França

A crise bate no principado

Ricardo Gomes está longe de ter sossego no Monaco. Mais uma vez, o treinador vê sua equipe sofrer com as críticas e decepcionar sua torcida. No dérbi contra o Nice, o ASM contava com a vitória no Louis II para pelo menos respirar um pouco de alívio. No entanto, que deu as caras foram os rubro-negros, que impuseram a quarta derrota consecutiva na Ligue 1 ao time do principado. Como já se tornou rotina, o brasileiro vê seu trabalho contestado e precisa lidar com os fantasmas de uma possível demissão.

Como na temporada passada, o Monaco carece de uma unidade maior em seu elenco. Fica a impressão de que o time se conheceu poucos minutos antes do início do jogo e sequer sabe onde cada um dos jogadores deve atuar. Em 2007/08, Ricardo Gomes enfrentou dificuldades para criar um conjunto, devido às constantes mudanças na equipe-base. Com algumas contusões de atletas importantes, o quadro para um novo fiasco se completa.

Diante do Nice, o Monaco de novo passou por apuros em seu sistema defensivo e logo tomou um gol, em erro de Simic. Foi necessária uma alteração forçada no OGC (Hognon entrou no lugar de Cid) para o ASM começar a assustar. Enquanto a defesa rubro-negra tentava se acertar, o time do principado conseguiu o empate ainda no primeiro tempo. Em vez de manter a postura agressiva para a etapa final, os monegascos se encolheram e acabaram castigados.

Foi exatamente esta falta de identidade a responsável pelos fracassos anteriores da equipe. Sem obter uma evolução no sistema de jogo do time, Ricardo Gomes volta a ser questionado. Enquanto o lado defensivo comete falhas (ironicamente, o treinador ganhou a confiança dos dirigentes do ASM por formar uma defesa eficiente no Bordeaux), o ataque mostra-se quase inofensivo. O principal problema está na armação das jogadas: falta alguém capaz de parar, pensar e distribuir com qualidade.

Hoje, o meio-campo do Monaco virou um terreno hostil, pois as bolas passam praticamente de forma direta da defesa para a linha de frente – e não dá para exigir muito dos atacantes quando eles devem se virar para dominar chutões. O elenco sente demais a falta de uma referência. Em 2007/08, Nenê fazia esse papel de tocar a bola em direção ao ataque para criar chances verdadeiras. Não à toa, ele foi o principal assistente do time na última edição da Ligue 1.

Agora, o Monaco aparece em 15º lugar na tabela, com um dos piores ataques da competição (marcou apenas seis gols em nove partidas). Enquanto não melhorar seu toque de bola no meio-campo, o time seguirá perto da zona de rebaixamento. Como a diretoria do ASM não prima pela paciência e exige resultados a curto prazo, Ricardo Gomes precisa fazer algum milagre caso queira permanecer no cargo.

O dia da vaia chegou

Como já visto em amistosos contra Argélia e Marrocos, a Marseillaise mais uma vez foi vaiada, desta vez pelos tunisianos, maioria no Stade de France para o jogo contra os Bleus. A atitude provocou a revolta de políticos e demais figurões do futebol francês, que prometem medidas drásticas para evitar a repetição do gesto. Ofendido, o presidente Nicolas Sarkozy e a ministra dos Esportes Roselyn Bachelet defendem a idéia de se interromper toda partida na qual o hino nacional tricolor for insultado.

Embora seja compreensível a revolta dos principais nomes da política francesa, parece exagerada a proposta de se fazer mesmo tal paralisação. Em termos práticos, em quase todos os jogos os Bleus teriam que se retirar dos gramados. Como em qualquer confronto entre duas seleções, vaiar o hino do outro país tornou-se algo comum. Dentro do âmbito esportivo, não passa de uma forma de provocação, intimidação e, acima de tudo, por ser o ‘símbolo’ de um adversário – como a camisa, o escudo, mascotes etc.

No caso francês, as ofensas despertam maior rancor por virem de representantes das ex-colônias do país no norte da África. Exatamente aqueles que deixaram sua terra em busca de uma vida melhor na Europa, mas encontram a resistência de parte da sociedade francesa, altamente conservadora de seus ideais e alto teor xenófobo. A imagem que se tem destes imigrantes é a de pessoas que vivem na periferia e maiores responsáveis pelo aumento dos índices de desemprego e violência.

Já seria natural toda e qualquer manifestação contrária ao colonizador; quando há uma rejeição declarada por uma parcela significativa dos franceses à presença dos ‘povos colonizados’, torna-se ainda mais compreensível o desejo de desafiar esta resistência – por isso as vaias ao hino. Se Sarkozy deseja interromper os jogos nos quais isso acontece, o que ele faria então se queimassem a bandeira do país, como alguns torcedores italianos fizeram com a da Bulgária em pleno estádio Vasil Levski, em Sófia? Ou os venezuelanos com a do Brasil em San Cristóbal?

A opinião de Michel Platini sobre o caso, mostrada em uma entrevista ao diário Le Monde, mostra-se sensata. O presidente da Uefa classificou a idéia de ‘absurda’, e com toda razão. Ele relembrou seus tempos como jogador e disse que também havia vaias por onde os Bleus passassem. A diferença, segundo o dirigente, era que naquela época “os políticos não se interessavam por futebol e isso não incomodava ninguém. Hoje, tornou-se obrigação para eles, em função de sua categoria, tomarem uma posição em tudo”. Uma análise perfeita.

Em vez de se preocupar com as vaias à Marseillaise, os políticos e principalmente a federação francesa deveriam cuidar melhor do desenvolvimento da seleção. Nada melhor do que responder em campo às críticas da torcida rival, com uma equipe que mereça aplausos ao final de cada partida com um estilo de jogo agradável, harmônico, com qualidade e equilíbrio em todos os seus setores. Algo em falta na situação atual vivida pelos Bleus, muito por conta da manutenção de Raymond Domenech – esse sim era quem deveria ser retirado ao sinal dos primeiros assovios de reprovação.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo