Europa

‘Ganhei 16 troféus, mas me sentia sozinho. Não tinha emoção, nem alegria, nem tristeza’

Ex-lateral da seleção holandesa revela como sucesso no futebol conviveu por anos com silêncio, desconexão e problemas de saúde mental

Gregory van der Wiel construiu uma carreira que, aos olhos de fora, parecia irretocável. Formado no Ajax, passagem recheada de títulos pelo Paris Saint-Germain, experiência no Fenerbahçe e longos anos a serviço da seleção holandesa, incluindo a titularidade na Copa do Mundo de 2010. Um currículo que acumula troféus, jogos grandes e reconhecimento internacional — mas que escondia um vazio difícil de explicar.

Por trás do lateral-direito que enfrentava os maiores nomes do futebol europeu, existia um homem em constante conflito consigo mesmo. Anos depois de pendurar as chuteiras, Van der Wiel revelou que os momentos de maior sucesso da carreira foram, paradoxalmente, os mais silenciosos por dentro.

Ataques de pânico, sintomas depressivos e uma sensação permanente de desconexão acompanharam grande parte da sua trajetória, mesmo quando o sucesso em campo se fazia presente.

— Sabem o que é estranho? Ganhei 16 troféus, mas me sentia completamente sozinho. Estava rodeado de jogadores de classe mundial. Todos festejavam. Um dançava, outro cantava. Mas eu sentia que estava observando de fora, como se não fizesse parte — contou em um vídeo publicado no TikTok.

O lado invisível da carreira vencedora de Van der Wiel

Van der Wiel em ação pela seleção holandesa
Van der Wiel em ação pela seleção holandesa (Foto: Imago)

Segundo Van der Wiel, o sofrimento nunca foi explícito. Pelo contrário: foi cuidadosamente escondido atrás de uma postura indiferente, quase impenetrável. Durante anos, ele desempenhou um papel que enganou colegas, familiares e até a si próprio, enquanto a pressão interna só aumentava.

— Eu usava a máscara do “nada me importa”. E usava-a tão bem que ninguém percebeu que eu estava me afogando. Nem a minha família, nem os meus colegas de equipe, nem sequer eu, para ser honesto. Não sentia emoção, nem alegria, nem tristeza, nada.

O ex-jogador descreve esse período como uma existência em modo automático. Treinar, jogar, viajar, vencer — tudo acontecia sem que houvesse envolvimento emocional. O corpo seguia em frente, mas a mente permanecia desligada, como se o futebol tivesse se transformado apenas em uma sequência de tarefas a cumprir.

— Estava completamente desligado. Apenas funcionava como um robô.

Hoje, distante daquele momento, Van der Wiel tenta transformar a própria experiência em alerta. Ele reconhece que o ambiente do futebol profissional — competitivo, exposto e pouco tolerante à vulnerabilidade — contribui para que muitos atletas carreguem o peso em silêncio.

— Se agora você está num vestiário e sente exatamente o mesmo, não significa que você é fraco, és apenas humano. Não carregue esse fardo sozinho. A máscara vai quebrar. Acredita em mim, usei uma máscara durante 15 anos.

Após superar a fase mais difícil, o ex-lateral afirma querer ajudar outras pessoas que enfrentam problemas semelhantes. Para isso, lançou um programa de coaching pago, disponível online, no qual compartilha vivências e métodos de desenvolvimento pessoal.

A iniciativa, no entanto, também gerou críticas. O guru da ciência Adriaan ter Braack (conhecido como Sjamadriaan), por exemplo, questionou os valores cobrados e a abordagem adotada.

Ainda assim, o depoimento de Van der Wiel escancara uma realidade cada vez mais discutida no esporte de alto rendimento: vencer nem sempre significa estar bem. E, muitas vezes, os maiores adversários não estão do outro lado do campo, mas dentro da própria cabeça.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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