Chato e visionário: Paulo Otávio revela como Glasner mudou sua carreira e aconselha brasileiros do Forest
Lateral do Al-Sadd, que deixou o Brasil aos 21 anos sem sequer disputar a Série A, conta à Trivela como o técnico austríaco transformou sua vida na Europa
Quando Paulo Otávio olha para trás, a decisão que tomou aos 21 anos foi determinante para a sua carreira. O lateral tinha contrato com a Tombense e enxergava o Campeonato Mineiro como uma oportunidade de chamar atenção de um clube maior no Brasil. Revelou em entrevista à Trivela que, se não conseguisse, já tinha outro plano: voltar para casa e estudar. Foi então que apareceu uma proposta do LASK, da segunda divisão austríaca.
A primeira reação de Paulo foi: “Onde é?”. Ele descobriu que a Áustria fazia fronteira com Alemanha e Itália e estava no centro do futebol europeu. Mais importante, porém, foi o encontro com Oliver Glasner.
Anos depois, estaria com o treinador no Wolfsburg e alcançaria os principais momentos de sua carreira. Hoje, aos 31 anos e no Al-Sadd, o brasileiro é uma das melhores fontes para explicar o treinador que agora tenta construir uma nova história no Nottingham Forest. E a mensagem de Paulo para os brasileiros do elenco inglês — Murillo, John, Jair Cunha e Igor Jesus — é simples: é preciso ouvir.
Trivela: Futebol europeu por quem entende
Do Brasil à segunda divisão da Áustria, até o encontro com Glasner
Paulo Otávio não romantiza a saída precoce do Brasil. Ele sabia que não tinha seguido o caminho mais tradicional e que dificilmente conseguiria repetir histórias excepcionais como a de Gabriel Martinelli, que deixou o Ituano diretamente para o Arsenal. “Isso acontece com um em um milhão”, diz.
Na Tombense, revelou à reportagem que recebia cerca de R$ 6 mil e tinha a consciência de que aquele salário poderia representar um teto caso não conseguisse evoluir. Precisava tomar uma decisão.
“Eu tinha muito claro na minha cabeça que precisava ter um bom contrato para não ficar rodando e passando por dificuldades no futebol. Se eu não chegasse nisso, eu voltaria para casa e iria estudar”, conta.
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Estar perto de Alemanha e Itália significava estar em um mercado onde poderia ser observado e, quem sabe, alcançar um patamar maior. O LASK acabou sendo o primeiro grande degrau: ele participou da campanha que levou o clube à promoção para a primeira divisão austríaca em 2016/17 e começou ali a construir a relação que mudaria sua carreira.
Antes mesmo de estrear pelo LASK, tentou entender o treinador que encontraria na Europa. Perguntou ao compatriota Fabiano, então companheiro de equipe, como Glasner gostava de jogar. A resposta foi direta: pressão, intensidade e trabalho.
Paulo, porém, ainda carregava uma característica comum aos laterais brasileiros. Estava acostumado a interpretar a posição quase como a de um ponta. Fabiano, preocupado com sua adaptação, tentou convencê-lo do contrário: precisava defender. Glasner interveio:
“Ele tem que atacar. Porque, se ele defender, eu vou tirar ele”, disse Glasner, segundo a lembrança do lateral.
A frase ajudou a estabelecer uma relação baseada em confiança. O treinador deixou claro que acreditava no jogador, mas também que esperava que ele entendesse exatamente aquilo que o sistema pedia. “Confiança é tudo na vida de um jogador”, resumiu o lateral.
O rebaixamento, a mensagem de Glasner e a ida para o Wolfsburg
A relação continuou mesmo quando Paulo Otávio deixou o LASK para jogar no Ingolstadt. Os dois mantiveram contato, e Glasner acompanhava sua situação. Enquanto Paulo enfrentava dificuldades na segunda divisão alemã, o treinador havia assumido o Wolfsburg. Então veio uma das situações mais marcantes da carreira do brasileiro.
