Pirlo em Moscou: Como visita à Rússia colocou ex-meia no centro de polêmica internacional
Presença do campeão mundial em ação organizada por empresa russa de apostas gerou indignação entre ucranianos, políticos europeus e torcedores
A participação de Andrea Pirlo em um evento esportivo realizado em Moscou colocou o ex-craque italiano no centro de uma onda de críticas internacionais. Campeão mundial com a Itália em 2006 e dono de uma trajetória consagrada por clubes como Juventus e Milan, o ex-meia viu sua imagem associada a um contexto político delicado após aparecer ao lado de figuras ligadas ao Kremlin (sede do governo russo) justamente no dia em que a Rússia intensificou ataques contra Kiev.
Pirlo esteve em Moscou no último domingo (24) para participar do chamado “Dia do Futebol”, evento organizado pela casa de apostas “Fonbet”, uma das maiores empresas do setor na Rússia. A programação reuniu partidas festivas, sessões de autógrafos e encontros com torcedores no Estádio Luzhniki, palco da final da Copa do Mundo de 2018. Ao lado dele também estava o ex-zagueiro italiano Marco Materazzi.
As imagens que circularam nas redes sociais rapidamente ganharam repercussão negativa. Pirlo foi fotografado ao lado do atacante russo Artem Dzyuba, ex-capitão da seleção russa. Durante o evento, Dzyuba chegou a afirmar publicamente que sentia orgulho de ser russo, declaração que ampliou ainda mais o simbolismo político do encontro.
A indignação aumentou porque a celebração aconteceu no mesmo dia em que Moscou lançou um dos ataques mais pesados contra Kiev desde o início da guerra. Segundo autoridades ucranianas, drones e mísseis atingiram áreas civis da capital e deixaram quatro mortos e dezenas de feridos.
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Contrato de Pirlo com empresa russa já havia provocado críticas
A presença de Pirlo em Moscou não foi o primeiro episódio envolvendo o italiano e a Rússia desde o início da guerra na Ucrânia. Em outubro do ano passado, o ex-jogador já havia sido alvo de questionamentos após assinar contrato como embaixador global da Fonbet. Na ocasião, a empresa anunciou a parceria celebrando a chegada de um campeão mundial e bicampeão europeu à sua equipe de representantes internacionais.
O acordo gerou forte reação principalmente entre veículos e torcedores ucranianos. O portal “news.telegraf” descreveu Pirlo como o “parceiro lendário do jogador ucraniano Andriy Shevchenko, que se vendeu à Rússia”. Nas redes sociais, mensagens acusando o italiano de priorizar dinheiro em detrimento de princípios éticos se espalharam rapidamente.
As críticas também ganharam força por conta das ligações atribuídas à Fonbet, já que a empresa é frequentemente associada à autoridades russas. Antes da invasão da Ucrânia, a casa de apostas mantinha parceria regional com o Milan em território russo. O clube italiano, no entanto, decidiu encerrar o acordo em 2023, afirmando que a medida representava um gesto de solidariedade ao povo ucraniano.
A repercussão negativa envolvendo Pirlo e Materazzi ganhou dimensão política e esportiva. Um dos posicionamentos mais duros veio do atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych. Em publicação nas redes sociais, ele criticou diretamente o italiano ao lembrar que os ataques russos daquele dia atingiam civis ucranianos enquanto ex-estrelas do futebol participavam de ações festivas em Moscou.
— Hoje ocorreu um dos maiores ataques russos, durante o qual 600 drones e 90 mísseis foram lançados contra a Ucrânia. Também hoje, a lenda do futebol italiano Andrea Pirlo foi vista em Moscou ao lado do jogador russo Dzyuba, que apoia abertamente a política do Kremlin e o assassinato de ucranianos. É triste ver ídolos da infância se transformarem em falidos morais para quem nada é mais valioso do que rublos russos. Vergonha — escreveu Heraskevych no “X”.
Today was one of the largest Russian attacks, during which 600 drones and 90 missiles were launched at Ukraine.
Also today, Italian football legend Andrea Pirlo was spotted in Moscow next to Russian footballer Dzyuba, who openly supports the Kremlin’s policy and the killing of… pic.twitter.com/FXWk4XSd1e
— Vladyslav Heraskevych OLY (@heraskevych) May 24, 2026
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Defesa de Pirlo e reação no cenário político
As críticas ultrapassaram o ambiente esportivo e chegaram à política europeia. A vice-presidente do Parlamento Europeu, Pina Picierno, afirmou que a atitude do ex-jogador representava uma “grande vergonha”. Para ela, o fato de um campeão mundial participar de eventos públicos em Moscou enquanto civis morriam em bombardeios demonstrava falta de sensibilidade diante da gravidade do conflito.
— O dinheiro pode comprar muitas coisas. Pode até, inacreditavelmente, levar um campeão esportivo a autografar bolas de futebol em Moscou no mesmo momento em que um regime está matando civis indiscriminadamente e ameaçando países europeus. O que o dinheiro não pode comprar, no entanto, é credibilidade, integridade e a capacidade de se posicionar nos assuntos mundiais com honra e firmeza. É uma grande vergonha que Pirlo evidentemente não tenha compreendido essas coisas — disse Pina.
Diante da pressão, Pirlo decidiu se pronunciar oficialmente. O ex-meia assegurou que sua viagem teve motivação exclusivamente esportiva e negou qualquer intenção política.
— Viemos aqui exclusivamente pelo esporte e pelas crianças. O futebol tem o poder único de unir as pessoas, de superar fronteiras e de oferecer um momento de alegria, especialmente para as crianças que sonham em se tornar jogadores de futebol. Nossa presença em Moscou está ligada unicamente à nossa paixão pelo jogo e ao carinho dos torcedores que sempre nos apoiaram ao longo de nossas carreiras — explicou Pirlo.
Materazzi adotou discurso semelhante. O ex-zagueiro deixou claro que estava na Rússia apenas para celebrar o futebol e encontrar fãs. Segundo ele, “a bola fala uma linguagem universal” e o entusiasmo das crianças presentes no evento era o único aspecto relevante daquela ocasião.