Europa

Que sirva de exemplo

A decisão da Liga de Futebol Suíço em excluir o Neuchâtel Xamax do campeonato nacional expõe um problema que pode ser comum a clubes no mundo todo: o perigo de se entregar administrativamente a um suposto salvador da pátria.

O Xamax teve sua licença retirada por não apresentar garantias financeiras de que pode disputar a Super League (já havia perdido oito pontos por atrasar salários) e por ter falsificado um documento bancário que comprovaria essas garantias. Com a decisão, anunciada na semana passada, a segunda parte do Campeonato Suíço terá apenas nove times, que tiveram a pontuação mantida – quem jogaria contra o Xamax folga na rodada.

Correta do ponto de vista legal suíço, a sentença da Justiça Desportiva helvética expõe ao mundo um problema muito sério: o perigo de se vender um clube. Afinal, a derrocada do Xamax começou desde que o magnata checheno Bulat Chagaev o comprou, em maio, numa transação tão misteriosa quanto a origem do dinheiro dele.

O que Chagaev fez para os torcedores de Neuchâtel é muito grave e vai além das polêmicas que ele protagonizou nos últimos meses, como demitir técnicos e jogadores como se trocasse de roupa. Ele simplesmente pode ter decretado o final da existência de um time que, se não é dos maiores, tem lá sua tradição e seus títulos, como o bicampeonato nacional em 1986/87 e 1987/88.

Agora, o Xamax precisa começar do zero, inscrevendo-se na próxima temporada numa das ligas regionais, que são as divisões inferiores do futebol suíço. A menos que o clube obtenha sucesso no recurso em âmbito judicial (o que é muito difícil), um possível retorno à elite só ocorrerá dentro de campo e daqui alguns anos. E ainda há uma dívida enorme para pagar, estimada em quase R$ 70 milhões.

É evidente que o checheno é o grande culpado pelo sofrimento da torcida do Xamax. Mas não é o único. Não se pode esquecer, por exemplo, do empresário Sylvio Bernasconi, que foi quem resolveu vender o clube. Nem dos conselheiros que aprovaram a venda numa reunião de apenas 24 minutos, que não teve nem mesmo a presença de Chagaev. Eles se encantaram com a promessa de que rios de dinheiro passariam pelos cofres do time, que seria montado com objetivo de ser campeão nacional. E caíram do cavalo.

Bulat Chagaev, dessa vez, passou dos limites. Não por invadir o vestiário acompanhado de seguranças armados para cobrar os jogadores após uma má atuação. Nem por sua ligação com Ramzan Kadyrov, presidente da Chechênia. Tampouco ainda por não revelar de onde vem sua suposta fortuna ou por fazer ameaças a quem “ousa” lhe contestar.

Chagaev passou dos limites porque riscou do mapa um time importante e deixou órfãos milhares de torcedores. Ainda que haja uma grande união de forças em Neuchâtel (cidade de 32 mil habitantes), será muito difícil reerguer o Xamax. Ainda mais agora que os conselheiros do clube descobriram que Papai Noel não existe.

Tristeza e decepção da torcida à parte, o caso deixa um sinal de alerta para clubes do mundo todo: a importância de refletir muito antes de acreditar que a solução para resolver seus problemas financeiros e estruturais é se entregar a um endinheirado. Porque, às vezes, o que era ruim pode ficar muito pior.

CURTAS

ÁUSTRIA

– Má notícia para o Áustria Viena e para a seleção austríaca. O goleiro Pascal Grünwald sofreu uma luxação no ombro durante os treinamentos, terá de passar por cirurgia e ficará cinco meses afastado dos gramados. O clube anunciou que procura um substituto.

– Pela quinta vez, o capitão Steffen Hofmann foi eleito pelos torcedores do Rapid Viena o jogador do ano. O meio-campista alemão já havia ganho a votação em 2004, 2005, 2007 e 2009.

– A Áustria perdeu uma posição no ranking da Fifa, caindo do 70º para o 71º lugar. Agora, está atrás do Uzbequistão.

– Os dirigentes do Sturm Graz decidiram manter o logotipo do patrocinador no distintivo do clube.

SUÍÇA

– Quem se deu bem com a punição ao Xamax foi o Sion, outro clube que tem alguém nada ortodoxo no comando, Christian Constantin. Depois de ser punido com a perda de 36 pontos por desafia a Fifa na Justiça Comum e ter o rebaixamento praticamente decretado, o clube vê agora uma luz no fim do túnel.

– Isso porque, segundo a Liga de Futebol Suíço, não haverá rebaixamento direto nesta temporada. Dos nove participantes, quem terminar em último lugar jogará o playoff contra o vice-campeão da segunda divisão.

– Mais feliz ainda está o Lausanne. De campanha pífia, assistiu de camarote às punições de Sion e Xamax e agora está praticamente livre da degola.

– A coletiva de imprensa em que foi anunciada a revogação da licença do Xamax ficou marcada pela inusitada presença de seguranças. Questionados a respeito, os dirigentes da Liga de Futebol Suíço admitiram que se tratava de uma dose de cautela. Eles temiam que Bulat Chagaev em pessoa ou alguém a mando dele pudesse aparecer no local para causar tumulto.

– A seleção da Suíça subiu uma posição no ranking da Fifa e agora ocupa a 16ª colocação.

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