Num tempo em que versatilidade era algo raro (e por vezes até menosprezado) no futebol brasileiro, ele era um verdadeiro curinga. Marcador firme e apoiador decidido, capaz de atuar nas duas laterais, no meio e até na ponta, Rodrigues Neto – que morreu no Rio de Janeiro nesta segunda-feira, aos 69 anos – fez história com a camisa do Flamengo, vencendo dois títulos cariocas e tornando-se o 13º jogador a mais vezes atuar com a camisa do clube. Levantou taças ainda no Fluminense e Internacional. Teve boa passagem pelo Botafogo. Jogou na Argentina e desbravou a Ásia. E foi o lateral-esquerdo do Brasil na Copa de 1978. Um currículo notável.

TALENTO PRECOCE

Em junho de 1965, o Flamengo foi a Vitória participar de um quadrangular que também reunia o Fluminense e os dois grandes rivais de então na capital capixaba, o Rio Branco e o Vitória. Neste último, um garoto de apenas 15 anos, que integrava os juvenis do clube, mas excepcionalmente atuaria pelos profissionais, chamou a atenção da comissão técnica rubro-negra. Seu nome era José Rodrigues Neto, nascido na pequena cidade de Central de Minas, próxima a Governador Valadares, e que dava seus primeiros passos no futebol ali no estado vizinho.

No fim daquele ano, foi à Gávea para um mês de testes e acabou aprovado. Após arrastada negociação com o Vitória, foi contratado para integrar, em princípio, o time juvenil rubro-negro, onde se destacou. Em janeiro de 1967, foi convocado pelo técnico Zagallo para a seleção carioca que jogaria o campeonato brasileiro da categoria em Belo Horizonte. No time também figuravam os rubro-negros Zequinha, Dionísio e Arílson, e dois outros nomes que se consagrariam: o volante Carlos Roberto (Botafogo) e o atacante Dé (então no Olaria).

Na transição para o time de cima, pelo qual estrearia em julho de 1967, com apenas 17 anos, num clássico contra o Vasco pela Taça Guanabara, o garoto Rodrigues virou Rodrigues Neto. Havia então no elenco principal rubro-negro um outro Rodrigues, conhecido como “Marinheiro”, ponteiro esquerdo também jovem que participara como titular da campanha do título carioca em 1965. Mas dentro de pouco tempo, o nome do garoto do interior mineiro, filho de um sapateiro dono de uma pequena lavoura, já estaria na boca da torcida.

Logo na terceira partida, um Fla-Flu também pela Taça Guanabara em 4 de agosto, ele marcaria seu primeiro gol pelo Flamengo. O tento não poderia ter sido mais apoteótico: os tricolores haviam saído na frente com o ponta Rinaldo cobrando pênalti. Os rubro-negros empataram no segundo tempo com Dionísio. E a nove minutos do fim, Rodrigues Neto bateu escanteio fechado, a defesa tricolor deixou passar, e a bola tomou o caminho das redes. Gol olímpico.

A partir dali, seguiria no elenco pelo Campeonato Carioca, disputado no segundo semestre. Atuava como segundo homem do meio-campo, fazendo a dupla (às vezes trio) do setor com nomes históricos do clube, como Carlinhos, Nelsinho e o recém-chegado paraguaio Reyes. O Fla, no entanto, vivia profunda crise técnica, que se refletiu na fraca campanha, uma das piores de sua história. Mas Rodrigues Neto se mostrava uma boa aposta para o futuro.

Num ano em que jogou de cabeça raspada, por estar servindo ao Exército, Rodrigues Neto passou 1968 entrando e saindo do time. Mas em agosto e setembro, durante uma excursão que levou o Fla à Espanha, Portugal e Marrocos, ele foi o titular da ponta-esquerda. Assim ele participou da conquista do Troféu Mohamed V, em Casablanca, no qual os rubro-negros venceram na final nada menos que o Racing, então detentor do título mundial interclubes.

RODRIGUES VIRA “TORÍBIO”

A chegada ao Flamengo de um nome que se tornaria não apenas um enorme ídolo do clube, mas também um grande amigo de Rodrigues Neto, marcaria o ano de 1969: o argentino Doval, trazido do San Lorenzo pelo técnico Tim. De cara, o mineiro ganharia um apelido, “Toríbio”, dado pelo novo reforço por uma suposta semelhança física com um amigo seu. Com o tempo, os colegas de clube, os locutores de rádio (como a dupla imortal das transmissões cariocas Jorge Curi e Waldir Amaral), e até o próprio Rodrigues Neto adotariam a alcunha.

