Europa

Nos 50 anos de Litmanen, a coleção completa de gols do fantástico camisa 10 do Ajax nos anos 90

O Ajax que conquistou a Champions League em 1995 tinha uma das melhores formações do futebol europeu nas últimas décadas. Louis van Gaal contava com um talento abundante em todos os setores, com jogadores muito capazes individualmente, mas que também compunham um coletivo brilhante. E num time montado essencialmente com atletas locais, um toque a mais de qualidade era garantido por um dos raros estrangeiros no elenco. Jari Litmanen não tinha o apelido de “Rei” à toa. O camisa 10 fazia mágica com a bola e simbolizou tempos fantásticos dos Ajacieden. É o maior jogador da história da Finlândia, que completa 50 anos neste sábado.

Litmanen surgiu como o maestro perfeito àquele Ajax. Tanto seu pai quanto sua mãe eram jogadores, o que contribuiu para o garoto finlandês virar fã de Maradona e da Seleção Brasileira nos anos 1980. Além do mais, era um apaixonado pelo esporte, que adorava estudar o futebol. Pela arte de seus pés e pela filosofia de vida, viraria pupilo de Van Gaal, num time que ajudaria a revolucionar a Champions na década de 1990. Era o camisa 10 de excelente visão, de habilidade nos dribles, de finalizações precisas. Colecionou golaços e grandes atuações. Mais importante, ergueu muitos títulos, incluindo ainda cinco da Eredivisie. Se as passagens por Barcelona e Liverpool não foram à altura de seu talento, Liti permanece como lenda em Amsterdã.

Para comemorar os 50 anos de Litmanen, o Ajax decidiu publicar uma compilação com todos os seus gols 136 pelo clube. São quase 30 minutos que apresentam toda a excelência de um dos melhores jogadores da história dos Ajacieden. Para quem preferir uma versão mais curta, há também uma compilação dos 10 melhores tentos, escolhidos pelo próprio Ajax anos atrás. Abaixo, também reproduzimos um texto publicado aqui na Trivela em 2019, que detalha a idolatria do Rei em Amsterdã.

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As lembranças de Litmanen, o camisa 10 fabuloso de anos inesquecíveis ao Ajax

Publicado em 8 de maio de 2019

Antes que a Lei Bosman começasse a ditar o fluxo do mercado de transferências europeu, o Ajax fazia as suas incursões em ligas de outros países. Boa parte dos estrangeiros adicionados ao seu elenco nas décadas anteriores vinham dos países nórdicos – em especial, da Dinamarca, de íntima ligação com os Godenzonen. Porém, a Finlândia logo se tornou um território a se explorar. O primeiro jogador da nação a desembarcar no clube foi Petri Tiainen. O meio-campista permaneceu no plantel entre 1985 e 1988, mas disputou apenas 19 jogos e logo retornou à sua terra natal. A grande aposta dos Ajacieden aconteceu em 1992. Naquele ano, foram ao MYPA buscar um armador que despontava na liga local. E nunca se arrependeram do dinheiro investido em Jari Litmanen. O camisa 10 se tornou um dos símbolos do time, em anos fantásticos na Liga dos Campeões.

Filho de pai e mãe jogadores de futebol, Litmanen cresceu admirando Maradona e também o futebol da seleção brasileira. Absorveu o conhecimento adquirido à genética propensa ao esporte. Tinha 21 anos quando chegou a Amsterdã, já com uma reputação respeitável pela maneira como destruía as defesas no Campeonato Finlandês. Havia feito suas primeiras aparições nas competições europeias, defendia a seleção de seu país e outros clubes cresciam o olho sobre seu futebol – incluindo Barcelona, Leeds United e PSV. O Dinamo Bucareste quase se tornou seu destino, em negócio que ruiu nas últimas partes das tratativas. A sorte sorriu ao camisa 10, levando-o ao Ajax. Se a primeira temporada marcou sua adaptação, a segunda o colocaria como um dos protagonistas da equipe.

Litmanen, afinal, tinha sede por jogar futebol. Se para os torcedores ele era o “Kuningas”, o Rei, ou “Merlin”, em referência ao mago, aos companheiros o finlandês aparecia como o “Professor”. Com sua personalidade serena, mas firme, era interessado por tudo o que acontecia no futebol e conhecia bastante sobre a modalidade. Parecia o jovem perfeito para absorver tudo o que o Ajax poderia oferecer. E este “tudo” inclui principalmente o que os Godenzonen já começavam a construir em campo, sob as ordens de Louis van Gaal.

O camisa 10 se encaixaria no sistema não apenas como um meia de visão ímpar, capaz de quebrar as defesas com seus dribles e seus passes. Liti também foi um goleador nato, o cara que chamava a responsabilidade para si e decidia com a qualidade de seus chutes. Era uma sombra aos centroavantes, sempre aproveitando os espaços para atacar. Além do mais, desempenhava um papel tático importantíssimo, pressionando a saída de bola adversária e imprimindo o Futebol Total em seu estado mais puro. Intuitivo e confiante, era um dos melhores exemplos de “jogador completo” da época. Algo que se ampliava seu brilhantismo, expresso pela habilidade e pelas pinturas.

