O Palmeiras conquistou a Copa do Brasil, em 2012. Ainda era um torneio sem os times da Libertadores, enfraquecido, mas isso pouco importou para o torcedor alviverde que comemorou o primeiro título nacional deste século. O tempero especial foi o homem que estava no banco de reservas: Luiz Felipe Scolari, com seu bigode, seu jeito bonachão, chefe de família. O treinador das glórias do final da década de noventa alimentava os sentimentos de nostalgia e de esperança. Quando ninguém imaginava que ele faria o Palmeiras campeão, dada a ausência de camarões, como ele metaforizou os bons jogadores que queria contratar e não podia, ele fez o Palmeiras campeão.

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No entanto, era um time fraco. Dependente demais das bolas paradas de Marcos Assunção, com brilhos esporádicos de Valdívia, um bom centroavante em Hernán Barcos e um bom zagueiro em Henrique. O resto deu poucos argumentos para o Palmeiras recuperar-se no Campeonato Brasileiro e, em setembro, dois meses depois da glória no Couto Pereira, ele foi demitido. “Acho que era o momento certo para que eu saísse do Palmeiras”, disse. O segundo rebaixamento foi consumado por Gilson Kleina. Mas começou com Felipão.

O trabalho seguinte de Scolari foi o retorno à Seleção para a Copa do Mundo que o Brasil sediou. Essa história também terminou de maneira trágica, sete vezes trágica. A imagem de Felipão, um dos profissionais mais vitoriosos da sua geração, ficou arranhada. Tentou mais uma volta para casa, ao Grêmio, com resultados modestos, alternando bons e maus momentos, relevando jogadores em um time que precisava mais economizar, como fez, do que pensar em voos mais altos. Encheu os cofres na China, conquistou títulos com o Guangzhou Evergrande e estava desempregado quando Roger Machado foi demitido. E o seu telefone tocou.

Não era natural que o Palmeiras buscasse Felipão. Depois de trabalhar com profissionais experientes, como Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira e Cuca, buscava dar chance aos jovens: Eduardo Baptista, Alberto Valentim e Roger – com o retorno de Cuca servindo como exceção nesse período. Na eterna tentativa e erro com a qual funcionam os dirigentes brasileiros, o desejo palmeirense voltou a ser o chamado medalhão quando Roger Machado passou pelo RH, em julho. E, então, o Palmeiras buscou Felipão.

Das alternativas, era a melhor. Como Vanderlei Luxemburgo e Dorival Júnior, outros nomes ventilados, o ápice de Felipão parecia ter passado, mas ele tinha características que combinavam com o que o Palmeiras precisava para uma solução de curto prazo: identificação com a torcida para ganhar algumas semanas a mais de paciência, capacidade para administrar o elenco e um estilo de jogo mais simples que tornaria a equipe competitiva com rapidez.

O risco era pequeno para Felipão. O Palmeiras havia passado pela tormenta e, há alguns anos, estava em posição de comprar camarões. Na pior das hipóteses, seria mais uma temporada sem títulos, como a anterior. Provavelmente, significaria vida curta no Palmeiras e não o recolocaria na mira dos grandes clubes. Em resumo, deixaria Felipão exatamente na mesma situação em que ele estava antes de voltar à Turiassu. Por outro lado, e se desse certo?

Raposa velha e astuta, Felipão sabia que as chances de dar certo eram razoáveis. Não pegava terra arrasada porque, com todos os problemas do trabalho de Roger Machado, ele colocou em pé as fundações de um bom time. O que faltava era alguém que o tornasse mais perigoso, mais aceso, mais competitivo. Alguém que minimizasse situações como as viradas ou empates no fim que minaram a reta final do seu antecessor. Alguém que conseguisse administrar 20 jogadores relativamente de boa qualidade para o futebol brasileiro e os deixasse satisfeitos. Alguém como o Felipão dos velhos tempos.

Foram necessárias algumas semanas para ter certeza de que o Felipão dos novos tempos também conseguiria fazer isso. A estreia contra o América Mineiro, empate por 0 a 0, não foi o começo dos sonhos. Mas, logo na sequência, o Palmeiras ganhou fora de casa pelas oitavas de final da Libertadores, um resultado relevante em qualquer cenário. O treinador dividiu o seu elenco em duas equipes: uma para os fins de semana, outra para as quartas e quintas-feiras. Permitiu que todo mundo tivesse a sua oportunidade e ficasse com pernas e mentes mais frescas para os desafios.

Esse foi o seu grande mérito, junto com a solidez defensiva. O Palmeiras passou os primeiros sete jogos da volta de Felipão sem ser vazado. No total, em 31 partidas, foram 16 gols sofridos. Quinze jogos terminaram com a meta alviverde intacta. Em apenas três partidas, mais de uma bola entrou na rede da equipe de Palestra Itália, e duas delas foram contra o Boca Juniors – a outra, diante do Santos.

O ataque ficou muito dependente da qualidade individual dos jogadores, mas ficou claro que houve uma orientação para que as jogadas ofensivas fossem mais objetivas. Poucos toques até chegar à área adversária, muitos lançamentos. Isso funcionou muito bem no Campeonato Brasileiro, especialmente porque o talento no elenco do Palmeiras é superior ao da maioria dos adversários. No entanto, quando foi necessário correr atrás contra Cruzeiro, na Copa do Brasil, e Boca Juniors, na Libertadores, faltaram alternativas.

Não houve uma virada sob o comando de Felipão. Quando o adversário sai à frente no placar e adota uma postura mais cautelosa, a equipe tem dificuldades para abrir espaços com o toque de bola.  Vem daí as críticas de que o Palmeiras foi campeão com um futebol pobre, aproveitando a baixa qualidade do Brasileirão. Isso, em parte, pode ser verdade. Mas também é que existem várias maneiras de jogar bola. Embora o Palmeiras nunca tenha sido aquele time que se impõe na troca de passes e no volume de jogo, houve partidas em que foi dominante de outra maneira. Marcou sem dificuldades e correu poucos riscos. E ninguém fica 22 rodadas do Brasileirão invicto, a maior sequência dos pontos corridos, só na base da individualidade.

Além disso, Felipão nunca prometeu mais do que isso. Nunca disse que construiria um carrossel. A sua entrega sempre se resumiu aos resultados e ele os entregou no Palmeiras. O foco principal poderia ser as competições de mata-mata, mas sua estratégia de administração de elenco permitiu que o clube se mantivesse muito bem posicionado na tabela. Com as eliminações, bastou carimbar o título. Embora nada possa apagar o desgaste do 7 a 1 à sua história, ser campeão brasileiro, troféu que nunca havia conquistado com o Palmeiras, restaura a aliança com a torcida que havia ficado abalada pelos altos e baixos de 2012. E ainda mostra que, por enquanto, Felipão ainda é capaz de estender o seu já polpudo currículo no futebol brasileiro.