O Ingolstadt foi rebaixado para a terceira divisão. Paulo estava no carro, voltando para casa depois da derrota que confirmou a queda, quando recebeu uma mensagem de Glasner. O treinador sabia que aquele era um momento difícil, mas também lembrava que o brasileiro tinha uma cláusula no contrato — e iria acioná-la.
“Na época, eu falei com o Fabiano: ‘O seu pai foi para o Wolfsburg, vamos se ele vai lembrar da gente'. Depois, ele (Glasner) me ligou e perguntou: ‘Você quer vir para o Wolfsburg?'. Respondi: ‘É óbvio. Onde é que eu assino?'”, conta Paulo, aos risos.
O reencontro foi oficializado em 2019. O Wolfsburg contratou Paulo Otávio por quatro anos. Ele considera que sua passagem pela Alemanha transformou sua maneira de entender a própria posição. No Brasil, estava acostumado a pensar primeiro no ataque. Na Europa, percebeu que um lateral não poderia simplesmente abandonar sua posição esperando que um companheiro corrigisse o espaço.
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“Por exemplo, o Real Madrid de Marcelo e Coentrão, tinha jogo que jogava com o Coentrão, para defender, e tinha jogo que era o Marcelo, mais ofensivo. Talvez se o Marcelo marcasse como Coentrão, o Coentrão nunca jogaria”, analisa.
O trabalho de Glasner teve influência direta nisso. Ele utilizava vídeos, explicava os movimentos e cobrava que cada jogador entendesse o espaço que deveria ocupar. Para Paulo, foi uma espécie de curso intensivo de futebol.
A transformação também coincidiu com um dos melhores momentos coletivos de sua carreira. O Wolfsburg terminou a Bundesliga 2020/21 na quarta colocação e garantiu vaga na Champions League. E Paulo percebeu outro traço de Glasner: a disposição para lançar jogadores jovens quando entendia que estavam preparados. Foi assim, segundo ele, que Omar Marmoush recebeu uma oportunidade no Wolfsburg. “Ele sempre lançava um moleque novo”, lembra.
Marmoush seguiria com Glasner quando o treinador foi ao Eintracht Frankfurt, onde o egípcio explodiu em alto nível. Paulo revela à Trivela que teve conversas para ir ao Frankfurt, mas uma lesão e a posterior saída do austríaco do clube minaram as negociações.
O conselho de Paulo Otávio aos brasileiros do Nottingham Forest
É essa experiência que faz Paulo Otávio aconselhar os compatriotas do Nottingham Forest. Glasner assumiu o clube em 2026 e encontrou uma equipe com vários brasileiros. O Forest já começou a pré-temporada utilizando uma linha de três defensores, com Jair e Murillo entre os titulares, algo bastante compatível com o modelo que Glasner costuma utilizar.
Paulo Otávio acredita que o maior desafio para os brasileiros será compreender rapidamente o nível de exigência do treinador.
“Ele vai soar como um cara muito chato, porque ele é muito exigente. Ele olha para você e fala: ‘Eu quero A’. Se você não fizer ‘A’, ele vai te encher o saco até você fazer ‘A’”, brincou.
Our Murillo has signed a new contract, extending his stay with the Club until the summer of 2030! ✍️
— Nottingham Forest (@NFFC) May 23, 2026
“Se os caras entenderem que tudo que ele falar pode ajudar a longo prazo, acho que vai ficar muito mais fácil”, aconselha. Acredita que Murillo e Jair podem repetir parte do caminho que ele próprio percorreu. Trata-se de aceitar a metodologia, compreender os movimentos e entender que a exigência inicial faz parte do processo.
“Ele é aquele cara bem ‘pai’: te cobra na frente de todo mundo e, quando está só você e ele, fala: ‘Eu confio em você’.”