O melhor momento do Flamengo naquela temporada veio entre o início de maio e meados de junho, na virada do primeiro para o segundo turno do Carioca, quando Tim reuniu no meio uma dupla aguerrida, solidária e incansável formada por Liminha (apelidado “Motorzinho da Gávea”) e Rodrigues Neto, e um quarteto ofensivo que tinha os talentosos Doval e Arílson nas pontas e o sempre imprevisível Fio ao lado do raçudo e exímio cabeceador Dionísio pelo centro.

Ficaram marcadas as vitórias sobre o Vasco (com um categórico 3 a 0, no qual Rodrigues Neto abriu o marcador cobrando pênalti) e o Botafogo (quando a sagacidade do treinador anulou as jogadas de Gerson para Jairzinho e Roberto Miranda no ataque alvinegro, e o Fla fez 2 a 1). Mas fora uma reação tardia: o título acabou perdido na penúltima rodada do returno, num Fla-Flu épico vencido pelos tricolores por 3 a 2, encaminhando a taça para as Laranjeiras.

UM CURINGA INSATISFEITO

Com a chegada de Yustrich, para a temporada 1970, Rodrigues Neto foi para o banco. Porém, tornou-se uma espécie de arma secreta do treinador. Por sua versatilidade, acabava sempre entrando no time durante os jogos, em diferentes posições, dependendo da necessidade. Por vezes era lateral (direito ou esquerdo). Em outras horas, era um meia de contenção, ao lado de Liminha. Podia ainda entrar como ponta-esquerda ou até ponta de lança.

Já em 1971 (um ano bem fraco de um período difícil, assim como 1967 havia sido), Rodrigues Neto começou como titular da lateral esquerda com treinador e assim continuou após sua demissão, durante a passagem dos interinos Modesto Bria e Newton Canegal, ambos ex-jogadores rubro-negros, pelo comando do time, entre maio e junho. Com a chegada de Fleitas Solich, ele voltaria a se revezar entre o meio, ao lado de Liminha, e a ponta-esquerda.

Naquela altura, considerava sua versatilidade algo negativo, já que não se firmava em nenhuma das posições. Chegara mesmo a discutir na beira do campo com o veterano Solich, treinador lendário na Gávea por ter comandado o time tricampeão carioca nos anos 1950, num jogo contra o Grêmio pelo Brasileirão, ao se recusar terminantemente a acatar a ordem de recuar da ponta para a lateral após uma alteração tática, o que só reforçou sua fama de genioso.

A GRANDE TEMPORADA DA CARREIRA

O ano de sua afirmação seria mesmo 1972. De início, a volta de Paulo Henrique deslocou outra vez o mineiro para o meio-campo (foi assim nas conquistas do Torneio de Verão, em que Fio marcou o gol contra o Benfica que o tornou o “Maravilha”, e do Torneio do Povo), mas aos poucos recuperou a vaga e tomou conta da posição, mostrando-se um lateral valente e tenaz, duro na marcação, seguro na cobertura e ao mesmo tempo com facilidade para apoiar o ataque.

Crescendo a cada partida, tornou-se um dos pontos altos de um ótimo time formado pelos rubro-negros naquele primeiro semestre. Com a contratação de nomes de peso como o meia Paulo Cézar Caju e o goleiro Renato (ambos retornando ao clube em que haviam jogado na base), mais os retornos de Doval (de volta do empréstimo ao Huracán) e Zanata (recuperado de uma fratura na perna), o Fla do técnico Zagallo levantou a Taça Guanabara – pela primeira vez incorporada como um turno do Carioca – com uma goleada de 5 a 2 sobre o Fluminense.

Mesmo assim, apesar da grande fase que atravessava, a convocação de Rodrigues Neto para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (ou “Minicopa”) em junho e julho daquele ano foi uma surpresa. Contaram pontos a seu favor seu estilo de jogo eficiente na defesa e no ataque e sua versatilidade. O lateral permaneceu quase todo o torneio na reserva de Marco Antônio. Mas pôde entrar em campo justamente na final contra Portugal, após o titular ter se lesionado ainda na etapa inicial, e ajudar o Brasil a vencer por 1 a 0.

Na sequência do Carioca, após a pausa para a Minicopa, Rodrigues se manteve como dono da lateral no clube e aclamado como o melhor da posição no torneio. Contra o Botafogo, no segundo turno, além de anular o perigoso ponteiro Zequinha, marcou um gol crucial para a vitória rubro-negra de virada por 2 a 1. Três minutos depois de Jairzinho abrir a contagem, o lateral foi à frente e acertou um chutaço de fora da área no ângulo do goleiro Wendell, iniciando a reação.