A aposta do Ajax em Litmanen foi enorme, mesmo depois de passar seus primeiros meses com o quadro reserva. Ele terminou escolhido por Louis van Gaal para ser o sucessor de Dennis Bergkamp e recebeu a camisa 10 do velho craque, vendido à Internazionale. Foi a deixa para que o finlandês começasse a voar. Em 1993/94, conduziu os Godenzonen ao título do Campeonato Holandês. Terminou eleito como o melhor jogador e também faturou a artilharia da competição, autor de 26 gols em 34 partidas. Os números do meia na Eredivisie, mesmo nunca repetindo aquela marca, se manteriam ótimos e em quatro das cinco temporadas seguintes ele superou os dois dígitos de tentos. Ainda assim, sua fama se erigiu a partir do que apresentou na Liga dos Campeões.

A primeira campanha completa de Litmanen na Champions com o Ajax aconteceu em 1994/95. Você provavelmente sabe o que aconteceu no final. Mas é importante ressaltar como o camisa 10 contribuiu para aquela conquista inesquecível. Atravessava os seus momentos mais inspirados e, na primeira fase, apareceu para destruir o Milan em duas oportunidades. Os rossoneri de Fabio Capello vinham do título continental, ao esculachar o Barcelona na decisão em Atenas. Perderam as duas contra os Godenzonen, ambos os jogos com gols do Kuningas. Apesar disso, os milanistas também avançariam aos mata-matas da competição.

Nas fases decisivas, a melhor atuação do Ajax aconteceu nas semifinais. Os holandeses encaravam o Bayern de Munique, treinado por Giovanni Trapattoni e recheado de jogadores da seleção alemã. Os Ajacieden não passaram de um empate no Estádio Olímpico de Munique, mas resolveram a volta em Amsterdã com goleada. Imponentes 5 a 2, que referendaram a magia ao redor daquele time e garantiram a passagem à final. Litmanen estava particularmente iluminado naquela ocasião. Anotou o gol que abriu a vitória e também assinalou o quarto, o mais bonito, deixando o marcador no chão logo no domínio, antes de fuzilar Oliver Kahn. O caminho para se consagrar com uma legião de outros craques na decisão, novamente contra o Milan, em jogo desta vez resolvido pelo imberbe Patrick Kluivert. Ao final do ano, além de conquistar o Mundial Interclubes, Liti também se tornou o principal concorrente ajacieden à Bola de Ouro. Terminou a votação em terceiro, atrás de George Weah e Jürgen Klinsmann.

A fama do Ajax, concomitante com a Lei Bosman, causou a sangria daquele elenco. Não demorou para vários jogadores importantes saírem. Apesar das propostas, Litmanen preferiu seguir em frente e ampliou sua idolatria na recém-inaugurada Amsterdam Arena. A melhor campanha do Merlin na Champions aconteceu na temporada seguinte, em 1995/96. Foram nove gols em dez partidas, liderando os Godenzonen a uma nova decisão. Durante a fase de grupos, promoveu a destruição do Real Madrid no Bernabéu – naquela que talvez tenha sido a atuação mais impressionante da equipe de Van Gaal. Nas semifinais, contra o Panathinaikos, o finlandês evitou o pesadelo ao seu time. Após a derrota na Holanda, ele comandou a reviravolta com dois gols em Atenas. Já na final contra a Juventus, o empate por 1 a 1 foi garantido pelo tento do craque no final do primeiro tempo. Todavia, mesmo convertendo seu pênalti, ele precisou experimentar o outro lado da moeda, com a decepção da derrota vivida no Estádio Olímpico de Roma.

Litmanen permaneceu no Ajax até 1999. Seria outra vez desbancado pela Juventus na Champions, nas semifinais de 1996/97. Deixou a Amsterdam Arena em tempos nos quais as seguidas lesões minavam sua carreira, para passagens pouco felizes no Barcelona e no Liverpool. Entretanto, retornou para ser a referência em outra campanha memorável dos Godenzonen pela Europa. Em 2002/03, já veterano, ajudou a equipe a alcançar as quartas de final. Anotou um gol fundamental na vitória sobre a Roma, na segunda fase de grupos. E também faria o Milan suar, no duelo que quase derrubou os futuros campeões. Ao final, apesar do esforço dos Ajacieden em Milão, os rossoneri avançaram às semifinais. Mas a idolatria ao Kuningas estava renovada. Ele ainda permanece como maior artilheiro do clube em competições europeias, somando 26 gols.

A segunda passagem de Litmanen pelo Ajax durou até 2004. A partir de então, o veterano iniciaria uma carreira peregrina por clubes de menor projeção na Europa, sobretudo na Escandinávia. E a veneração dedicada pelo Ajax ao finlandês permanece. Liti possui um lugar de honra no museu do clube. Mais do que isso, também segue com espaço privilegiado no coração e na memória dos torcedores. Pelo legado que construiu e pela bola que jogou, é considerado por muitos o maior camisa 10 que os Godenzonen já tiveram. Um camisa 10 que, com seu talento, ilustra a magia daquelas noites europeias ocorridas durante a década de 1990.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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