Glasner foi o treinador que mais marcou sua trajetória, mas Paulo também acumulou experiências com nomes de peso no futebol europeu. Trabalhou brevemente com Mark van Bommel no Wolfsburg e guarda a lembrança do treinador brincando com seus carrinhos:
“Ele ficava me zoando, me chamava de grätsche, que é ‘carrinho’ em alemão. Ele ficava mostrando os carrinhos que ele dava quando jogava no Milan. ‘Olha, Paulo, esse aqui é o mais legal que eu já dei’. Aí era um carrinho que ele deu contra a Inter”, lembra.
Paulo também mostra gratidão a Niko Kovac, que sucedeu Glasner no Wolfsburg, principalmente por confiar no brasileiro depois de uma lesão — que, inclusive, fez Micky van de Ven crescer no time. Já no Al-Sadd, trabalhou com Roberto Mancini e o colocou como um dos grandes nomes do futebol mundial.
A escolha entre fama e dinheiro
Passar por diferentes escolas ajudou a transformar Paulo Otávio em um jogador que enxerga o futebol de maneira diferente daquele lateral que deixou a Tombense. No Catar, ele divide o vestiário com brasileiros como Roberto Firmino e Claudinho, e considera que o nível competitivo da liga vem crescendo, embora ainda existam diferenças em relação ao futebol europeu.
Ele rejeita, porém, a ideia de que jogar no Oriente Médio signifique necessariamente abandonar a ambição esportiva. Cita justamente Firmino como exemplo: aos 34 anos, o atacante continua treinando em alto nível e, segundo Paulo, o “Pastor” está entre os jogadores que mais correm na equipe.
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A própria escolha de Claudinho também é vista assim. O meia, que optou primeiro pelo futebol russo e depois pelo Catar, é considerado por Paulo o jogador mais talentoso com quem já atuou.
“Claudinho é uma piada jogando. Dá gosto de ver. Eu acho que a torcida no Brasil que esperava que ele tivesse sequência na Seleção, quem acompanhou ele no Red Bull, tem razão. Mas no futebol, você tem que fazer escolhas”, avalia.
Para o lateral, existe uma realidade inevitável na carreira de um jogador profissional: nem sempre é possível maximizar dinheiro, fama e protagonismo ao mesmo tempo. “Às vezes, a fama não vai comprar o seu dinheiro, e o seu dinheiro talvez não vai comprar sua fama”, refletiu.
Voltar ao Brasil? O sonho segue vivo
Depois de mais de uma década longe do país, Paulo Otávio ainda guarda um desejo que nunca abandonou: jogar no Brasil. Aos 31 anos, ele nunca disputou a Série A. Gostaria de defender um grande clube, realizar um sonho pessoal e também familiar.
A família, inclusive, é dividida entre Corinthians e São Paulo. O próprio jogador brinca que gostaria de viver a experiência de atuar em um dos grandes clubes paulistas. Mas existe uma questão que tornou essa possibilidade mais complexa com o passar dos anos: segurança.
Pai de três filhos, ele não pensa mais apenas na própria carreira. Uma eventual volta significaria também mudar a rotina da família e conviver com uma pressão que, segundo ele, é muito diferente daquela que encontrou na Europa e no Catar.
“Você não sabe se vai ser aceito, se o seu filho vai receber alguma ameaça na escola. Eu tenho sonho, sim, de jogar no Brasil, mas a gente tem que colocar tudo numa balança e realmente ver se vale a pena.”
A frase combina com a trajetória de Paulo Otávio. Desde os 21 anos, ele tomou decisões pensando não apenas no próximo jogo, mas no caminho que poderia construir. Foi assim quando trocou a Tombense pela segunda divisão austríaca. E foi assim quando aceitou viver longe do Brasil para construir uma carreira que jamais parecia garantida.
Hoje, olha para trás sem arrependimentos. Se pudesse resumir o momento atual em uma frase, escolheria justamente aquilo que marcou sua trajetória desde o começo: continuar realizando os sonhos que tinha quando criança.
E, entre os muitos sonhos que já realizou, talvez nenhum seja mais simbólico do que o de ter chegado à elite do futebol europeu por uma estrada que começou muito longe dela.