Porém, o torneio terminou mais cedo para ele: uma contusão no cotovelo esquerdo sofrida contra o Olaria, na penúltima rodada do terceiro turno, deixou o lateral de fora do triangular final, no qual o Flamengo bateu Vasco (1 a 0) e Fluminense (2 a 1) para ficar com a taça, encerrando um jejum de sete anos. Naqueles jogos, seu substituto foi um garoto de 20 anos promovido da base rubro-negra, um certo Vanderlei Luxemburgo (então, chamado apenas pelo primeiro nome).

CRISE NA SELEÇÃO, NOVO TÍTULO NO FLA

Rodrigues voltaria à Seleção no ano seguinte, convocado para uma longa excursão à Europa e norte da África que se estenderia pelo mês de junho. Curiosamente, fora chamado como lateral-direito, para a reserva de Zé Maria. Depois de quatro jogos, tomou uma decisão surpreendente: alegando dores nas costas, pediu para ser cortado e voltou ao Brasil. Como os reais motivos nunca chegaram a ser expostos, o jogador ficou tachado de rebelde.

Também pesaram em sua decisão a falta de oportunidades (estava escalado para jogar contra a Argélia, mas o técnico Zagallo voltou atrás) e os problemas familiares que enfrentava naquele momento. De todo modo, a atitude fez com que Rodrigues Neto por muito tempo se tornasse um proscrito na Seleção – exceto por uma participação no amistoso entre o time canarinho e o Flamengo, em outubro de 1976 – sendo readmitido somente alguns anos depois.

Em 1974, Rodrigues Neto conquistaria seu segundo Carioca com o Flamengo. No jovem time rubro-negro dirigido por Joubert, ex-lateral do clube, ele agora já era um dos mais velhos. No time que segurou o 0 a 0 na decisão contra um experiente e manhoso time do Vasco (que ostentava o título brasileiro conquistado meses antes), apenas o goleiro Renato, o zagueiro Luís Carlos (ex-Corinthians), o volante Zé Mário e ele tinham mais de 22 anos.

De resto, havia uma ótima garotada rubro-negra, liderada pelos meias Geraldo e Zico, que brilhou ao longo da campanha e não se intimidou no triangular final frente aos cascudos times de America e Vasco, mesmo sem poder contar com outro nome experiente, Doval, que ficou de fora das finais por lesão. O argentino, porém, estava presente ao Maracanã no dia 22 de dezembro que marcou a conquista, celebrada com um abraço no velho amigo “Toríbio”.

Participando de 25 das 27 partidas da campanha do título e marcando um gol, que fechou uma goleada de 5 a 1 sobre o Madureira, Rodrigues Neto seguia dono absoluto da lateral-esquerda no Flamengo. Enquanto isso, na direita, surgia promovido da base um jovem paraibano criado em Copacabana chamado Júnior, que entrara no time na reta final daquele Carioca e se firmaria por aquele lado pela temporada seguinte. Mas, em dezembro, haveria uma reviravolta.

O LATERAL-ESQUERDO DA “MÁQUINA”

Proposta pelo presidente do Fluminense, o jurista Francisco Horta, uma troca três-por-três com o Flamengo (após a virada do ano, envolveria também Botafogo e Vasco) agitou o meio esportivo carioca ao ser anunciada no dia 19 daquele mês. As tramas entre Horta e o mandatário rubro-negro Hélio Maurício atravessaram a madrugada e foram cercadas de expectativas. Com ambos os clubes de cofres raspados, as trocas seriam uma forma de movimentar o futebol do Rio.

No fim, os pacotes foram fechados: o Fla cedia o ídolo Doval, o experiente goleiro Renato e Rodrigues Neto. Já o Flu repassaria o goleiro reserva Roberto, o lateral-direito Toninho e o ponta Zé Roberto. Embora nitidamente o Flamengo tivesse levado a pior na negociação, a torcida tricolor também não ficou satisfeita. A imagem de temperamental do agora ex-lateral rubro-negro motivou uma pichação na sede das Laranjeiras: “Não queremos Rodrigues Neto”.

