Europa

Status restabelecido

Após três temporadas consecutivas em que “intrusos” disputaram o título, a velha ordem parece restabelecida ao fim da primeira metade do Campeonato Turco. O trio de ferro formado por Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas, cada qual a sua maneira, se recuperou das desconfianças que rondavam seus nomes durante o verão. Em uma competição chamuscada pelos escândalos e cujos efeitos do regulamento ainda são uma incógnita, os três grandes tentam em conjunto reconstruir a imagem da Süper Lig.

Melhor time do primeiro turno, o Galatasaray era claramente o clube que tinha o caminho menos nebuloso na retomada de seu status. A campanha desastrosa em 2010/11, com a quebra do recorde de derrotas do clube em uma só temporada, já era o suficiente para o cenário de terra arrasada. A isto, somam-se os tiros n’água no mercado de transferências, que incluíram gastos na casa de 30 milhões de euros em jogadores que não deram certo, bem como o fim da gestão conturbada do presidente Adnan Polat, pressionado a deixar o cargo.

Ao menos para limpar a barra, os Aslanlar passaram imunes ao caso de manipulação de resultados que afetou vários de seus concorrentes. Livre de maiores problemas, o presidente Ünal Aysal teve tranquilidade suficiente para iniciar o seu trabalho. E a sua primeira grande decisão foi a contratação do técnico Fatih Terim, grande artífice do clube na melhor fase de sua história, entre 1996 e 2000.

O comandante vencedor foi o impulso inicial na montagem do elenco, ainda que com gastos tão grandes quanto na época anterior. Foram empregados 21 milhões de euros na contratação de jogadores como Fernando Muslera, Albert Riera, Emmanuel Eboué, Tomás Ujfalusi, assim como no empréstimo de Felipe Melo. Da mesma forma, a diretoria foi precisa ao trazer dois reforços a custo zero: o atacante Johan Elmander e o meia Selcuk Inan. Com a pausa prolongada na pré-temporada, Terim teve tempo para encaixar as novas peças e superar a ausência de outras importantes, como Arda Turan e Lucas Neill.

O resultado foi a criação de uma equipe muito bem azeitada em todos os setores, em que a liderança não aparece por acaso. O clube possui o melhor ataque e a melhor defesa do torneio, além do melhor passador – Selcuk Inan, com oito assistências. Nem mesmo o fantasma da temporada de estreia na Türk Telecom Arena parece assombrar e o Cimbom possui aproveitamento de mais de 80% dos pontos em casa. Dos contratados, o único nome de peso que até o momento não encontrou a melhor forma foi o jovem atacante Sercan Yildrim, que tem participado dos jogos a partir do segundo tempo.

Além disso, alguns velhos conhecidos da torcida parecem evoluir ao lado dos novos companheiros. Hakan Balta e o promissor Semih Kaya são os pilares da defesa ao lado de Ujfalusi, Eboué e Muslera. No meio-campo, com uma tradicional linha de quatro jogadores, Inan e Felipe Melo têm sido os dois melhores jogadores de toda a liga, enquanto o jovem Emre Çolak e o reabilitado Colin Kazim-Richards caem pelas pontas. E se Elmander aparece incansável no ataque, Milan Baros finalmente se afastou das lesões e já contribuiu com cinco gols e sete assistências.

Do outro lado do Estreito de Bósforo, o Fenerbahçe não parece tão sólido dos os rivais, mas teve um poder de reação bem mais impressionante para a atual Süper Lig. Da exclusão na Champions à prisão do presidente Aziz Yildirim, os Sari Kanaryalar viram a saída de alguns dos seus principais jogadores, como Diego Lugano e Mamadou Niang. Dos novatos, apenas Reto Ziegler e Henri Bienvenu se adaptaram à equipe. Restou ao técnico Aykut Kocaman confiar na legião turca, encabeçada Volkan Demirel e Gökhan Gönul, bem como em alguns estrangeiros, mais notadamente Alex, Joseph Yobo, Miroslav Stoch e Cristian – que, apesar da atitude infantil ao criar campanha para retornar ao Brasil mesmo com dois anos e meio de contrato a cumprir, é titular absoluto e tem tido grandes atuações.

