Futebol europeu

Zico e o seu novo desafio

Neste começo de temporada, o que podemos perceber é que a Super League grega entra no rol de campeonatos periféricos que serão acompanhados com maior atenção pela imprensa brasileira não especializada -o que não é o caso desta Trivela. O maior responsável por esta mudança de postura dos brasileiros, há de se salientar, é a presença de Zico como técnico do Olympiacos.

A presença do ex-craque no comando do clube mais vezes campeão helênico faz com que os olhos da mídia nacional se voltem para o campeonato daquele país, algo que, há de se ressaltar, não era conseguido nem por jogadores promissores -como Dudu Cearense, Leonardo e Diogo, no clube alvirrubro-, nem mesmo pela presença de um titular inconstestável da seleção -Gilberto Silva, no Panathinaikos. Não é a primeira vez que a presença de Zico faz com que os olhos da imprensa nacional se volte para um campeonato periférico. Não é necessário muito esforço para relembrar a influência que a presença do Galinho em campeonatos periféricos como o russo, o turco e o japonês tiveram nas pautas dos cadernos esportivos brasileiros.

Mas será que o inverso é verdadeiro? Seria Zico capaz de conquistar os corações dos fãs do clube grego e fazer com que sua estadia em Pireu seja longa? Esta é uma resposta difícil de ser dada num primeiro momento. Claro que Zico chega a Pireu como um homem do futebol extremamente respeitado. Odes ao futebol jogado pelo brasileiro foram lidos na confirmação da contratação de Zico em sua contratação. Porém, as opiniões quanto à sua habilidade no comando técnico de um time foram menos unânimes. Se por um lado as campanhas no Fenerbahçe e no comando da seleção japonesa foram citadas pelo lado positivo, a aparição no CSKA não trouxe grandes elogios.

Alguns fatores devem ser considerados. O primeiro deles é que o emprego de técnico do Olympiacos tem sido, nos últimos anos, um dos empregos mais ingratos do mundo. Afinal, os anos de dominação total do time alvirrubro fazem com que a sua direção e torcida não fiquem satisfeitas “apenas” com a conquista de um ou os dois títulos nacionais -Super League e Copa.

Certamente não bastará no final do ano Zico apresentar a conquista de um título nacional como único argumento para se manter no cargo por mais uma temporada. Claro que será pior se o desempenho dos Thrylos ficar no mesmo patamar do CSKA na liga russa -quando estava na quarta colocação no momento em que foi demitido. Mas mesmo a conquista de um campeonato nacional não será um argumento forte para a sua permanência. Porém, o elenco do Olympiacos é o melhor da Grécia, e não deve ser exatamente um problema para o brasileiro comandar o clube grego em mais uma campanha vitoriosa -rumo ao 13º título em 14 anos.

Ah, sim. Um parêntese. O brasileiro assinou por duas temporadas. No Olympiacos de Sokkratis Kokkalis, isso não é um fator de muita importância. E… Bom, o cargo de comando dos Thrylos não é o mais estável do mundo -podendo ser revertido a qualquer momento, desde que os resultados não aconteçam. O próprio georgeano Temuri Ketsbaia, seu antecessor no comando do clube de Pireu, foi demitido sumariamente devido aos maus resultados alcançados pelo time na pré-temporada e no começo do campeonato grego. E mesmo Ernesto Valverde, o técnico na temporada 2008-9, quase caiu depois de um mês de trabalho -depois de ser desclassificado da fase de grupos da Champions League pelo Anorthosis Famangusta dirigido por Ketsbaia.

No fim das contas, todos até estavam satisfeitos com o trabalho de Valverde, tanto que uma oferta de renovação de contrato foi feita para ele. Mas, ressentido pelo tratamento dado no começo do trabalho e também pela possibilidade dele voltar a brilhar no mercado espanhol -de onde saíra de um ótimo trabalho no Espanyol-, Valverde resolveu não aceitar a renovação do contrato.

O calcanhar de aquiles dos Thrylos é a falta de resultados convincentes no cenário europeu. E um dos fatores que decidiram a favor de Zico e de Ketsbaia foram as campanhas de ambos os treinadores na Champions League no comando, respectivamente, de Fenerbahçe (em 2007/8) e Anorthosis (em 2008/9). Com esta explicação, fica fácil saber qual é a ambição de Kokkalis e de sua fanática torcida.

No caso, esta parece ser uma boa notícia para Zico. Afinal, o grupo em que o Olympiacos está, o H, junto com Arsenal, AZ e Standard Liege, não é dos mais complicados. Assim, uma classificação para uma fase seguinte da competição não é um resultado inalcançável -pelo contrário. E uma sobrevida na competição europeia dependeria de alguma sorte no sorteio. Seria um roteiro semelhante ao realizado pelo brasileiro em 2007/8, quando levou o Fenerbahçe, um time com longa tradição de fracassos em competições europeias, a uma boa campanha na fase de grupos, superar o campeão da Copa da Uefa nas oitavas -Sevilha- e quase tirar um dos finalistas da competição -Chelsea- depois de vencer o jogo em casa. E, caso este roteiro seja repetido em Pireu, certamente fará de Zico um técnico respeitado -como na passagem pelo Fener- e não um técnico dispensável -como no CSKA.