O lateral responderia às críticas em campo, mostrando a velha regularidade e atuando em 29 das 32 partidas que levaram o Flu ao bicampeonato carioca naquela temporada. Em disputa acirrada, os tricolores superaram os rubro-negros e venceram o terceiro dos três turnos, classificando-se para o quadrangular final ao lado de Vasco, Botafogo e America (vencedor da repescagem). Ao fim da fase decisiva, o empate entre tricolores e cruzmaltinos forçou um jogo extra.

Devido a um problema de falta de datas, já que o Brasileirão começaria logo na sequência, a decisão do título carioca de 1976 foi postergada do fim de agosto até o dia 3 de outubro, já com o torneio nacional em pleno andamento. Ainda assim, o jogo arrastou mais de 127 mil pagantes ao Maracanã e foi um verdadeiro teste para cardíacos. Com um gol de cabeça de Doval na prorrogação, o Fluminense bateu o Vasco por 1 a 0 e deu a volta olímpica.

A chamada Máquina Tricolor também levantou canecos fora do Brasil. Em junho, aproveitando uma pausa no Carioca para uma excursão da Seleção Brasileira, o Flu foi à Europa e faturou o prestigioso Torneio de Paris, derrotando o Paris Saint-Germain por 2 a 0 e, na decisão, uma seleção europeia dirigida por Stefan Kovacs e que incluía nomes como Billy Bremner, Wim van Hanegem, Didier Six e Rob Rensenbrink por 3 a 1 no Parque dos Príncipes.

Um dos favoritos ao título brasileiro, o Flu novamente parou nas semifinais diante de um time do Corinthians considerado tecnicamente inferior, mas que se aproveitou da grande presença de sua torcida no Maracanã bem como do impraticável estado do gramado para empatar em 1 a 1 no tempo normal e vencer nos pênaltis por 4 a 1. Para completar a frustração, Rodrigues foi um dos três tricolores a desperdiçar sua cobrança, ao lado de Carlos Alberto Torres e Rivelino.

O agridoce ano de 1976 seria seu único com a camisa tricolor. No início de 1977, ele se veria incluído em outra série de trocas promovida por Francisco Horta. Desta vez, iria para o Botafogo junto com “Búfalo” Gil e Paulo Cézar Caju, enquanto Marinho Chagas (sonho antigo do dirigente tricolor) e o lateral Miranda viriam para as Laranjeiras. Ao contrário da negociação com o Flamengo no ano anterior, desta vez a troca favoreceu ao clube de General Severiano.

NO BOTAFOGO, A VOLTA À SELEÇÃO

Embora não levantasse títulos e por vezes se perdesse em problemas disciplinares (ficaria eternizado o apelido de “Time do Camburão”, dado pelo repórter de rádio Deni Menezes), a experiente equipe alvinegra fez boas campanhas tanto no Carioca (terceiro colocado, à frente dos tricolores) quanto no Brasileiro daquele ano, no qual terminou em quinto lugar, sem perder nenhuma partida. Aliás, iniciaria ali uma longa invencibilidade que entraria para a história como a maior do futebol brasileiro, com 52 jogos sem ser derrotado.

Também naquele ano, ele seria enfim resgatado de sua “geladeira” na Seleção. Em junho, quando o Brasil teria uma série de amistosos contra equipes europeias antes de disputar o chamado “Mundialito de Cali” (segunda etapa das Eliminatórias para a Copa da Argentina), Rodrigues Neto foi chamado por Cláudio Coutinho – que então já descartara Marco Antônio – para um revezamento com Marinho Chagas. O lateral agradou com boas atuações contra Inglaterra, Alemanha Ocidental, Polônia e França, segundo como titular em Cali.

Perto da Copa, porém, Coutinho decidiu improvisar o zagueiro Edinho (que já costumava apoiar o ataque atuando em sua posição) na lateral-esquerda. E foi com o defensor tricolor no time que a Seleção estreou no Mundial contra a Suécia. O mau desempenho do time naquele jogo e no seguinte, contra a Espanha, levaram o técnico a mudar de ideia e trazer Rodrigues Neto de volta, para atuações competentes contra Áustria, Peru, Argentina e Itália.

Ficou de fora apenas do jogo contra a Polônia, na última rodada do grupo semifinal, por ter se lesionado na Batalha de Rosario, contra os donos da casa, propiciando um breve retorno de Edinho ao setor. A lesão de Rodrigues Neto também frustrou um plano de Coutinho, que iniciou com Zico e Rivelino (que voltavam de contusões) no banco e pretendia lança-los no segundo tempo. Com a necessidade de troca na lateral, apenas Zico teve a chance de entrar.

