Todo mundo perde

4:56 da manhã de sábado em Muri, cidadezinha próxima à Berna, onde fica a Associação Suíça de Futebol. Um comunicado de seis páginas, vindo do Japão, faz pularem de sobressalto da cama os cartolas do futebol helvético e escreve mais um capítulo da poucas vezes bonita história da política no esporte.
O recado da Fifa veio de terras nipônicas porque a entidade realizou lá (devido ao Mundial de Clubes) o seu congresso. E ele é bem claro: a Associação Suíça (SFV) estará suspensa caso não puna o Sion com a perda de pontos até 13 de janeiro. Isso significaria deixar de disputar amistosos, as eliminatórias para a Copa do Mundo e competições internacionais de clubes (o Basel seria impedido de jogar as oitavas de final da Liga dos Campeões).
Na prática, a Fifa quer que a SFV retire 15 pontos do Sion no Campeonato Suíço. Seriam três pontos para cada uma das cinco partidas em que pelo menos um dos seis jogadores contratados de maneira supostamente irregular esteve em campo. Se isso acontecer, o Sion cairia do terceiro para o nono lugar na competição, com 16 pontos.
Mas, na realidade, o que a medida da turma de Joseph Blatter expõe é a já conhecida prepotência da entidade que cuida (cuida?) do futebol mundial e que, quase sempre por questões meramente políticas, se vê no direito de interferir nas federações que a ela são filiadas.
Por outro lado, a queda de braço também mostra a faceta de mais um desses homens capazes de tudo para defender o seu clube (no caso, Christian Constantin, o dono do Sion) e que são, para isso, incapazes de medir as consequências de seus atos.
Entenda o rolo
O imbróglio envolvendo o Sion teve início quando a Uefa anunciou que, mesmo tendo se classificado nos playoffs, o clube estava fora da fase de grupos da Liga Europa. Isso porque, nos duelos contra o Celtic, escalou os jogadores Feindouno, Gabri, Mutsch, Ketkeophomphone, Glaner e Gonçalves. Segundo a Uefa, eles não poderiam atuar por terem sido contratados por Constantin numa época em que seu clube estava proibido de trazer reforços. A proibição ocorreu porque, em 2008, o Sion havia aliciado o goleiro egípcio Essam el-Hadary, que deixou o Al-Ahly para acertar com os suíços.
Ocorre que as inscrições de jogadores são feitas primariamente na federação nacional a qual o clube é filiado. Nesse caso, portanto, a Associação Suíça de Futebol. E aí vem um suposto erro de interpretação: o Sion teria entendido que os “dois períodos” de suspensão de contratações por causa do aliciamento eram uma temporada de inverno e uma de verão. Por isso, enviou à SFV os dados dos novos atletas, solicitando as inscrições, que foram aceitas. A entidade, por sua vez, encaminhou os documentos à Uefa, que inscreveu os jogadores na Liga Europa.
Somente depois das duas partidas dos playoffs é que surgiram burburinhos de uma possível irregularidade e o então eliminado Celtic resolveu reivindicar sua classificação à fase de grupos. O clube escocês teve o pedido atendido pela Uefa – que, então, se manifestou: os tais “dois períodos” eram, na realidade, dois anos de suspensão de contratações pelo time suíço. O rolo não para por aí. Sentindo-se prejudicado, Constantin entrou com recursos na Justiça comum e na esfera desportiva. Na Suíça, os rivais do Sion começaram a pedir os pontos das partidas que tiveram a presença de pelo menos um dos seis atletas. Mas a Associação Suíça afirmou ter errado ao liberar a documentação e que, por não haver culpa do clube, o campeonato ficaria como estava.
Na semana passada, o Tribunal Arbitral do Esporte deu ganho de causa à Uefa, livrando a entidade da ameaça de ter de refazer um dos grupos da Liga Europa (o que ocorreria se a decisão favorecesse o Sion). Mas a insistência de Constantin em levar o caso adiante na esfera comum fez a Fifa tomar a drástica medida.
Se ficar o bicho pega. Se correr…
A situação dos mandatários do futebol suíço, agora, é terrível. Por um lado, eles veem a Fifa interferir arbitrariamente numa decisão interna da federação. E é bom dizer: trata-se de uma decisão meramente esportiva (a de não retirar os pontos do Sion porque foi a própria SFV quem errou na documentação). Não há nenhum ditador no governo querendo tomar conta do futebol no país ou resultados de jogos forjados por subornos de apostadores, que até dariam um aval à interferência da Fifa.
Atender à exigência de Blatter e voltar atrás na própria decisão significará perder toda a credibilidade que, bem ou mal, a SFV vem construindo nos últimos tempos.
Por outro lado, não há inimigo pior para uma federação brigar do que a Fifa. Se resolver ir para o embate, a Associação Suíça correrá sério risco de desmoronar, justamente no momento em que o futebol do país cresce. A reformulação na seleção vai caminhando a passos largos, jovens promessas aparecem e há um representante nas oitavas de final da Champions League.
