Deschamps e os marselheses. No entanto, o treinador renovou seu contrato com o Valenciennes até junho de 2013. O VA também anunciou que não pretende se desfazer de seu técnico tão cedo, ainda mais quando a equipe precisa confirmar sua permanência na Ligue 1 (corre baixo risco de ser rebaixada).
Enquanto o PSG segue na indefinição, outros nomes pipocam por aí. Jean Tigana, Reynald Denoueix, Frédéric Antonetti, Christian Gourcuff e até mesmo Abel Braga (!) gravitam em torno da capital. Na verdade, Bazin deseja encontrar alguém capaz de encerrar as picuinhas internas, comuns com Le Guen à frente da equipe. Contudo, o dirigente corre sério risco de estragar a atual temporada com esta indefinição. Ficar de fora da Liga dos Campeões significa desperdiçar a chance de reforçar muito bem o caixa em uma temporada que promete ser de cintos apertados.