AVENTURANDO-SE NO FUTEBOL PORTENHO

Rodrigues Neto não teve mais oportunidades na Seleção depois daquela Copa. Mas logo voltaria à Argentina. Depois de disputar o Carioca de 1978 pelo Botafogo no segundo semestre, trocaria o Rio por Buenos Aires ao assinar com o pequeno Ferro Carril Oeste. Na temporada 1979, o time de Caballito começou bem o Metropolitano, com vitórias sobre Independiente e Boca Juniors, mas depois decaiu, fazendo campanha mais próximo do meio da tabela.

No Nacional, disputado no segundo semestre, perdeu a vaga nas semifinais para o Unión Santa Fé apenas no saldo de gols. Em 1980, o mesmo se repetiu: 13º colocado entre os 20 participantes do Metropolitano e terceiro no grupo do Nacional, atrás dos classificados Newell’s Old Boys e Independiente. De todo modo, e até pelas modestas ambições do Ferro Carril, suas atuações foram aclamadas, ao ponto de ser eleito o melhor em sua posição nos dois anos.

Mais ainda: em 1980 chegou a ser escalado numa seleção de Buenos Aires que enfrentou um escrete do resto do país. Ao seu lado, nomes como Daniel Passarella, Ubaldo Fillol, René “El Loco” Houseman, Miguel Ángel Brindisi e o jovem Diego Armando Maradona. César Luís Menotti, técnico campeão do mundo com Jorge Olguín e Alberto Tarantini nas laterais da Albiceleste em 1978, chegou a declarar: “É uma pena que ‘El Negro’ não seja argentino”.

CAMPEÃO TAMBÉM NOS PAMPAS

Apesar dos elogios, no início de 1981 resolveu voltar ao Brasil após o fim de seu contrato com o Ferro Carril. Transferiu-se para o Internacional, que vivia período de transição após a saída de Falcão para a Roma (e logo depois, a grave fratura sofrida por Batista que o afastou dos gramados por quase um ano). O lateral chamou a responsabilidade, levando o time às quartas do Brasileirão e, no fim do ano, conquistando o Gauchão em cima do Grêmio em pleno Olímpico.

Continuou no Colorado pelo primeiro semestre de 1982, disputando o Brasileirão e chegando a marcar contra seu antigo clube, o Flamengo, no empate em 1 a 1 no Maracanã pela segunda fase do torneio. Porém, no Beira Rio, os rubro-negros deram o troco, venceram por 3 a 2 e eliminaram o Inter. No meio do ano, voltou à Argentina com passagem discreta por um Boca Juniors em crise: fez apenas 12 jogos (incluindo um pela Libertadores) entre julho e dezembro.

Cinco anos após deixar o Rio, voltou à cidade onde desenvolvera a maior parte de sua carreira numa curiosa e malfadada experiência no pequeno São Cristóvão, no qual acumulava as funções de jogador e técnico, à frente de uma equipe repleta de veteranos como Edu (ex-Santos), “Búfalo” Gil, Orlando Lelé e Nilson Dias, financiada pelo patrono Fred Rosenberg. O chamado “Esquadrão Impacto” naufragou, arrastando-se na lanterna por todo o torneio.

Seu fim de carreira se deu em mais uma das guinadas inesperadas que marcaram sua trajetória. No fim de 1983, foi chamado para integrar um combinado sul-americano em excursão pela Ásia, com escala em Hong Kong. O time, organizado pelo empresário Juan Figer, contava com nomes como Éder, Dunga, Edevaldo, Romerito, Rodolfo Rodríguez e Figueroa. Para Rodrigues Neto, a excursão rendeu um contrato com o Eastern, clube tradicional do protetorado britânico.

O lateral, agora de novo atuando no meio-campo, chegou com a temporada 1983/84 já em andamento, mas a tempo de erguer a campanha do time na liga e de participar da campanha vitoriosa na FA Cup de Hong Kong, conquistada com vitória sobre o Zindabad por 2 a 1. O velho Rodrigues Neto, 34 anos, sagrou-se o artilheiro da campanha, com cinco gols. Um desfecho um tanto inusitado, mas glorioso para a longeva carreira.

Em seus últimos anos de vida, Rodrigues Neto vinha sofrendo com o diabetes, e morreu em decorrência de uma trombose. O Flamengo, clube o qual o jogador defendeu por 439 partidas ao longo de nove temporadas, já anunciou que custeará as despesas de seu enterro. Nas redes sociais, o clube rubro-negro, assim como o Fluminense e o Botafogo, postou homenagem ao ex-atleta, que completaria 70 anos em dezembro.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.