Alex, aliás, mais uma vez honrou a condição de ídolo no Fener. Em meio ao turbilhão, o capitão manifestou sua integridade contra qualquer acusação e preferiu permanecer, apoiando a recuperação da equipe. Por mais um ano é o cérebro em campo, mantendo o time na briga por títulos. Ao lado domeia, o apoio incondicional da torcida também tem sido fundamental para o desempenho – mesmo que muitos torcedores prefiram fechar os olhos para a situação vivida pelo clube fora dos campos.

Completando a trinca, o Besiktas também foi afetado pela crise no futebol turco, o que culminou na prisão do técnico Tayfur Havutçu. Ao interino Carlos Carvalhal, coube domar os egos dos astros do elenco e remodelar a equipe com a chegada de algumas contratações pontuais. Ainda que a briga com Guti não tenha sido o melhor para o clima interno, o grupo tem funcionado bem, mesmo conciliando as atenções com a Liga Europa. Depois de um início instável, as Kara Kartallar devem se manter no pelotão de cima, ajudados pela boa forma de Mustafa Pektemek e Manuel Fernandes.

Entretanto, por conta do novo regulamento, que prevê um quadrangular final a partir de abril, a indefinição dá espaço para outros times surgirem. Por enquanto, o Eskisehirspor tem comprovado seu crescimento nos últimos tempos e está no G-4. Mas, com a eliminação na Liga dos Campeões, o Trabzonspor tem fôlego o suficiente para embolar a briga no segundo turno. O futebol não é igual o da Süper Lig passada, mas o artilheiro Burak Yilmaz segue inspiradíssimo. Uma escalada agora não seria surpreendente, embora o trio mantenha o favoritismo não só pela taça, mas também pela revalorização do futebol turco.

De esquema secreto a desordem declarada

O estouro da manipulação de resultados durante a última temporada atrapalhou consideravelmente a realização do Campeonato Turco, indo além da partida de grandes estrelas ou de uma alteração de regulamento arbitrária que, até o momento, só trouxe prejuízos a disputa. De uma temporada em que parecia engrandecida por uma disputa acirrada pelo título, a liga passou por um desprestígio severo, tanto de confiabilidade de seus resultados quanto de exposição – o que, seis meses depois das primeiras notícias, é possível analisar com a cabeça mais fria.

Contribuindo para a queda livre do Campeonato Turco esteve a forma como as autoridades do país trataram o terremoto de denúncias. A começar pela abertura da lei local sobre casos do tipo. Foram centenas de prisões diante de informações pouco conclusivas. Paralelo a isso, o parlamento parecia conivente com os acusados e, mesmo com as investigações correndo, reduziram em um quarto a pena máxima pela manipulação de resultados. Somente depois das manobras e de cinco meses desde o estouro da bomba é que os indiciamentos foram concluídos. Ficou a clara impressão de que a justiça local tarda e que está muito suscetível a falhas.

Somado a tudo isso, está a atuação risível da Federação Turca de Futebol no âmbito esportivo. De braços cruzados para os clubes, a única atitude foi a mudança nas regras da Süper Lig, criando um quadrangular final, na justificativa de que jogos entre rivais ao título impediriam a manipulação – mas se esquecendo que justamente a final da Copa da Turquia foi um dos 19 jogos denunciados. Da mesma forma, a Uefa pediu pela eliminação prévia do Fenerbahçe na Liga dos Campeões, incluindo o Trabzonspor (outro dos suspeitos) e mantendo o também manchado Besiktas na Liga Europa.

É bom deixar claro que o indiciamento não significa a comprovação da culpa dos acusados. Pelo contrário, o que está tentando se fazer é achar provas suficientes que dêem coro às investigações. Não se pode, no entanto, agir como se nada tivesse acontecido, conforme feito pela federação. Os clubes deveriam se manter em atividade de outra forma, mas não com a Süper Lig, que seguirá com a imagem bastante arranhada pelos próximos anos.

Diante de um caso de tamanhas proporções, uma temporada de exceções poderia ter sido realizada. O foco deveria estar na conclusão do trabalho da justiça,. Ainda que derrubasse a reputação dos times do país, seria uma maneira de lidar com o problema muito mais franca do que a impunidade vista até o momento. De qualquer forma, o caminho tomado pelo Campeonato Turco foi outro. E as perspectivas de uma rápida moralização não são tão grandes assim.

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Equipe Trivela

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