O mais provável é que os cartolas suíços optem por um caminho alternativo, embora nem sempre seguro: o da negociação com a Fifa. Retirar apenas uma parcela dos pontos do Sion no campeonato, por exemplo, é uma possibilidade bastante ventilada. Outra, seria levar o caso ao Tribunal Arbitral, que provavelmente faria a SFV atender à determinação de Blatter, mas seria utilizado como um álibi para a entidade não ficar com a credibilidade afetada.
‘Euriquinho’
Todo esse problema talvez não tivesse se transformado numa enorme bola de neve se o presidente/dono do Sion não fosse Christian Constantin. O ex-goleiro profissional e atual arquiteto de 54 anos, que comanda o clube pela segunda vez (a primeira foi entre 1991 e 1997) é uma pessoa tão polêmica quanto midiática.
No que diz respeito ao “eu defendo os direitos de meu clube e dane-se o resto”, lembra bem Eurico Miranda. Quando seu time perde, não poupa críticas à arbitragem, ao campo do adversário, ao horário do jogo, o que for. Somando as duas passagens pela presidência, já trocou o técnico do time mais de 30 vezes (ele mesmo, em duas oportunidades, dirigiu a equipe).
Constantin solta frases de efeito contra os donos do poder que sempre repercutem na mídia, inclusive a internacional. Desde que o polêmico caso teve início, já disse que Michel Platini seria preso, disparou contra o modo como Blatter foi reeleito e ameaça até levar o problema à União Europeia, alegando, entre outras coisas, que seus jogadores estão sendo proibidos de trabalhar.
A maneira de ser de Constantin desperta a atenção da mídia internacional. Em novembro, ele foi convidado a visitar o jornal espanhol AS, onde concedeu uma entrevista coletiva a quase 60 jornalistas, representantes de mais de 40 veículos de comunicação de várias partes da Europa.
Além das entrevistas, o site do Sion vem sendo uma grande plataforma de protestos. Há algumas semanas, o internauta que tentava acessá-lo deparava-se com uma página inexistente e a seguinte mensagem: “Site fechado em sinal de protesto”. A seguir, a culpa era atribuída a um tal “Ichelm Latinip” (Michel Platini, com letras trocadas). Algumas horas depois, o site voltou ao normal, mas com o seguinte recado: “Pode-se excluir um clube, mas não sua página na internet”.
O mais novo protesto online do Sion também é bastante curioso. No espaço dedicado ao anúncio do próximo jogo da equipe, o site traz como adversário a própria Uefa, a quem o clube enfrentará num tribunal comum em 11 de janeiro.
De passageiro
Na outra ponta desse imbróglio, estão todos os demais clubes suíços, a seleção nacional e, claro, os torcedores, que correm sério risco de serem punidos sem ter culpa no cartório.
Não à toa, os dirigentes de todos os clubes da primeira divisão já se manifestaram contra o “modus operandi” de Constantin. Alguns pedem até a exclusão definitiva do Sion do campeonato nacional.
Mas ninguém vive situação mais dramática que o Basel, que recentemente comemorou a histórica classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões. Se a punição ameaçada pela Fifa realmente ocorrer, o time da Basileia será impedido de enfrentar o Bayern Munique no mata-mata.
O vice-presidente do clube, Bernhard Heusler, resumiu bem o sentimento dos RotBlau ao dizer que o clube está como um passageiro que, mesmo dentro do carro, não pode guiá-lo.
Para onde esse carro vai agora é uma pergunta que somente os engravatados da bola podem responder. Para o bem do futebol – aquele de verdade, jogado dentro de campo – espera-se que decisões esportivas prevaleçam e que um país inteiro não seja prejudicado. Simples assim.
CURTAS
Áustria
– Terminou a temporada de inverno na Áustria e o título simbólico ficou com o Rapid Viena. Os Artilheiros ganharam do Admira por 2 a 1 e chegaram aos 32 pontos.
– A pontuação é a mesma do Ried (que empatou por 1 a 1 com o Sturm Graz), mas o Rapid leva a melhor nos critérios de desempate.
– Já o Admira, grande sensação do primeiro terço do campeonato, termina o ano somente em quinto lugar.
– Quem voltou a decepcionar foi o Áustria Viena. Dessa vez, tomou de 3 a 0 do Red Bull Salzburg, que se recupera bem e já é o terceiro colocado.
Suíça
– Uma possível eliminação do Basel na Liga dos Campeões por causa da punição ameaçada pela Fifa colocaria o Manchester United no mata-mata. Na Suíça, há quem tema pela força política dos Red Devils.
– Com média de 12.457 pessoas por jogo, a Super League bateu seu recorde de público na temporada de inverno. Foram 12% de aumento no número de espectadores em relação ao ano passado.



