Europa

Soldados entram em campo para celebrar uma das grandes histórias do futebol: a Trégua de Natal

O Recreation Ground está longe de ser um dos estádios mais importantes da Inglaterra. Com capacidade para 7,5 mil torcedores, é a casa do Aldershot Town, modesto clube da quinta divisão. Nesta quarta, no entanto, o acanhado campo recebeu um duelo de enorme significado. Soldados britânicos e alemães se enfrentaram para relembrar a história da Trégua de Natal de 1914. O momento em que os exércitos deixaram as trincheiras da Primeira Guerra Mundial para jogar futebol em pleno front.

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Igual a tantos outros episódios inspiradores de Natal, há muito de mito que se confunde com a verdade. E, assim como o Papai Noel se tornou um trunfo comercial no último século, a trégua natalina passou a ser supervalorizada por aqueles a quem interessava superestimar o episódio – como dirigentes e empresas ligadas ao esporte. De fato, imaginar soldados inimigos correndo atrás da mesma bola, em uma terra pela qual eles se matavam, é sensacional. Só que, segundo os historiadores, o episódio acabou restrito a apenas algumas trincheiras. O futebol era mais um elemento, em meio a músicas, cigarros e histórias compartilhadas.

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Tem quem conte mesmo a existência de um grande duelo entre Alemanha e Reino Unido, vencido pelos germânicos por 3 a 2. Pode ser que tenha acontecido, da mesma forma como São Nicolau viveu na Ásia Menor durante o Século IV. O que a história nos afirma com um mais de certeza é a existência de um momento de trégua no Front Ocidental, como já havia acontecido outras vezes nas semanas anteriores. Eram acordos informais em alguns trechos das trincheiras, oportunidade para recuperar soldados feridos, enterrar os mortos e reconstruir as proteções.

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A aproximação do Natal fez com que o Papa Bento XV propusesse a ampla trégua, o que acabou rejeitado pelos comandantes da guerra. Ainda assim, os soldados receberam presentes de seus países, na tentativa de elevar o moral no front. Sob rigoroso frio, o clima festivo permitiu que inimigos saíssem de suas proteções e se conhecessem em “terra de ninguém”, confraternizando com trocas de presentes e pequenos bate-bolas – mas dificilmente um jogo mais organizado. Enquanto isso, a sangrenta guerra continuava se deflagrando no Natal de outras partes do front. E a notícia das pequenas tréguas desagradou os oficiais do alto-escalão, que repreenderam seus homens e demonizaram os inimigos. A paz nas trincheiras não foi mais repetida ao longo da guerra, embora já tivesse se eternizado na história e no imaginário.

A partida desta quarta-feira talvez tenha sido emblemática também por repetir as pequenas proporções daqueles eventos há 100 anos. Pouco mais de 2,5 mil pessoas foram ao Recreation Ground assistir ao jogo entre alemães e britânicos. A maioria nas arquibancadas eram justamente soldados, na cidade que é considerada a casa do exército do Reino Unido. Viram um jogo de futebol sem tanta classe, com vitória dos anfitriões por 1 a 0.

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Maior que a verdadeira história ou o jogo comemorativo, entretanto, é a mensagem. “Foi um momento em que a humanidade prevaleceu durante a guerra. Se apenas os soldados fossem capazes de seguir em frente, talvez aquela trégua marcasse o início do fim da guerra”, analisou Brian May, um dos militares presentes nas arquibancadas. O que fica é a esperança, e a forma como o futebol pode servir de válvula de escape para a realidade, por mais dura que seja.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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