Uma liga surpreendente

Na Süper Lig, a surpresa tem sido o mote que norteia a temporada 2009/10. Por um lado, não surpreende que Fenerbahçe e Galatasaray estejam de volta ao topo da tabela depois de uma temporada difícil. Mas a campanha perfeita dos canários amarelos, com 100% de aproveitamento depois de um ano em que ficou apenas na quinta colocação e dispensou o seu treinador -Luis Aragonés-, não era esperada. A volta de Christoph Daum -bicampeão turco no período entre 2003 e 2006-, e a contratação de nomes como Mehmet Topuz, Fabio Bilica, André Santos e Cristian fez com que o Fener ressurgisse das cinzas e se apresentasse como um dos favoritos ao título.

Por sua vez, o Galatasaray faz uma campanha honesta. É um dos times que perdeu a invencibilidade neste final de semana, ao ser derrotado por 3 a 0 pelo Ankaragucu fora de casa. De toda a forma, ainda faz uma campanha honesta, e, com 19 pontos (6v, 1e e 1d), está na segunda posição. Tem em seu comando um técnico que já foi campeão europeu -Frank Rijkaard-, e espera que esta seja uma temporada menos desastrosa do que a anterior, quando ficou apenas na quinta colocação e só entrou em uma competição europeia por ter herdado a vaga do quarto posto da Süper Lig -já que o Fenerbahçe ganhou a vaga de campeão da Copa da Turquia.

Surpresas positivas, depois de oito rodadas, podemos apontar duas. Os pequenos Bursaspor e Eskisehirspor tem apresentado boas campanhas e surgem no alto da tabela. Ficam à frente de times como o tradicional Trabzonspor, por exemplo, que aparece na sexta colocação.

O Bursaspor de Ertugrul Saglam fez boa campanha na temporada 2008/9, ficando na sexta colocação, e a campanha atual dos Timsahlar (os crocodilos) repete a dose. Saglam é o mesmo que acabou dispensado pelo Besiktas depois de pouco mais de uma temporada de trabalho no último ano. Assumiu o Bursaspor em janeiro e estabilizou a campanha dos crocodilos, terminando com uma sequência de maus resultados do clube da quarta maior cidade turca.

Da mesma região (noroeste da Turquia) vem o Eskisehirspor, equipe tradicional da região. O Es-Es é comandado por Riza Çalimbay, que inclusive chegou a ser companheiro de Saglam no Besiktas em meados dos anos 1990. Os Kirmizi Simsekler (Lanternas Vermelhas) não fizeram campanha tão consistente quanto os seus conterrâneos, mas nesta temporada tem conseguido um bom desempenho. O Es-Es perdeu a invencibilidade apenas neste final de semana, ao ser derrotado em casa pelo Kayserispor -mas, por exemplo, já havia enfrentado o Galatasaray em Istambul sem sofrer derrota.

Por outro lado, são duas as grandes decepções da temporada. Uma delas é o Besiktas, que conquistou o duplo na temporada passada. Os Kara Kartallar (Águias Negras) ainda não conseguiram se encontrar em campo e repetir o desempenho da última temporada. E, por isso, o seu treinador Mustafa Denizli está ameaçado de perder o cargo, apesar de ter sido um dos responsáveis pela conquista do duplo na última temporada. O problema tem sido o ataque, que não tem produzido, apesar de ter sido o foco do mercado do alvinegros neste último mercado. E jogadores como Rodrigo Tabata, Nihat Kaveci e Yusuf Simsek ainda não teriam se encaixado no esquema de Denizli. A vitória do final de semana, pelo placar mínimo contra o Denizlispor -que está na penúltima colocação- pode ser um alento. Ou não.

Outro time que também surpreende negativamente neste início de temporada é o Sivasspor. Os Yigidolar (Bravos) quase conquistaram o campeonato passado -ficaram a cinco pontos dos campeões Besiktas, mas estiveram próximos dos campeões até as últimas rodadas. Mas, mais uma vez, começam mal a temporada. Na Süper Lig, os bravos são apenas os penúltimos colocados, com quatro pontos em oito jogos, sem contar que já estão eliminados de todas as competições europeias -tanto da Champions League (pelo Anderlecht), quanto da Liga Europa (pelo Shaktar Donetsk). O comando do clube, com Bulent Uygun no comando, é o mesmo das temporadas anteriores. Mas a mudança quase que geral no elenco de jogadores prejudicou o estilo de jogo dos Bravos, que sofrem com isso neste começo de temporada.

Por fim, o caso Ankaraspor, clube da prefeitura de Ancara, que acabou rebaixado devido à coincidência entre as diretorias das duas equipes. O problema foi que o filho do Prefeito da capital turca acabou indicado como o manda-chuva do Ankaragucu, fato que gerou rumores sobre a fusão entre os dois times. A TFF (federação turca) proíbe que dirigentes das duas agremiações na mesma divisão tenham laços de parentesco entre eles. Justamente por isso, o Ankaraspor acabou punido pela com o rebaixamento. Você pode ler mais sobre o caso aqui.

Para quem acompanha a coluna há três anos, é um caso que pode lembrar a promoção do Genclerbirligi Oftasspor, equipe satélite do Genclerbirligi (também de Ancara, coincidentemente), à Süper Lig. Mas o fato é que, para o Oftasspor -que depois se transformou no Hacettepe- ser aceito na liga principal, a divisão total das diretorias -inclusive parentes- e dos elencos foi exigida. Como a ordem foi cumprida à risca, o Oftasspor foi aceito na Süper Lig. No caso Ankaraspor/Ankaragucu, este fato não foi obedecido. E, justamente por isso, a Süper Lig já tem um rebaixado.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo